Israel não questiona as carnificinas executadas pelo seu exército

As forças armadas são a “vaca sagrada” do Governo de Netanyahu, que não assume os seus erros nem pretende entender que um genocídio em Gaza não é a melhor forma de “dobrar o Hamas”.
As críticas ao exército dentro de Israel tiveram que esperar até que terminasse a guerra do Líbano, e, agora, seguramente deverão esperar para que termine a guerra de Gaza, e serão muito comedidas.

Na quarta-feira à noite, o correspondente militar do Canal 10 da televisão israelita comentou um vídeo divulgado pelo Hamas sobre o último ataque dos seus milicianos contra uma posição militar israelita.

O ataque foi executado por um comando das Brigadas Al Qassam (braço armado do Hamas), que saiu de Gaza através de um túnel, matou cinco soldados destacados num enclave próximo da fronteira e regressou a Gaza pelo mesmo túnel, tendo gravado toda a operação e subsequentemente divulgado através da televisão.

Desde 8 de julho, esta foi a quinta infiltração de milicianos em Israel. A gravação desta operação, pelo próprio comando, faz recordar, logicamente, as gravações que vem fazendo o Hezbollah das suas operações contra Israel.

As gravações do Hezbollah são, sem sombra de dúvida, de mais qualidade, mas umas e outras põem em relevo, também neste ponto, a ligação existente entre a organização xiita do Líbano e a organização sunita de Gaza. Em outras palavras, o Hamas está a revelar-se neste conflito como um aluno avançado do Hezbollah, parecendo ter encontrado o seu próprio caminho de resistência.

 O veterano professor Moshé Maoz, da Universidade Hebraica de Jerusalém, entende que o Hezbollah e o Hamas “compartilham o mesmo objetivo”: conduzir uma guerra de guerrilhas contra um mesmo inimigo, Israel. O Hezbollah na fronteira norte e o Hamas na fronteira sul.

Uma diferença significativa entre estes dois grupos é que o Hezbollah existe num meio, o libanês, que é uma panóplia de religiões, enquanto, de um ponto de vista religioso, a Palestina “é bem mais homogénea”, diz Maoz.

As críticas ao exército são muito raras em Israel, e ainda menos em tempo de guerra, assim, o correspondente do Canal 10, limitou-se a sugerir de passagem, e sem modificar o seu tom coloquial, que os cinco soldados mortos cometeram o erro (ainda que não tenha pronunciado a palavra “erro”) de vigiar o horizonte que tinham à frente, a fronteira com Gaza, descurando a retaguarda, que foi por onde chegaram os milicianos após saírem do túnel.

Que isto tenha ocorrido pela quinta vez em poucos dias, e numa curta distância de quilómetros, parece indicar a existência de certas deficiências no exército, ainda que, uma vez mais, o correspondente não tenha referido o termo deficiências, tendo simplesmente sugerido isso com recurso a alusões. O exército é uma vaca sagrada em Israel.

A radicalização que o exército experimentou nos últimos cinco anos tem correspondência com a radicalização geral de uma sociedade onde a religião e o nacionalismo constituem os eixos centrais do discurso político, militar e educativo. Essas duas componentes, religião e nacionalismo, exigem cada vez mais e nunca se contentam com o que atingem.

Um dado que ilustra esta tendência surgiu, há poucos dias, no portal do diário Maariv, num artigo assinado pelo jornalista Ben Caspit era revelado que 40 por cento dos chefes militares que participam nas reuniões do Estado-maior usam Kipá, um solidéu com que os judeus praticantes cobrem a cabeça.

Esta circunstância é para muitos alarmante, maximizando-se se se tiver em conta que quando se estabeleceu o Estado em 1948 nenhum chefe usava kipá. O incremento significativo de kipás deu-se rapidamente nos últimos cinco anos e a tendência é que siga crescendo nesta linha, dando forma a um perigoso cocktail de religião e nacionalismo dentro das forças armadas.

Existem estudos que mostram que os soldados mais motivados são com frequência colonos dos territórios ocupados, muitos deles filhos da religião e do nacionalismo, e não em doses normais mas em doses extremas.

Estes jovens, que receberam uma educação problemática, ou pelo menos controvertida, inclusive para os parâmetros de muitos israelitas, nas escolas rabínicas da Cisjordânia, são os que contam com maior motivação e com um maior desejo de entrar na unidades de combate, que executam as ordens políticas do Governo para consolidar a ocupação e fazer com que a vida dos palestinianos seja um inferno.

O professor Maoz comenta que na sua opinião o exército está a cometer o mesmo erro que cometeu com o Hezbollah em 2006: achar que um conflito desta natureza pode-se resolver mediante o recurso à força, ou, inclusive, mediante bombardeamentos sistemáticos da aviação que não distinguem gregos de troianos.

“Dentro do exército há gente que pensa que para dobrar o Hamas há que matar civis, incluindo mulheres e crianças, em grandes quantidades, mas eu não compartilho dessa opinião”, diz Maoz. Desgraçadamente, não só o exército pensa assim, mas também o Governo.

A guerra do Líbano de 2006 durou 34 dias e contou com cerca de 1.300 libaneses mortos, a imensa maioria civis. Nesta guerra de Gaza dura já 23 dias e conta com mais de 1.300 palestinianos mortos, a imensa maioria civis. As carnificinas militares foram moeda corrente no Líbano em 2006 e são-no agora em Gaza. As críticas ao exército dentro de Israel tiveram que esperar até que terminasse a guerra do Líbano, e, agora, seguramente deverão esperar para que termine a guerra de Gaza, e serão muito comedidas.

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