Exército Islâmico leva guerra para além das fronteiras do Iraque

A guerra sectária atinge um dos seus mais altos níveis, ameaçando transpor as fronteiras nacionais.

Roberto Montoya, Viento Sur

Soldado do Exército iraquiano em Buhriz. Foto de Staff Sgt. Stacy L. Pearsall, USAF, wikimedia commons.

 

A ofensiva militar iniciada há poucos dias pelo EIIL (Exército Islâmico do Iraque e Levante), está a ser arrasadora. Depois da queda de Mossul, a segunda cidade mais importante do país – dois milhões de habitantes -, após quatro dias de ferozes combates entre os jihadistas e as tropas governamentais, o EIIL continuou com grande celeridade a abrir caminho para o sul do país.

No seu percurso tomou por assalto importantes cidades como Tikrit, Baiji – onde se encontra a principal refinaria do país – Yalula, no este do país, localidades do oeste, na província de Anbar, e muitas outras, ameaçando as cidades santas de Nayaf e Kerbala e colocando-se em poucos dias muito próximo da própria Bagdade, uma cidade com 6,5 milhões de habitantes.

Mais de meio milhão de pessoas fugiram face ao avanço dos fundamentalistas. O grosso das tropas governamentais assentadas nas zonas atacadas abandonou as armas e fugiu ou entregou-se aos insurgentes.

A população teme não só o terror que tradicionalmente impõem os combatentes do EIIL, como também os bombardeios indiscriminados conduzidos pelo exército.

Al Maliki acusou esses efetivos de fazerem parte de “uma conspiração” contra o seu Governo. A população local teme não só o terror que tradicionalmente impõem os combatentes do EIIL e a aplicação rigorosa que fazem da sharia – lei islâmica -, como também os bombardeios indiscriminados, conduzidos pelo exército, às localidades capturadas pelos rebeldes.

A própria ONU reconheceu a morte de numerosos civis por causa dos ataques governamentais contra os rebeldes.

Apesar de não ter consolidado totalmente o seu controle sobre as cidades tomadas por assalto, a amplitude e intensidade dos seus ataques fizeram o Governo do xiita Nuri al Maliki temer pela sua própria sobrevivência. Os combates em localidades próximas à capital e os ataques suicidas sincronizados em diferentes pontos de Bagdade demonstravam que não estavam em causa simples ataques pontuais relâmpago de pequenas unidades de milicianos.

O EIIL, o mais poderoso e mais ultra grupo armado jihadista que opera no Iraque e na Síria, confrontado desde há muito tempo com a direção central da Al Qaeda, parece convencido de que desta vez pode travar um combate frontal e generalizado contra o regime de Nuri al Maliki, depois de ter conseguido várias vitórias militares nos últimos meses.

O primeiro ministro iraquiano alimentou o ódio num sector crescente da população, com a sua política ultra sectária face às minorias sunita e curda e a brutalidade com que responde aos protestos sociais e a toda a dissidência

O polêmico primeiro ministro, no poder desde 2006 e referendado pelas urnas em abril passado, alimentou o ódio num sector crescente da população, com a sua política ultra sectária face às minorias sunita e curda e a brutalidade com que responde aos protestos sociais e a toda a dissidência.

O EIIL também tem capitalizado esse mal-estar e conseguiu que muitas outras milícias locais sunitas das cidades atacadas se juntassem ao combate aberto contra as forças governamentais.

EUA prevê ações mas não o regresso das tropas

A atual ofensiva foi lançada de forma premeditada em momentos críticos para Al Maliki, quando este ainda mantém duras negociações para formar governo com os líderes das outras formações da coligação Estado de Direito com as quais foi às urnas.

O Governo iraquiano, pressionado pelos protestos populares contra as constantes matanças de civis provocadas pelos ataques com drones e caça-bombardeiros norte americanos, ou as ações de mercenários de companhias ao serviço do Pentágono, recusou assinar com os EUA o tratado de segurança que Obama reclamava. Os EUA pretendiam obter imunidade total para o pequeno contingente de tropas, forças especiais, espiões e mercenários que se mantiveram no país após finalizada totalmente a retirada no final do ano. E essa decisão de Al Maliki tem o seu preço; agora está a receber a fatura.

Os EUA já não têm unidades de combate no terreno e Barack Obama descarta a possibilidade de um regresso das tropas. No seu discurso transmitido na sexta feira passada o presidente fez uma clara alusão ao Não que recebeu de Al Maliki sobre o tratado de segurança: “Os Estados Unidos não se podem simplesmente envolver numa ação militar na ausência de um plano político dos iraquianos que nos dê segurança de que estão preparados para trabalhar conjuntamente connosco”.

“Não podemos repetir a situação anterior, quando nós estávamos ali e tínhamos que fechar um olho”, em alusão às divisões constantes na sociedade e governo iraquianos.

Obama tenta responsabilizar o Governo de Al Maliki, e o resto das forças políticas, de não ter aproveitado a ajuda dos EUA e de ter aprofundado as suas divisões internas.

Obama tenta assim responsabilizar o Governo de Al Maliki, e o resto das forças políticas, de não ter aproveitado a ajuda dos EUA e de ter aprofundado as suas divisões internas.

Em qualquer caso, o presidente norte americano encontra-se numa situação extremamente embaraçosa. Contava terminar o seu mandato sem novas dores de cabeça sobre o tema, mas agora não pode negar ante o mundo inteiro o falhanço e a situação dramática em que se encontra a população do Iraque. Sobretudo quando existe um risco real de o conflito transpor as fronteiras nacionais e atinjir diretamente também a Síria, Turquia e Irão. Mais de 80 turcos, a maioria deles empregados do consulado em Moscovo – incluindo o próprio cônsul – e cerca de três dezenas de camionistas, são reféns dos insurgentes.

