Juga di Prima, uma ave exótica no ninho da música chilena, por Frederico Füllgraf

GGN | Frederico Füllgraf

De Santiago de Chile, especial para Jornal GGN

Em uma tarde deste tórrido verão santiaguino de 2015, que agora se aproxima do ocaso, reuni-me com Juga di Prima – jovem compositora e intérprete que está mudando os rumos da moderna música chilena – em uma mesa de calçada, protegida por guarda-sol, de um restaurante peruano em Baquedano, o Quartier lítero-boêmio-culinário da capital chilena.

Entre almoço, muitos espressos e uma garrafa de tinto chileno, a artista, que reside em Buenos Aires, pontificou sobre sua carreira, que completa dez anos, carregada de lugares incomuns, que vão de seus primeiros passos musicais no rock chileno, pela afinidade com o chanson francês da Era Piaf, até sua paixão pela recôndita Ilha da Páscoa, cenário que escolheu para viver durante um ano inteiro e lá gravar dois álbuns (reunidos em “El Orden De Las Cosas”, 2010) com suas próprias composições – lugares, todos, invulgares na tradição da música chilena contemporânea, talvez porque a cantautora, sinta-se em casa em tantos sítios e à vontade com tantas sonoridades da rosa dos ventos.

Alta, esbelta e de descendência árabe, do modo como la Piaf não gostava que a chamassem de Edith Giovanna Gassion, a artista costuma intimar seus interlocutores para que não a chamem pelo nome de batismo, María José Yarur, mas exclusivamente de Juga di Prima, misto de um apelido de infância com o sobrenome da poeta beatnorte-americana, Diane di Prima, e combinação tão exótica como seus figurinos aviformes – com bicos, garras e plumas – que tomou emprestados do “homem-pássaro”, entidade mitológica da Ilha da Páscoa.

Mozo, ¡otro espresso, por favor!”

O gravador e a máquina fotográfica engatilhados, pela primeira vez em sua carreira, Juga di Prima esbanja charme e profissionalismo para um meio de comunicação do Brasil, país cuja música a seduz e onde adoraria apresentar-se.

“Sempre me senti uma avisrara no meio musical chileno, onde tenho muitos amigos e no qual há profissionais que admiro muito”, confessa-me no início da entrevista.

E emenda: “Veja, para mim, os grandes baluartes da música popular chilena são a Violeta Parra e o Víctor Jara. Como compositora, sem dúvida que a Violeta é a maior artista chilena de todos os tempos. Isto, devido à sua força, sua delicadeza e criatividade”

Com Violeta Parra e Víctor Jara, di Prima bate a claquete para a primeira sequência da conversa, pois, para ouvidos brasileiros não entendidos, uma introdução se faz necessária.

Rosita Serrano, guerra fria & Lucho Gatica

Para quem a ouviu, a música chilena é sinônimo de romance à latina, de um passado que não tem volta. Muita dor de cotovelo, que sói atender pelo helênico eufemismo de nostalgia.

Ah, saudosos anos 1950!, suspirarão tias e tios.

Anos, na verdade, bombásticos, estrepitosos.

Escrevia-se o início da “guerra fria”, o planeta outra vez dividido entre “bons” e “maus”. Como sinal de advertência, em ambas as trincheiras, bombas atômicas com a fùria destrutiva de cinquenta Hiroshimas eram testadas à torta e à direita. Por vezes, profetas do mau agouro anunciavam o fim dos dias na Terra, mas do lado de cá, o “dos bons e justos”, o mundo parecia em ordem.

Nas jurássicas radiolas, as agulhas dançavam sobre as nervuras dos lendários 78rpm. de baquelite, com a veludínea voz de Lucho Gatica, gorjeando boleros rasga-corações como “Tú me acostumbraste”, ou “Espérame en el cielo”. Nascido em 1928, há muito que Gatica radicou-se nos EUA, de onde ainda hoje, em 2015, é capaz de deslocar-se ao Chile, com algumas palhinhas para seu fã-clube octogenário.

Mas o verdadeiro “chilenische Nachtigall” (“rouxinol chileno”) cantava com voz de mulher e se chamava Rosita Serrano, aliás de María Martha Esther Aldunate del Campo, nascida em 1914, em Viña del Mar, e celebrizada na Alemanha na década de 1930 como a musa latina de Adolf Hitler, para quem cantou “Roter Mohn” (“Papoula Vermelha”).

