Farra artística que mudou o Rio

Documentário revive momentos da criação do Circo Voador

Secretaria da Cultura do Rio de  Janeiro

Imagens inéditas do arquivo pessoal de Roberto Berliner viram filme.  (Crédito: TV Zero)

Centenas de jovens artistas movimentaram a produção cultural da época.
Da lona na praia do Arpoador à ocupação da Lapa.

 

A história de uma “geração voadora” chega às telas de cinema a partir do dia 29/05. O filme A Farra do Circo, de Roberto Berliner e Pedro Bronz, registra a formação do Circo Voador, “a usina de sonhos”, e revela o material inédito filmado por Berliner entre os anos de 1982 e 1986.


Artistas no início de suas carreiras, Asdrubal Trouxe o Trombone, Barão Vermelho, Blitz, Chacal, e os consagrados Caetano Veloso, Gilberto Gil e Serguei são alguns dos nomes que passaram pelo palco do Circo. Da lona na praia do Arpoador à ocupação da Lapa, o documentário mostra, com fotos de arquivos pessoais e gravações em VHS, os cerca de 200 jovens artistas que movimentaram a produção cultural carioca.


Berliner revela que, enquanto gravava, já pensava em fazer o filme, mas outros projetos passaram na frente. Três décadas depois, o longa estreia com produção da TV Zero, produtora de Berliner, co-produção do Canal Brasil e apoio da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.


Confira a entrevista com os diretores de A Farra no Circo, premiado no Festival do Rio 2013:


Como foi mexer no passado?


Berliner: Pura emoção. Guardei com muito carinho aquele material no arquivo da TV Zero e poucas vezes voltei nele. Na hora de rever na ilha de edição e até agora, depois de ter visto o filme não sei quantas vezes, ainda me emociono.


Bronz: Foi muito divertido, via e revia as cenas e ria todas as vezes. Enquanto montava, tinha certeza de que o resultado seria positivo e pra cima. Quando se tem muito material, é sempre um problema, mas dessa vez, foi um problema bom. Optamos por planos mais longos, deixamos os shows rolarem… Não queríamos 50 apresentações fragmentadas; optamos por shows de determinados artistas, como Barão Vermelho e Caetano, que sintetizassem a performance deles.


O filme tem gravações que vão desde a primeira lona no Arpoador, em 1982, até a viagem para o México, na Copa de 1986. Encontrou dificuldade para decidir o que entraria, o que ficaria de fora e como seria a construção narrativa?


Berliner: Apesar de ter muitas horas gravadas, não foi tão difícil não. Deixamos sequências inteiras correndo; os planos longos são justamente para dar ideia de como era naquela época. A urgência, a falta de atribuição de valor e o jeito mambembe – tudo isso está lá. Aliás, não tem depoimento de ninguém justamente para ser um filme como se tivéssemos feito em 80.


Bronz: Até chegamos a fazer entrevistas, mas, se elas fossem inseridas, o filme seria outro. A ideia foi deixar que as pessoas pensem por si só, que aquilo tudo exista dentro da cabeça de cada um. Os depoimentos anulariam a questão sensorial. Sem contar que vivemos a era da informação. Se alguém quer saber mais sobre o Circo Voador, pega o celular no bolso e faz isso. Cabe ao cinema documental entender e perceber que já não precisa dar conta de tudo e que pode ir por caminhos da experiência sensorial.


Bronz, além de co-diretor, você editou o longa-metragem, trabalhou com um material que habita o imaginário da cidade. Como foi a experiência?


Bronz: Quando o Roberto me convidou para fazer o filme, me deparei com uma história que não conhecia. Cinema tem muito disso e acho interessante explorar algo que não vivi. Foi um grande processo de descoberta, mergulhei e vivi intensamente esse passado.


Com o filme pronto e nas salas de cinema, conseguem definir a importância do Circo Voador na cultura carioca?


Bronz: Eu faço parte de outro recorte do Circo Voador. Comecei a frequentar em 1989 – ia sexta-feira nos shows e depois ia de novo no sábado. Não saía de lá. A geração do filme é um marco, algo inegável. Ela conseguiu, através da arte, juntar as zonas sul, oeste e norte em um lugar, e isso mudou o Rio. Não foi algo só cultural, mas também social. A geração de artistas do Circo criou a noite carioca, foi a mola propulsora.


Berliner: Com certeza, o Circo Voador foi fundamental para construir um jeito de fazer cultura no Rio. Ele foi pioneiro em várias coisas; não só com o jeito coletivo de fazer arte, mas porque juntou, pela primeira vez, no mesmo espaço, gente de todas as áreas. Dança, música, teatro, vídeo, artes plásticas… Isso acabou por influenciar os trabalhos de cada um. Cada um se sentia um pouco o dono de tudo. O Asdrubal (Trouxe o Trombone), por exemplo, começou a usar vídeos nas apresentações.  Era uma coisa meio multimídia, mas não tínhamos ideia do que estávamos fazendo. Estávamos ali porque era legal, sem pretensão nenhuma de ser vanguarda.


Berliner, passadas três décadas, como enxerga nos dias de hoje o movimento cultural da década de 1980?


Berliner: Não tem mais aquele Circo, mas a abertura para outros bairros do Rio continua acontecendo. Acho que a cultura do Rio está em um momento legal, mas sinto falta de um espírito aventureiro. Hoje, as pessoas fazem coisas aprisionadas em atingir resultados. Perfeito Fortuna fala disso no filme; a arte não pode estar atrelada a esse mercado.  

Colaboração de Yzadora Monteiro

 

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