Capital une o que a Faixa de Gaza separa

Judeu e palestino tentam disseminar a paz em São Paulo e querem levar esse exemplo ao Oriente Médio

More Ventura (à dir.) e o palestino Mohammad Hasan fazem selfie durante encontro / Leo Martins / Diário SP

Diário de São Paulo |  Ulisses de Oliveira 

Vinte e cinco dias após o início do último conflito entre palestinos e israelenses, dois moradores de São Paulo, cujas origens são países do Oriente Médio, querem promover na capital o que denominaram de “cultura de paz” para, depois, exportá-la à Faixa de Gaza, local onde mais de mil civis já morreram desde 8 de julho.

O rabino Gilberto Ventura, 40 anos, nasceu em São Paulo, é filho de pai egípcio e mãe polonesa e mora no bairro da Consolação, na região central. Viveu e estudou durante cinco anos em Israel e, hoje, dá aulas e palestras sobre religião na periferia da capital. “Como judeu, Israel é minha referência. Lá está a base da minha religião, minha ancestralidade, identidade e meus parentes”, disse o rabino, membro da comissão inter-religiosa da Secretaria Municipal de Inclusão Racial.

O palestino Mohammad Hasan, 48, é dono de uma indústria fonográfica e vive no Alto da Lapa, na Zona Oeste. Chegou ao Brasil em 1990 e veio para São Paulo em 2002. Mestre em física, fala cinco línguas e volta a cada dois anos para o país de origem. Visitou praticamente o mundo todo e a experiência de vida acumulada o fez chegar à conclusão de que “a religião não pode ser usada na vida prática diária”. “O problema lá (na Faixa de Gaza) se explica em parte por isso (pelo fundamentalismo de ambos)”, disse o muçulmano não-praticante.

Na última terça-feira, o DIÁRIO promoveu o segundo encontro entre os dois, que começou no vão livre do Masp, na Avenida Paulista, e terminou em uma cafeteria na mesma via – o primeiro havia sido em uma vigília em favor das vítimas palestinas, em Higienópolis, duas semanas atrás. Por duas horas, as divergências religiosas e políticas deram lugar a uma tentativa de disseminar a paz entre os seus conterrâneos do Oriente Médio. 

“Temos de começar aqui (a união e busca pela paz). Vamos estabelecer um diálogo semanal e, aos poucos, introduzir mais gente, judeus e palestinos moderados. Assim formaremos um ‘time’ para irmos até os dois países”, propôs Mohd, como prefere ser chamado. A ideia foi aceita por More (professor em hebraico) Venturas, como é denominado pelos seus alunos do Capão Redondo. 

“Desde o primeiro momento que eu vi você senti proximidade, afinal temos o mesmo pai”, confidenciou More a Mohd. A raiz de ambos os povos, segundo suas tradições, é o profeta Abraão. Daí surgiu a segunda ideia prática: usar a religião para romper o paradigma de segregação e guerra. O rabino propôs fazer uma tenda de oração em homenagem a Abraão, a qual seria aberta à visitação. O local seria comum a judeus e muçulmanos que vivem na capital.

“Precisamos demonstrar que não estamos satisfeitos com essa guerra. Há uma necessidade de nos unirmos. Um pedaço de terra não pode justificar a morte de uma pessoa sequer”, disse Mohd. “Há sangue dos dois lados e todo sangue é vermelho e toda lágrima é salgada”, afirmou More.

Depoimento

Gilberto ‘More’ Venturas,  judeu, professor de história do judaísmo e músico

‘Todo sangue é vermelho e toda lágrima é salgada’

A guerra é contra o Hamas, que tem como um dos seus princípios acabar com Israel. Portanto, é legítima a defesa de Israel. Porém, esse grupo acaba colocando os cidadãos palestinos como escudos. Dentro dessa narrativa, se exclui o outro, o civil, o inocente, o pai, a mãe. Somos todos seres humanos, tenho muitos amigos mulçumanos e as mortes estão acontecendo dos dois lados. Toda lágrima é salgada e todo sangue é vermelho. Eu creio na aproximação, no diálogo e na quebra de esteriótipos. Tudo isso vai reforçar a cultura de paz. Eu vivi em Israel por cinco anos, fiz o ensino médio e estudei religião, havia amizade entre israelenses e palestinos. Penso que a ignorância é o pior mal da humanidade e sou a favor da criação de um estado Palestino que coexista com o de Israel.  Procuro fazer a minha parte aqui em São Paulo, ensinando religião na periferia. Estamos construindo um centro social no Jardim Ângela para servir de ponto de integração entre os jovens da comunidade judaica de lá com a de Higienópolis. Esses gestos vão influenciar as gerações futuras e a mensagem chegará ao Oriente Médio.