Só ouvindo a sensualíssima rumba “El Manisero” (1938), para imaginar – como numa lasciva “viagem” de ópio – a claque nazista babando não apenas pelos trinos, mas pela chilena inteira, curvilínea, com 1,80m de altura.

Rosita Serrano gozou de enorme prestígio e ganhou rios de dinheiro no Terceiro Reich, privilégios que da noite para o dia desmoronaram, quando retornou de uma turnê à Escandinávia, onde se apresentou e prestou auxílio a judeus refugiados, o que lhe custou a perseguição da SS e a proibição de seus discos. Serrano retornou ao Chile na década de 1960, onde sua carreira viveu um silencioso ocaso, falecendo em 1997.

Já na década de 1970, a “Nueva Canción Chilena” foi predominante na cultura musical do país, mas pouco conhecida no exterior.

O mundo fez seu primeiro contato com a música popular chilena na semana do golpe militar de 11 de setembro de 1973, que colheu de surpresa a banda Inti Illimani durante uma turnê pela Itália – Inti illimani Italia – cujas canções inundariam estações de rádio e atos de solidariedade Europa afora.

De raízes folclóricas, reinvidicadora do legado de Violeta Parra, ideologicamente identificada com a Revolução Cubana, a campanha guerrilheira de Che Guevara, a resistência internacional à agressão militar ianque ao Vietnã, e letras que iam do romantismo de la Parra a mensagens de apelo social e politico, a “Nueva Canción…” foi encabeçada no Chile por Victor Jara, uma penca de cantautores (compositores e intérpretes), como o letrista e romancista Patricio Manns, e as bandas Quilapayun, Inti Illimani e os Jaivas. Após briga judicial com a duração de mais de vinte anos, hoje a Inti se divide em dois grupos irreconciliáveis – Inti Illimani e Inti Illimani Histórico –, dos quais o segundo, encabeçado por Horácio Salinas, é o mais criativo, musicalmente falando, e oficialmente reconhecido no Chile.

No entanto, suas mais fortes influências – por um lado, melódicas e rítmicas e, por outro, instrumentais – foram argentinas (a Zamba e a Sajuriana) e boliviano-peruanas ( o uso daquena e do charango). Durante 17 anos da ditadura Pinochet, a “Nueva Canción” esteve proscrita e a maioria de seus intérpretes, exilada.

Do conservatório ao rock

Juga di Prima representa a geração “dos que vieram depois”, rebentos criados no Chile redemocratizado.

“Uma das minhas primeiras explorações foi a música lírica alemã”, surpreende-nos di Prima, confessando: “No fundo, creio que aos 4 anos de idade tinha praticamente decidido que ia ser música. Entre as mais fortes influências quando garota, estavam o blues e o rock clássico. Estudei canto dos 13 aos 18, quando ingressei ao Conservatório de Música da Universidade Católica. Isto foi em 1998. Então, por um lado estava a formação clássica, acadêmica e, por outro, eu ouvia Janis Joplin, Luis Alberto Spinneta, Charly García, a Joni Mitchell – Joni Mitchell Live 1972 you turn me on -, Miles Davis, os Doors, Led Zepellin e Silvio Rodríguez. Esse era meu mundo musical”.

Haja ecletismo!

“Verdade!”, admite a chilena.

Concluída a faculdade, em 2007, um ano depois começou a apresentar-se em público com Juga Di Prima y Otros Espectros, um sexteto formado com instrumentistas de primeira linha da Universidade de Chile, ases do fagote, clarinete, violoncelo, violino, dos violões de 12 cordas, incluindo até mesmo a lira.

Em 2009, a compositora gravava seu primeiro trabalho experimental (“Pequeños Frutos”) que – pau p´ra toda obra – produziu, interpretou, mas cuja capa e miolo de caixa também ilustrou: “Foi um trabalho inteiramente artesanal, feito com muita paixão”, insiste. E com aquele repertório percoreu todos os bares de Providencia e Bellavista, tocando, sozinha, violão, calimba, lira e tambor.

Depois desses primeiros mergulhos no mundo profissional, decidiu então retornar “à ilha”, como se refere familiarmente à Rapa Nui, denominação dos antigos navegadores tahitianos para “ilha grande”, que os futuros colonizadores europeus rebatizaram de “Páscoa”.

Mas guardemos para o final o retiro para Rapa Nui e excursionemos, primeiro, por algumas de suas composições com tinturas genuinamente urbanas.

