Jovens franceses protestam contra ascensão da extrema-direita

Manifestação contra a Frente Nacional, partido de extrema-direita, tomou conta da Praça da Bastilha, em Paris, nesta quinta-feira, 29 de maio de 2014.

Manifestação contra a Frente Nacional, partido de extrema-direita, tomou conta da Praça da Bastilha, em Paris, nesta quinta-feira, 29 de maio de 2014|Lucia Müzell|Lúcia Müzell

A quinta-feira foi feriado de Ascensão na França, mas ao invés de se divertir, milhares de jovens preferiram ir às ruas em várias cidades para protestar contra o partido de extrema-direita Frente Nacional. No domingo, nas eleições legislativas europeias, a legenda da líder Marine Le Pen saiu vitoriosa no país, com 25% dos votos.

A bancada da Frente Nacional passou de três para 24 deputados no Parlamento europeu – um resultado inaceitável, na opinião de 3 mil jovens que manifestaram em Paris, como Sarah, de 16 anos. “Na escola, nós estudamos muito o que aconteceu no passado. Não consigo compreender que isso esteja se repetindo e as pessoas votem nesse partido”, disse. “O principal é que somos contra o Frente Nacional. Eu não sou exatamente de esquerda, mas nenhum de nós quer que o Frente Nacional chegue ao poder”, afirmou Corentin, de 17. “Está começando pelas eleições municipais, agora as europeias, e pode acabar na presidência. Os eleitores que não foram votar são os que não votam FN. Se mais gente tivesse ido votar, é óbvio que o partido não teria tido essa vitória”, avalia o estudante.

Os jovens reunidos na praça da Bastilha, mas também em metrópoles como Lyon, Bordeaux, Marselha, Estrasburgo e Nantes, estavam indignados com o fato de que a Frente Nacional foi o partido mais votado pelos menores de 35 anos – 30% votaram por um candidato frentista, contra 15% para cada um dos principais partidos da França (Partido Socialista e União por um Movimento Democrático).

David, 18 anos, acha que essa escolha ocorreu pela falta de informação sobre a importância da União Europeia. “O resultado das eleições é inadmissível e não podemos aceitar isso, principalmente nós, os jovens. A França é o país dos direitos humanos e a extrema-direita não nos representa”, protestou. “A Frente Nacional é um partido fascista. É algo que nós lamentamos muito e nos dói muito, e é por isso que estamos aqui hoje.”

A estudante Brune, 17 anos, também não suporta o fato de o país ser associado a uma população xenófoba no exterior. “Eu acho que apesar dos 25% do Frente Nacional, não somos todos racistas e xenófobos. Me incomoda que estejam pensando isso da gente”, destaca.

Mudança de discurso

A defesa dos interesses franceses a qualquer custo é a principal arma do partido Frente Nacional para conseguir cada vez mais adeptos, na opinião do pesquisador Riccardo Marchi, especialista na história da extrema-direita. O professor da Universidade de Lisboa avalia que o discurso dos líderes tradicionais durante a crise – que não hesitavam em colocar a culpa dos problemas econômicos no bloco europeu – teve o efeito colateral de levar os eleitores para os extremos. O Frente Nacional ou o Ukip, na Inglaterra, são abertamente contrários à União Europeia.

Para Marchi, a conquista do eleitorado pela extrema-direita ainda vai aumentar. “Quando a Marine Le Pen faz um discurso contrário ao islã, ela o faz através da defesa dos valores do republicanismo francês. É por isso que ela consegue ter mais incidência no eleitorado francês e conquistar eleitores da direita tradicional francesa”, observa. “Ao defender os valores da França republicana e laica, ela defende a mulher contra o integralismo islâmico, por exemplo. Ou defende a democracia contra eventuais tendências autoritárias que supostamente haveriam no islamismo.”

Dificuldades para se unir

Apesar do aumento visível da força da extrema-direita na Europa – em países como o Reino Unido, a Dinamarca, Holanda ou Áustria -, Marchi acha que os novos deputados eurocéticos não conseguirão formar um grupo parlamentar em Estrasburgo. O Ukip britânico não cogita se unir à Frente Nacional, que descarta se aproximar com os neonazistas gregos e húngaros.

“Há tremendas divisões entre esses partidos. Possivelmente, teremos três posições: um grupo formado por alguns partidos em torno do Ukip, um segundo em volta de Marine Le Pen, e uma série de deputados que não se inscreverão a nenhum grupo”, explica.

No total, 129 deputados eurocéticos, a maioria de partidos de extrema-direita, conquistaram uma cadeira no Parlamento, que tem 751 membros. 

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