Morte de Burnier consta em Relatório

O assassinato ocorreu em 1976 quando o jesuíta, em companhia do bispo de São Félix do Araguaia, catalão Pedro Casaldáliga, tentava impedir a tortura de duas mulheres

Diário de Cuiabá | Rdrigo Vargas

O padre jesuíta João Bosco Penido Burnier foi assassinado com um tiro na cabeça disparado pelo militar Ezy Ramalho Feitosa

Um episódio de violência policial ocorrido na região do Araguaia há quase 40 anos foi relacionado pela Comissão Nacional da Verdade entre as violações de direitos humanos perpetradas pela Ditadura Militar a partir de 1964.
Em seu relatório final, divulgado nesta semana, a comissão cobra a “continuidade das investigações” sobre o assassinato do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier, ocorrido em 1976 na localidade de Ribeirão Bonito (hoje, o município de Ribeirão Cascalheira, a 850 km de Cuiabá).

Então coordenador do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), Burnier foi morto com um tiro na cabeça quando tentava interceder em defesa de duas mulheres que eram torturadas na pequena delegacia do povoado. O autor do disparo foi um soldado da Polícia Militar, Ezy Ramalho Feitosa.

“O padre João Bosco Penido Burnier morreu em decorrência de ação perpetrada por agentes do Estado brasileiro, em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela ditadura militar”, diz o relatório da comissão, em um trecho.

O relato do crime e de suas implicações ocupa cinco páginas do relatório. Entre as fontes da comissão está o inquérito policial conduzido pela Polícia Civil de Barra do Garças, além de relatórios oficiais produzidos por órgãos como o extinto SNI (Serviço Nacional de Informações).

Um documento produzido à época pela Divisão de Segurança e Informações do Ministério das Relações Exteriores evidencia que o governo militar se preocupava com a repercussão internacional do crime e “os possíveis prejuízos que poderia acarretar para a imagem externa do Brasil”.

Uma circunstância do episódio ajudava em sua ampla divulgação: Burnier estava acompanhado pelo bispo de São Félix do Araguaia, o catalão Pedro Casaldáliga, que à ocasião já havia se tornado uma referência internacional em defesa dos direitos humanos nos rincões da Amazônia.

Em depoimento citado pela comissão no relatório, Casaldáliga relatou que, no momento em que ele e Burnier chegaram à localidade, os gritos das mulheres que sofriam a tortura na delegacia podiam ser ouvidos de longe.

“Um dia sem comer e beber, de joelhos, braços abertos, agulhas na garganta e sob as unhas (…). Resolvi ir à delegacia interceder por elas. O padre João Bosco, que estava lendo e rezando (…), fez questão de me acompanhar”, disse.

A tentativa de dialogar com os policiais, segundo ele, se revelou inútil. “Eu me apresentei como bispo de São Félix, dando a mão aos soldados. O padre João Bosco também se apresentou. E tiveram aquele

diálogo de talvez três ou cinco minutos; com insultos e ameaças até de morte por parte deles.”

Diante da negativa, Burnier anunciou que denunciaria os policiais ao comando da corporação, o que motivou uma inesperada reação.

“O soldado Ezy Ramalho Feitosa pulou até ele, dando-lhe uma bofetada fortíssima no rosto (…) descarregou no rosto do padre um golpe de revólver, e em segundo gesto, fulminante, o tiro fatal, no crânio”, relatou o bispo, hoje aposentado.

Ramalho teve a prisão decretada e acabou expulso da corporação. No relatório da Comissão da Verdade, seu nome consta da lista de 377 pessoas apontadas como responsáveis por crimes cometidos na ditadura. Seu paradeiro atual, segundo a comissão, é desconhecido.

“Recomenda-se a continuidade das investigações sobre as circunstâncias do caso para a identificação e responsabilização dos demais agentes envolvidos.”

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