Guaraná do Amazonas abastece Mato Grosso há quatro décadas

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Há mais de 40 anos a família Thompson comercializa produtos à base do fruto. Foto: Reprodução/Guaraná Tibiriçá

Há mais de 40 anos a família Thompson comercializa produtos à base do fruto. Foto: Reprodução/Guaraná Tibiriçá

CUIABÁ – Há 43 anos não falta mais guaraná no Mato Grosso. Isto porque Jorge Thompson e uma estranha logística determinam o abastecimento do produto no Estado. Quando trocou Manaus por Cuiabá, aos 21 anos de idade, Thompson foi para consolidar um negócio de seu pai, Tibiriça Thompson, que há sete anos trazia regularmente toneladas de bastões de guaraná de Maués, do interior do Amazonas, para a capital mato-grossense. “Ele ia de avião de Manaus para São Paulo e de lá era enviado para Corumbá, de barco. Ali um comerciante, João Dolatoni, fazia a distribuição para todo o Mato Grosso, também pelos rios”, explicou Thompson.

A partir de uma pequena loja, exclusiva para a venda de guaraná em bastão na rua Thogo da Silva Pereira, em Cuiabá, nas proximidades do Hospital Geral, Jorge Thompson Paes Bernardes, em 1971, atendia no balcão a partir das seis horas da manhã o cidadão comum e personalidades. “Rubens de Mendonça (historiador), José Vilanova Torres (ex-prefeito), José Fragelli (ex-governador) formavam a clientela habitual. Quando apareciam por aqui artistas para shows e queriam conhecer melhor Cuiabá, eram levados para comprar guaraná”, relatou.

Ele se lembra de Rosa Maria Murtinho e Mauro Mendonça, Pepeu Gomes e Baby Consuelo, dentre outros, que consumiam o Guaraná Tibiriçá. “Mauro Mendonça depois que conheceu a loja tornou-se freguês assíduo. Pedia para mandar pelo correio para o Rio de Janeiro”, disse.

A lista de remessa do Guaraná Tibiriçá é enorme. Os produtos são enviados para consumidores de todo o país, principalmente para o interior de São Paulo. “Apesar das vendas no atacado serem feitas em todo o Brasil, têm compradores que preferem pagar as despesas de correio para comprar diretamente daqui”, explicou. 

Foto: Divulgação/Embrapa

O início

O guaraná, introduzido em Mato Grosso provavelmente por Marechal Rondon, há muito já havia se incorporado à identidade do cuiabano. Rondon, citado em uma reportagem por Aecim Tocantins, dizia que “o som de grosar [esfregar com a grosa, ferramenta para trabalho com madeiras] do guaraná era o amanhecer do cuiabano”. Este amanhecer ocorria em todo o Pantanal e em cidades tradicionais de Mato Grosso, como Acorizal, Rosário Oeste, Nobres e Jangada que ampliavam a geografia do fornecimento dos bastões.

O negócio de Tibiriça começou em 1964, por acaso, e firmou-se pelo hábito do cuiabano, que nem sempre tinha o guaraná à disposição. “Quando faltava, as pessoas pegavam o restinho do bastão com um alicate para passar na grosa”, lembrou Thompson.

Foi uma pane num DC-3 da empresa Cruzeiro do Sul que obrigou o voo de Manaus a São Paulo a fazer uma escala em Cuiabá. Tibiriça, ex-sócio de uma padaria, rumava para o sul do país em busca de novas oportunidades e num hotel da rua Galdino Pimentel encontrou Giovani, um italiano que ao saber de sua origem se apresentou como comerciante de guaraná e o convidou para assumir o negócio. Fez uma lista de clientes e entregou-lhe. Antes de partir o manauense sondou o negócio e dois meses depois chegou à cidade com 300 bastões de guaraná. A partir daí não parou mais com a venda.

Sucesso

Com o mercado promissor e garantido, já testado pelos últimos anos, Tibiriça resolveu abrir a loja e trouxe o filho. “Estava me preparando para estudar Direito e pensei que ia ficar por aqui [Cuiabá] uma ou duas semanas”, revelou. O jovem cresceu com o negócio do pai, ficou e ampliou a atuação.

Depois das seis horas percorria os bairros tradicionais de Cuiabá para fazer entrega das vendas que eram feitas durante o dia e aos sábados saía no início da tarde para os municípios vizinhos. Enquanto isso seu pai e o resto da família construíam a Tibiriçá, em Manaus. Desenvolveram toda a cadeia produtiva do guaraná, do plantio ao processamento da semente e fabricação dos bastões.

Atualmente, a Tibiriça já não planta o fruto e nem faz os bastões,  mas comercializa desde a semente até o suco (em forma de xarope), os bastões e o famoso guaraná em pó. “Eu comecei a produzir o guaraná em pó por sugestão do José Lotufo que tinha um moinho de fazer fubá e se ofereceu para moer para mim”, recordou. “Como a embalagem era difícil eu então acondicionava em vidros de maionese. Pintava as tampas de azul e tinha mais um produto para o mercado”, revelou Jorge Thompson. O crescimento da cidade levou a Casa do Guaraná para o Bairro do Porto onde está até hoje.

 

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