As intermediárias de Deus

No avançar do século 21, rezadeiras lutam para manter tradição secular que cura males do corpo e do espírito

Gazeta do Povo | FELIPPE ANÍBAL

Na parede de madeira, quadros com gravuras sacras – de Jesus, de Nossa Senhora e do Espírito Santo – dividem espaço com fotos de familiares. Ali, na salinha apertada da própria casa, Dorvalina de Ávila da Cruz, uma senhora de 76 anos, cumpre o que diz ser sua missão: benzer quem quer que lhe procure, pedindo a cura de males diversos, físicos ou psicológicos. Com galhinho de arruda em punho, a velhinha de pouca fala e muita fé é uma das que levam adiante em Curitiba a tradição secular das benzedeiras – a quem a comunidade atribui o “dom” da cura.

Fotos das benzedeiras: Dona Dorva

Brunno Covello/Gazeta do Povo

Brunno Covello/Gazeta do Povo / Dona Dorva: “Quem faz a pessoa ficar boa é Deus e a fé dela. A gente faz o pedido e Deus atende.”

Dona Dorva: “Quem faz a pessoa ficar boa é Deus e a fé dela. A gente faz o pedido e Deus atende.”

Missão

Aos 9 anos, dona Dorva estava no velório da tia quando dois homens começaram a brigar na sala onde estava o corpo. Um tiro atingiu a mãe dela, que segurava a filha mais nova num quarto contíguo. “A bala entrou por aqui e saiu por aqui”, aponta o abdômen e o ombro esquerdo. Para as rezadeiras, suas histórias estão ligadas à missão de benzer. “Tive que ter fé pra passar por tudo isso. É a missão da gente.” Dona Geni concorda. Com problemas na coluna e platina no joelho, anda com dificuldade, sobre uma bengala. Há 49 anos, um AVC roubou a fala do marido. O filho tem dependência crônica ao álcool. “É uma cruz que eu tenho que carregar. Eu vim pra aliviar o sofrimento dos outros, não o meu.”

Curas

Benzedeiras dizem entrar em ação quando o médico não dá jeito

Dona Joana pousa a mão sobre a cabeça do bebê Pedro, de 4 meses, enquanto faz uma reza. Com uma tosse cheia, o menino já havia sido levado “pela milésima vez” ao médico pela mãe, Maraísa Carachinski. A suspeita era bronquite. Ao fim da benção, a rezadeira sentencia: “Não é bronquite. É bicha [vermes]. A reza, um chá com uma gota de bálsamo alemão e massagem no peitinho dele vão resolver.”

É ali, na fronteira entre fé e ciência, que as benzedeiras parecem transitar. Enumeram casos que não foram solucionados pela medicina, mas que elas conseguiram curar. Dona Dorva lembra quando curou de “míngua” o filho de um policial que havia sido desenganado. Dona Joana menciona um psiquiatra que também esteve entre a vida e a morte. “Tem doença que é do espírito. Nessas, médico não consegue dar jeito”, assegura.

Dez anos atrás, o funcionário público João Sabino, de 50 anos, se livrou da síndrome do pânico. Atribui a cura às orações de dona Joana. Ainda hoje, vai com os filhos à casa dela a cada 15 dias, para que todos recebam uma oração. “A gente tem fé, então dá certo. Meus filhos sempre vieram, desde bebê, e, graças a Deus, têm saúde de ferro”, aponta.

Há dois anos, São João do Triunfo e Rebouças aprovaram leis municipais por meio das quais reconhecem as benzedeiras como agentes de saúde pública. A norma lhes permite manipular ervas medicinais para atender a população.

“Nós temos até carteira da Secretaria de Saúde, identificando. Foi muito bom. Às vezes a pessoa toma tanto remédio do médico, quando tem ali no quintal um remédio natural que cura”, diz a benzedeira Águida Cavalheiro, membro do Movimento Aprendizes da Sabedoria.

“Quem faz a pessoa ficar boa é Deus e a fé dela. A gente tem o dom de fazer essa conversa com Deus. A gente faz o pedido e Deus atende. Mas se a pessoa não tiver fé, não adianta”, assevera dona Dorva, como é conhecida nos arredores da CIC. Lá, há mais de três décadas benze diariamente pessoas de classes sociais e faixas etárias variadas.

