Impotência na juventude

O medo e insegurança podem causar problemas no desempenho sexual dos jovens de hoje. A psicóloga Dalva Machado explica em entrevista ao Diário da Manhã o que acontece no organismo do indivíduo

DIÁRIO DA MANHÃ | FABIANA GUIMARÃES

Em um mundo onde a sexualidade vem sendo bastante explorada, o jovem tem buscado alternativas que satisfazem sua ideia do que seria um bom sexo. Ao pensar desta forma, os garotos esqueceram do romantismo para se espelhar nas alternativas sexuais propostas por filmes pornô, onde o desempenho sexual está acima da construção de vínculos em relacionamentos amorosos. Dalva Machado, psicóloga especialista em sexualidade humana, explica em entrevista o motivo que os jovens possuem em buscar esse estímulo a mais para agradar a muitas parceiras, deixando de lado o foco em agradar somente uma.

Diário da Manhã – O que leva o jovem atual a buscar o medicamento (Viagra) que estimula a sexualidade sem a necessidade do uso?

Dalva Machado – São vários os fatores que podem levar o jovem a fazer uso de estimulantes sexuais, mesmo tendo consciência de que o uso é errôneo e perigoso. Como exemplo, temos a iniciação sexual precoce sem a devida maturidade cognitiva e emocional, conceitos errôneos do desempenho sexual, curiosidade, acreditar que fazendo uso do medicamento aumentará o prazer no ato sexual, a busca da obtenção do prazer a qualquer custo, pressão e cobrança do grupo no qual ele está inserido, supervalorização do sexo, facilidade de adquirir o medicamento e o baixo custo, devem ser levados em consideração.

DM – O que o faz pensar dessa forma?

Dalva Machado – Falta de confiança em si mesmo, medo de falhar, ou seja, uma impotência psíquica, estruturada em insegurança, baixo autoestima, entre outros fatores, tais como, falta de educação e orientação sexual, valores e princípios, grupo social em que convive, compulsão sexual e história de vida. Muitos jovens têm relações sexuais sem parceira fixa, e querem causar boa impressão, como não há construção de vínculos, confiança, afeto e intimidade com a parceira, geralmente não buscam uma ereção natural, como consequência, não conseguem se relacionar sexualmente sem fazer  uso do comprimido. Porque a grande preocupação no momento é mostrar seu desempenho sexual para ela, e não construir um relacionamento amoroso.

DM – O que deve ser orientado nestes casos?

Dalva Machado – Os jovens precisam compreender que a medicação não deve ser utilizada como afrodisíaco, ele é recomendado para pacientes com diagnóstico de disfunção erétil. E, quando ministrado de forma inadequada, torna-se disfuncional e pode causar prejuízos e sequelas em longo prazo. Além disso, torna-se indispensável entender que é nessa idade que os homens naturalmente atingem o máximo do seu vigor sexual, sendo que o organismo consegue produzir a testosterona, principal hormônio sexual masculino responsável pelo comportamento sexual e desejo sexual. 

DM – Como melhoras o desempenho?

Dalva Machado – Certamente existem maneiras de prolongar a vida sexual e melhorar a qualidade das relações, como exemplo, a prática de atividades físicas que favorece o aumento da produção hormonal, evitar o uso de bebidas alcoólicas, drogas lícitas (cigarro) e as ilícitas (cocaína, craque, êxtase, etc.) que causam prejuízo na vida da pessoa.

DM – O que se espera que o jovem entenda?

Dalva Machado – Que a medicação não deve ser tomada sem prescrição médica, pois causam efeitos colaterais, que vão desde uma cefaleia, congestão nasal, alterações visuais, eventos cardíacos agudos, além da possibilidade da diminuição da fertilidade, gerando até dependência psicológica. É importante ressaltar que os estimulantes sexuais nem sempre têm efeito eficaz no ato sexual de jovens que não apresentam disfunção erétil. No entanto, o uso continuado do medicamento poderá causar morte súbita, dependência psicológica e como consequência a dificuldade de obter ereção peniana de forma natural.

DM – O que leva o jovem a ter disfunção erétil na juventude? 

Dalva Machado – Não tem uma idade determinada para a disfunção erétil se manifestar, ela pode ter causas físicas ou psicológicas. É importante ressaltar que as causas psicológicas são as que mais provocam a disfunção erétil, como por exemplo: nervosismo, estresse, insegurança, excesso de preocupação em dar prazer a parceira, ansiedade em relação ao desempenho e medo de falhar durante a relação sexual. Estes fatores induzem o corpo a uma descarga de adrenalina que, por sua vez, causa diminuição do fluxo sanguíneo na região peniana, provocando a dificuldade de ereção. Isto se dá porque o pênis precisa receber fluxo sanguíneo constante e suficiente para que o homem possa ter uma ereção satisfatória.

DM – Como lidar com o jovem que possui essa disfunção?

Dalva Machado – Nestas circunstâncias, sendo a disfunção erétil de natureza psicológica, a terapia sexual, associada a psicoterapia comportamental cognitiva tem favorecido no auxílio da identificação das causas da doença, por meio de tratamento com técnicas apropriadas para cada caso, respeitando a singularidade de cada paciente. Ela possibilita mudança de percepção que a pessoa tem do mundo e da vida, promovendo novas descobertas e formas de agir e de se comportar no seu contexto. Como a disfunção erétil pode envolver fatores cognitivos, emocionais, físicos, psicológicos e comportamentais, são muitas as técnicas que poderão ser aplicadas.

DM – Qual resultado o jovem deve passar a ter de uma relação sexual nos dias atuais?

Dalva Machado – Ele deve esperar uma relação sexual prazerosa e completa. Isto é, com preliminares, diálogo, carinho, incluindo toque físico, que é um poderoso comunicador do amor, além de ser importante para garantir o prazer sexual e auxiliar no controle das sensações.

DM – Essa preocupação reflete em outras relações sociais?

Dalva Machado – Com certeza. Na maioria dos casos, o fato decorre da preocupação exagerada da sua falta de capacidade de desempenho. A inquietação com a disfunção sexual, além de limitar a atividade sexual masculina, reduzindo a possibilidade de prazer absoluto, leva também o homem a um sentimento de inferioridade, pois, ainda vivemos em uma sociedade machista onde o homem tem que ter um desempenho sexual sempre de forma adequada.

DM – Isso pode atrapalhar, de alguma forma, em alguma outra atividade cotidiana?

Dalva Machado – Sim, pois a disfunção erétil gera sentimentos de impotência, tristeza, depressão, que possuem como consequência o fato dele se sentir sem força e sem autoridade, com raiva, frustração e vergonha, o que poderá atrapalhar sua vida diária.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s