Os 150 anos da I Internacional e as discussões não superadas

GGN | CINTIA ALVES

Jornal GGN – A Associação Internacional dos Trabalhadores, referência histórica para o movimento operário, completou em setembro passado 150 anos. As entidades que fundaram a AIT diferiam muito entre si, mas se reconheciam em teorias e tendências que brotaram da cabeça de figuras como o comunista Karl Marx e o arnaquista Mikhail Bakunin.

Os frutos dos anos de trabalho da I Internacional ficaram registrados em milhares de páginas que foram analisadas e reunidas no livro “Trabalhadores uni-vos! Antologia política da I Internacional”, lançado em meados de outubro em diversas línguas, inclusive em português.

O cientista político italiano Marcello Musto, organizador do livro e professor de Teoria Sociológica da York University (Canadá), falou com exclusividade ao GGN sobre a obra publicada pela editora Boitempo. Segundo ele, sua particularidade reside na opção por uma antologia inteligível até para jovens apenas interessados em aprimorar a própria formação política, mas principalmente pela relação que o conteúdo produzido nos idos de 1860 ainda guarda com o mundo atual.

UMA ANTOLOGIA ACESSÍVEL E ATUAL

Nas palavras de Marcello Musto, a Internacional resultou em “sete mil páginas de documentos que foram publicados ao longo dos anos, sobretudo em inglês e francês. Isso significa que é muito difícil ler ou perceber as coisas mais importantes. Por essa razão, a ideia era organizar uma ontologia política, mas que fosse útil para o presente, para as contradições da nossa sociedade. A ideia era entregar o legado da primeira Internacional aos jovens das gerações atuais. Por essa razão organizei o livro em setores temáticos. Tem [capítulos sobre] trabalho, educação, oposição à guerra, sobre solidariedade internacional. Dessa forma, a antologia é muito mais fácil, pode ser lida quando o leitor está buscando uma questão particular – não uma solução singular [para os problemas de hoje], mas sim quais foram as discussões e soluções que militantes da Internacional tiveram”, contou.

Para Musto, alguns temas que apareceram à época da Internacional “lamentavelmente” são bastante atuais, especialmente quando o assunto envolve as relações de trabalho, o capitalismo na era da globalização, a formação política dos jovens e a crise de representatividade que vivem governos, sistemas, partidos e agentes políticos de diversos países.

PARA ALÉM DE KARL MARX

Antes de entrar nas questões atuais que se arrastam desde a I Internacional, Musto lembrou que Marx escrevia que a emancipação das classes trabalhadores deveria ser obra direta dos trabalhadores. “Geralmente a Internacional é considerada como a realização prática da teoria do Marx. Parecia que Marx era um único autor, era chefe, e isso não corresponde à verdade. Marx foi um ator fundamental porque era o teórico mais importante do conceito geral da Internacional. Ele estava em Londres, foi onde escreveu a maioria dos programas políticos, as resoluções, onde preparou os congressos, mas a Internacional era muito mais que Marx”,comentou. Por isso, Marx não poderia ser o único destaque em “Trabalhadores, uni-vos”. Outros colaboraram com pautas caras aos trabalhadores.

“Lia-se Marx, Bakunin, [Friedrich] Engels, a figura mais conhecida da história do movimento obreiro. Mas, na verdade, muitos textos são absolutamente importantes, são textos que dão uma percepção mais ampla do que era a política da Internacional. Por exemplo, textos que falam da igualdade entre homens e mulheres, da solidariedade entre os trabalhadores irlandeses e ingleses.”

Musto avaliou que o socialismo como crítica ao capitalismo não resolveria puramente os impasses entre homens e mulheres principalmente no que tange direitos civis e trabalhistas. Mas é no socialismo que essa discussão parece ter mais espaço para crescer, ponderou.

“Eu penso que a questão de gênero é diferente. Eu não creio que o socialismo como crítica ao capitalismo soluciana a questão de gênero. Mas também penso que quando avança o projeto emancipatório da sociedade socialista, sempre há mais espaço. Não é automático, isso é outra questão, mas há mais espaço para que as mulheres, as trabalhadoras, possam lutar. E isso se vê em alguns documentos da Internacional. Tem muitas mulheres importantes na Comuna de Paris e que eram dirigentes políticas reconhecidas.”

MERCADO DE TRABALHO EUROPEU

“Outra questão da atualidade, da infeliz atualidade desses documentos [da I Internacional], é a Europa [após a crise de 2008]. Se observamos a Europa hoje, vamos notar que há uma forma de legislação, um mercado de trabalho que remete a 1800, não!? O século XX foi o século dos direitos, das conquistas dos trabalhadores, mas hoje não é assim”, comentou Musto.

“Por exemplo, na Itália agora existem diferentes formas de contrato de trabalho. Isso significa que os trabalhadores são divididos, é mais difícil de organizar, é mais difícil de lutar para melhorar as condições. E se observamos o nível de exploração do trabalho, está em níveis que não existiam nos anos 1960, 70, 80, quando havia lutas obreiras, ou um sistema de Estado de Bem  Estar Social que era muito mais consistente do que existe hoje.”

Por essa razão, emendou o especialista, estamos “novamente numa situação de exploração no capitalismo e existe a necessidade de buscar alternativas.”

“Isso também penso para as contradições ecológicas, por exemplo. Porque o mantra neoliberal das últimas décadas apresentou o capitalismo como algo natural. Marx, em toda sua vida, lutou para apresentar o capitalismo como o que era, algo histórico, algo que podia ser transformado. Nos últimos anos parece que o capitalismo é o único guia econômico e social que existe. E hoje falam da possibilidade do fim do mundo por desastres ecológicos, mas ninguém age como agiam na Internacional. Esses documentos podem estimular a reflexão verdadeiramente crítica sobre sobre a sociedade.”

Na próxima parte da entrevista, Marcello Musto fala ao GGN sobre a crise de representatividade que o Brasil e outros países enfrentam, além do que considera a herança da I Internacioal.

Entrevista concedida a Cíntia Alves e Patrícia Faermann.
Imagens e edição por Pedro Garbellini.

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