O mapa da benção

Apesar dos avanços científicos e da ampliação do acesso à saúde, as rezadeiras resistem ao tempo, entre infusões, rendeduras e ramos de ervas. Em 2009, um projeto do historiador Victor Augustus Graciotto Silva mapeou 61 benzedeiras em Curitiba. No Centro-Sul do estado, o Movimento Aprendizes da Sabedoria identificou 294 delas: 161 em São João do Triunfo e 133 em Rebouças.

Seja onde for, os males que combatem com a força de suas orações são batizados na linguagem popular: quebrante, ar, míngua, cobreiro, machucadura, encosto… Para cada sintoma, uma simpatia ou uma reza. Imputam parte do “dom” à sensibilidade com a qual identificam do que a pessoa padece e a que tipo de benção recorrer.

“Eu sinto o que a pessoa sente. Na hora, eu já sei o que ela tem e sei qual é a reza certa”, diz Geni Guimarães, de 74 anos, apoiada em sua bengala de madeira.

Quando a reportagem a visitou, ela benzia o operário José Carlos Goulart, 52 anos, acometido de uma forte dor no ombro. Enquanto costurava um retalho, Geni murmurava uma oração. Ao lado, borbulhava um prato de água fervente, sobre o qual jazia uma chaleira. “Se fez bolha, é porque tinha um espírito ruim, que tá saindo. Mais uma reza amanhã, e ele já fica bom”, garantiu.

“Ontem, eu não conseguia levantar o braço. Agora, já tá quase zero”, disse Goulart, balançando o braço esquerdo.

Recompensas

A maioria das rezadeiras segue a fé católica. Pedem a intercessão de algum santo de devoção ou “proseiam” diretamente com Deus. Não podem cobrar pelos seus benzimentos: segundo a tradição, se pedirem dinheiro em troca, o “dom” vai embora. Entretanto, podem aceitar doações de quem é curado por suas rezas.

Na casa de Joana Good Barausse, em Campo Largo, tão frequente quanto a fila de pessoas que esperam para serem benzidas é o entra-e-sai de gente trazendo “recompensas” à rezadeira. Cestas-básicas, sacolas de frutas, caixas de doces para as crianças e dinheiro. “Uma parte fica comigo, outra vai para a Casa de Deus, outra vai para a pobreza”, disse a benzedeira, que reparte as doações.

Uma tradição secular à beira da extinção

Apesar de ainda serem encontradas mesmo em centros urbanos como Curitiba, a tradição das benzedeiras está ameaçada. De acordo com a cultura popular, o ofício é passado adiante pelas próprias rezadeiras para pessoas que tenham o “dom” e que estejam dispostas a carregar o fardo. Entretanto encontrar herdeiros não tem sido tarefa fácil.

“Como a tradição tende a ser passada adiante, se não houver quem a receba é algo que, com o tempo, tende a morrer. A maioria das benzedeiras que mapeamos eram senhoras de idade”, diz o historiador Victor Graciotto Silva.

Das cinco benzedeiras de Curitiba procuradas pela reportagem, três morreram sem ter passado o “dom” adiante. As que continuam na ativa ainda não encontraram sucessores. “Por enquanto, ninguém se interessou. A minha bisneta parece ter o dom. Se ela se interessar mesmo, vou passar pra ela. É uma menina muito inteligente”, disse dona Dora.

Além dessa dificuldade, dona Geni tem outra teoria para o enfraquecimento da tradição. “Hoje não tem mais ‘benzedô’ como antigamente porque o pessoal tá virando crente. E crente diz que é coisa do diabo. Besteira! A gente benze em nome de Deus”, aponta.

Revelações

As benzedeiras que não herdaram as rezas de familiares passaram por um processo de revelação, geralmente quando eram criança. Foi assim com dona Joana. “Eu ouvia uma voz que me dizia uma mensagem. Todo dia. Eu fui conversar com o padre, que me disse: ‘reze muito, porque você tem uma missão’. Então, eu cumpro essa missão com muita fé e amor”, conta.

Para dona Geni, o “dom” se manifestou depois que um senhor passou pelo vilarejo em que ela morava com a família, em Santa Catarina. “Eu tinha 14 anos. Ele disse: ‘Você vai anoitecer sem saber e amanhecer sabendo. Vai pôr a mão e curar, em nome de Jesus’. E assim foi”, diz

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