Após 55 anos na ativa, Confeitaria Viena fecha as portas

A Tribuna | Sheila Almeida

“Embrulhe para viagem”. Essa seria a frase ouvida se tudo voltasse ao normal. Mas os pacotes tiveram outro rumo. Ontem, foi saboreada a última bomba de chocolate dos 55 anos de existência da Confeitaria Viena, no Gonzaga, em Santos. A loja não abrirá as portas ao público novamente.
Uma folha na porta agradece a preferência e confiança dos amigos e clientes. Muitos que passavam por ali pareciam ler uma nota de falecimento. Mistura de saudade, tristeza e memórias de um lugar que parecia falar.
O mobiliário bege que encobria boa parte das paredes brancas, meio amareladas, é cheio de histórias. Entre os quadros, um retratava os bondes na Praça da Independência e outro exibia uma foto do primeiro dono do estabelecimento.
O rosto de olhos azuis é do filho de alemães Helmuth Witt. Ele foi pai do último proprietário, Carlos Ernesto Campos Witt, de 70 anos, que reuniu seus 12 funcionários ontem e anunciou a decisão tomada no fim de semana: se aposentar.
Por enquanto, não há nenhuma certeza do amanhã. Só a de aproveitar a vida após um ciclo concluído. Alugar o imóvel e ter mais tempo para amar.
História
Helmuth Witt, o pai, ex-funcionário público da Prefeitura, aos 54 anos conquistou o sonho de ter uma confeitaria. O fez em sociedade com o austríaco Hans Korfeliners e o alemão Frederico Jobst. Morreu dois dias depois da inauguração, na Avenida Ana Costa, 514, em 10 de janeiro de 1960.
Carlos Ernesto tinha 14 anos quando isso ocorreu. E assumiu o lugar do pai, com a mãe e os outros sócios. “Lembro que quando derrubei um doce no chão, a alemã (sócia) perguntou se eu ia pagar na hora ou era para descontar do meu salário”, recordou o homem que, mais tarde, trabalhou em todas as receitas, até assumir o ponto.
Por sua cozinha passaram cozinheiros alemães, suíços, bolivianos e espanhóis. E como eles foram parar lá: “Não sei”, responde, entre risos”.
De fato, a vida levou a Viena para o caminho de Carlos Ernesto e vice-versa. A loja funciona um ano a mais que a existência de seu pai, o idealizador da confeitaria. Durante esse tempo, pouco mexeu nas receitas.
“Elas pouco mudaram desde a inauguração. Só me lembro de ter de pedir aos alemães toda hora para colocar mais açúcar no quindim. Eles diziam que ia estragar. Não gostavam, mas aprenderam”.
Entre as outras receitas que ficarão na memória estão o pão trançado, tradicionalmente vendido aos sábados, para os judeus, os sorvetes excêntricos de queijo, cenoura, caipirinha e rosas e o panetone haifa. “Se eu vendesse panetone uma semana depois do Natal iam falar que era coisa encalhada. Demos um formato e o nome diferentes”, conta Ernesto.
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Confeitaria mantinha um público fiel. Para Carlos Ernesto e Maria Eliza, a hora é de curtir a vida
Maior emoção
Nessa reta final da Viena, o momento de maior emoção foi abrir as portas pela última vez. Entre seus funcionários, que souberam do fechamento ontem mesmo, alguns o acompanham há mais de 20 anos.
“Eles acharam que eu estava fazendo a coisa certa. Todos perderam o emprego hoje (ontem) e a reação foi inesperada. Todos me apoiaram e saíram daqui me abraçando, como se fosse uma pessoa da família”, diz, emocionado.
Apesar da tristeza passageira, Carlos Ernesto tem um ponto de apoio com quer dividir o resto da vida. Até cinco anos atrás, sua esposa, Maria Eliza de Barros Witt, de 65 anos, trabalhou com ele no atendimento. Mas decidiu se aposentar antes. Não se arrepende: após o ciclo, quer aproveitar. O marido também.
“As filhas estão encaminhadas, seguiram outros rumos e acho que está um fardo muito pesado para mim. A inevitável hora está chegando e temos de aproveitar para fazer algumas coisinhas, se o tempo permitir”, conta o empresário, que quer “ler um pouquinho mais, velejar, xingar mais”.
E apontando um outro quadro colorido na parede, de um palhaço cuja legenda é The show must go on, Carlos Ernesto novamente agradece, traduz e complementa. “Quer dizer: O show tem de continuar. De outro jeito, mas continuar”.
Opinião
Fernanda Lopes – Editora Boa Mesa
Das últimas vezes que passei pela Doceria Viena, já havia sentido um certo ar de despedida, mesmo que nada tivesse sido dito. O proprietário, Seo Ernesto, era daqueles donos que sempre estão na loja. Com sua cadeirinha, ficava ali conversando com os clientes, a maioria fiel.
A Viena era (difícil escrever esse verbo no passado) uma doceria que preservava tradições. Só ali eu encontrava os discos de suspiro para montar merengue ou o stolen para comer com cafezinho.
Longe das modinhas, de cupcake a brigadeiro gourmet, a doceria servia doces tradicionais e a preços justos. Entre eles as bombas de chocolate, de café e de creme. Na minha opinião, (eram) as melhores da Cidade. Onde mais vou encontrar um baba ao rum tão gostoso? Aliás, a maioria dos bolos tinha um gostinho de bebida, bem ao estilo europeu. Havia quem torcesse o nariz, mas eu gostava.
Sim, nos últimos tempos, a loja andava precisando de uma reforma, é inegável. Talvez já fosse o prenúncio do que estava por vir. Uma pena, mais um local querido, que tinha a cara de Santos, fechando as portas. Para quem era cliente (ou não), perdeu-se mais uma referência gastronômica santista. Agora, passar por aquele pedacinho da Avenida Ana Costa e ver uma paisagem diferente vai ser bem menos doce.

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