Os milicianos do EIIL entram e saem pelas fronteiras entre a Síria e o Iraque, reivindicando que, dessa forma, já deram o primeiro grande passo para a eliminação das fronteiras e a instauração do seu almejado califado islâmico. O Irão, por sua vez, vê como os combates do nordeste do país, próximos ao Curdistão, se travam a dezenas de quilómetros do seu território.

No seu discurso de sexta feira passada Obama disse: “Dada a natureza destes terroristas, está eventualmente também em causa uma ameaça para os interesses americanos”. “Não enviaremos tropas novamente para combater no Iraque, mas pedi à minha equipa de segurança que prepare uma série de opções”. O presidente norte americano esclareceu que levará “vários dias” para adotar uma decisão. “Queremos estar seguros de que temos dados precisos sobre a situação que existe ali. Queremos estar seguros de contar com todos as informações necessárias para que eu possa ordenar ações, há que definir os objetivos, que os ataques sejam precisos e que texistam garantias de obter o efeito desejado”.

Irã em alerta máximo

O Governo do xiita Hasan Rohani prometeu ajuda ao seu aliado Al Maliki, mas sabe bem que não pode levar a cabo uma intervenção militar direta do seu poderoso exército no vizinho Iraque. Seria o detonar de uma situação que poderia envolver em chamas toda a região.

As tropas iranianas estão em alerta máximo, como também o estão as tropas de outro país vizinho, a Turquia.

O general Gassem Suleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária Iraniana e máximo responsável nas operações extra territoriais, visitou há dias Bagdad para conhecer em primeira mão as previsões das forças armadas iraquianas e valorizar a ajuda que possa prestar o Irã, o que dá uma ideia da gravidade da situação.

A ineficácia das forças armadas e de segurança iraquianas – 300 000 homens treinados e armados pelos EUA -, e as deserções nas suas fileiras, não lhe permitem garantir uma vitória militar contra as milícias jihadistas. Por isso, o Governo fez um apelo a todos os homens em idade de combater para “renovar as forças armadas”.

O principal líder xiita iraquiano, o Grande Ayatolá Ali al-Sistani, respondeu ao apelo, apelando aos xiitas na prece das sextas feiras a unirem-se à “jihad” (guerra santa) para derrotar os atacantes. Al-Sistani não só é sumamente respeitado pela comunidade xiita como inclusive por sectores sunitas. Milhares de homens de todas as idades começaram a apresentar-se como voluntários apenas uma hora após escutarem o seu apelo.

O representante de al-Sistani, o jeque Abdul Mehdi al-Karbalaie, esclareceu que os voluntários se deviam limitar por agora “a cobrir as baixas registadas nas forças de segurança” por morte ou deserção.

Al Sistani reclamou igualmente aos governos do Irão e dos EUA que prestem auxílio ao Governo iraquiano “antes de que seja tarde”.

Desconhece-se qual é a ajuda concreta que o Irão pode oferecer, e, no que respeita aos EUA, Obama aparentemente só contempla a possibilidade de enviar drones armados e caça-bombardeiros para atacar as colunas de milicianos do EILL que atualmente se deslocam sem quase resistência por amplas zonas do enorme território iraquiano.

Nas mãos dos curdos

Os ‘peshmerga’ instalaram-se na cidade de Kirkuk, rica em petróleo e que o governo curdo reclama há vários anos como parte importante do Curdistão.

Perante tal situação de emergência o Governo de Al Maliki decidiu pedir auxilio aos representantes do estável governo autónomo do Curdistão, que conta com a poderosa força dos ‘peshmerga’. Milhares destes combatentes curdos veteranos, que contam com moderno armamento semi pesado e pesado, partiram já para diferentes cidades e localidades situadas na sua fronteira com o Iraque para defendê-las de qualquer ataque. Mossul encontra-se a menos de cem quilómetros de distância de Erbil, a capital do Curdistão. Os ‘peshmerga’ instalaram-se igualmente fora das suas fronteiras, em lugares abandonados à sua sorte pelas tropas governamentais, como a cidade de Kirkuk, rica em petróleo e que o governo curdo reclama há vários anos como parte importante do Curdistão.

A dependência de Al Maliki de um aliado semelhante nesta conjuntura, o único que no momento parece capaz de travar a ofensiva do EIIL, teria sem dúvida um importante custo político posterior, e previsivelmente também territorial, mas o seu governo não pode propriamente pôr condições neste momento. A sua margem de manobra é estreitíssima.

Em momentos como este, em que os soldados começaram inclusive a construir trincheiras nos limites da capital – com maioria de população sunita – e a fortalecer as suas defesas ante um possível assalto dos jihadistas desde três frentes diferentes, Al Maliki nem sequer conseguiu respaldo do Parlamento para declarar o estado de emergência.

O fracasso económico, político, militar dos EUA no Iraque e a sua impotência para enfrentar por outras vias uma situação extrema como a atual, fazem temer uma derrota geoestratégica de ainda maior amplitude. Isto reabriu no seio da Administração Obama e no Pentágono o debate sobre a estratégia a seguir. E a via que parece começar a tomar cada vez mais corpo é promover a balcanização do Iraque, o reconhecimento internacional da fragmentação do território iraquiano em três zonas independentes controladas por xiitas, sunitas e curdos. A mesma fórmula que parece estar a ser incentivada no que respeita a outras situações igualmente incontroláveis, como a da Líbia e Síria.

(*) Roberto Montoya é membro do Conselho Assessor da Viento Sur. O seu último livro é “Drones, a morte por controlo remoto” (Akal, 2014, colecção A Fundo).

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