Depoimento 

Mohammed Hasan T. M. Hasan,  palestino, empresário e engenheiro

A diferença é que o Brasil nos vê como cidadãos, não como religiosos

O conflito renasce porque ambos os governos não inspiram confiança entre os dois povos. Um governo não pode diferenciar o seu povo como adeptos ou não-adeptos a uma religião. Não pode basear suas decisões na crença. Essa é a diferença do Brasil. Aqui somos cidadãos e pronto. A religião serve como conforto espiritual para cada um e deve parar nisso, não deve ser usada na vida prática diária. Sou contra essa matança, de ambos os lados, mas está claro que há muito mais mortes do lado palestino e o Brasil foi digno, agiu dentro de princípios humanos, em se posicionar contra bombardeios em escolas e hospitais. A solução para esse conflito, então, deveria ser o diálogo, conduzido pelos países que  apoiaram a criação do estado de Israel, em 1948: Rússia, Estados Unidos e Inglaterra. Sou a favor de ambos os povos coexistirem naquelas terras, mas temos de construir confiança mútua. Israel parece os coronéis do nordeste: impedem o acesso a água, esgoto, luz e educação nas suas fronteiras. Quando abrirem seus muros, as armas do Hamas vão cair sozinhas.

Análise

Renato Somberg Pfeffer, doutor em filosofia e professor do Ibmec/MG

Quando nenhum dos lados tem toda razão

Como é possível em um conflito os dois lados terem e não terem razão? Esse parece ser o caso do conflito entre palestinos e o Estado de Israel. Todo povo ou Estado tem como princípio o direito a sua autodeterminação. Esse direito à soberania, contudo, tem um limite: cada povo deve se obrigar a respeitar os direitos dos outros povos. Quando a ONU determinou a partilha da Palestina, em 1947, seu objetivo era a criação de dois estados autônomos – um judeu e um árabe –  que substituíssem o domínio que era exercido até então pela Inglaterra. A não aceitação dessa partilha por parte dos Estados árabes já estabelecidos na região desencadeou uma série de conflitos e um drama humanitário para os palestinos que se tornaram um povo sem terra. Enquanto isso, os judeus consolidaram seu Estado. Com os acordos de Oslo de 1993, houve esforços significativos nas negociações para o estabelecimento de um Estado Palestino que convivesse harmonicamente com o Estado de Israel. Tais esforços, no entanto, têm sido minados por grupos radicais. No que tange ao atual conflito, é notória a ação criminosa do grupo Hamas, que alega ser o  legítimo representante dos árabes-palestinos. O grande problema é que esse grupo nega a possibilidade de existência do Estado judeu e defende sua eliminação. Seus mísseis lançados diariamente e os túneis clandestinos utilizados para desrespeitar as fronteiras israelenses acabaram ensejando uma reação violenta de Israel sobre Gaza, território ocupado pelos palestinos. O terrorismo do Hamas e a reação desproporcional de Israel são condenáveis. Por outro lado, se os palestinos têm direito ao seu Estado, Israel também tem direito à sua sobrevivência. Ou seja, nenhum dos dois lados têm toda a razão. Frente a esse dilema é recomendável lembrar os ensinamentos do sábio judeu Maimônides. Ele  defendia que na vida pessoal e nas relações com os outros devemos sempre buscar o caminho do meio, eliminando os extremos. O sábio, no entanto, via duas exceções para essa regra: devemos ser extremamente humildes e buscar a paz a todo custo. O oposto da humildade é a arrogância que nos impede de ver as razões do outro e nos leva à guerra. Israelenses e palestinos deveriam adotar esse princípio da humildade e aceitar a intervenção da comunidade internacional para resolver um conflito que nos torna cada dia menos humanos.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s