Amor” é o nome de uma praia depois da ressaca

À exceção de Volveré por ti – uma apaixonada balada, exaltada pelas cordas do ukulele e encenada em um videoclip carregado de simbolismo surrealista – suas canções, como El Orden de las Cosas ou Quise estar enferma (Juga di Prima Ficciones) transpiram dor e alienação – parte do coquetel completo do que, há cem anos, Sigmund Freud tão acertadamente descrevia como “o mal-estar na cultura”, hoje potenciado pela incomunicação.

Mal-estar que a chilena compensa com cortante ironia, por vezes com desprezo, como em Los Celos:

Matu Mahatu, vámonos ya

Siempre evitando una escena

Fue un bailecito

Un buen comentario

Lo que diría cualquiera

Ven para acá

No te mentía

Tú eres el que yo quería

Ven para acá

Deja que los demás inventen sus porquerías

Ven para acá, pórtate bien

Por qué me miras tan feo

Pérdona que me ría

Quién lo diría

Ya te atraparon los celos

Ya te atraparon los celos

Los celos son

una amenaza pal bienestar de las razas

Lo primitivo es atractivo

lo bruto tiene su gracia

Si sigues inseguro, pronto verás

que no tenemos futuro

si tu corazón es mío

confía en mí

así como yo confío

así como yo confío

Matu Mahatu, Ka vai mai te Rima

Notícias da vida como ela é: país de arraigada cultura partriarcal, o Chile não é nenhuma ilha da harmonia amorosa em uma América Latina açoitada pelo machismo e a violência nas relações afetivas. Apenas 50% das chilenas está disposta a enfrentar sujeição, opressão e despersonalização com denúncia judicial e ruptura, a outra metade prefere a porta de trás, os casos extra-conjugais, motivo pelo qual a infidelidade, masculina e feminina, responde por 70% das causas de divórcio.

E como dizia o libreto da “Cármem”, de Bizet: “los celos matan”. Os ciúmes são homicidas, quando não assassinam o ser “possuído”, devastam o sentimento.

Houve um caso assim, sofrido em Rapa Nui, a chilena conta-me com expressão de ressaca emocional. Discreta, adverte que, por muito tempo, namoros, nem casamento – quanto mais então filhos – constarão em sua agenda. Mas reportagem sobre artista não é divã da vida privada, pois então sigamos falando de música.

A “rupturista”: do rock à preguiçosa ondulação de Rapa Nui

“Quando desembarquei na ilha, eu trazia na algibeira umas quarenta músicas que tinha composto para acompanhamento de violão”, recorda Juga, que pisou em terra, decidida a gravá-las de uma só pancada.

E foi então que descobriu o ukelele (ukulele, no Brasil), instrumento tradicional com 4 cordas, mais tocado na ilha, desenvolvido a partir do braguinha ou machete, levados no séc. XIX por emigrantes madeirenses às plantações de cana-de-açúcar do Havaí. Juga di Prima apaixonou-se por suas sonoridades oceânicas e não o largou mais.

Viajeira, tem o pé na estrada há mais de vinte anos.

“Cuando eu era pequena, com uns 10, 11 anos de idade, tive a sorte de viajar por muitas ilhas com meu pai”, relembra. “Ele é economista e à época era superintendente de uma empresa de valores e seguros, com muitos convites para dar conferências. E, em vez de se fazer acompanhar por uma namorada – porque estava separado da minha mãe – era eu quem ele levava”.

E o olhar de Juga di Prima me atravessa, fixando-se em algum misterioso ponto do outro lado da rua. Monocórdia, sem desviar o olhar “perdido”, diz: “Aquelas viagens me abriram a cabeça, fui conhecendo outros países, conversando com pessoas de outras culturas, falando inglês, Estive em Barbados, Martinica, Jamaica, no Quênia – lugares exóticos, interessantes, que me chamaram muita atenção”.

E então aconteceu aquela escala em Rapa Nui.

Na volta ao Chile, de uma viagem ao Tahiti, o voo em que viajava com o pai fez uma escala obrigatória na Ilha de Páscoa. Pai e filha decidiram interromper a viagem e pernoitar na ilha para conhecê-la no dia seguinte.

“O que senti quando pus os pés naquela terra me deixou de queixo caído. Não é racional”, adverte a chilena, aludindo ao seu espiritualismo. “Sinto uma conexão ancestral, eu acredito em vidas passadas. Sei que vivi, que aconteceram coisas comigo ali. Vou te dar um exemplo: eu chego lá e me dá vontade de abraçar as rochas e os campos da ilha. Sinto um amor irracional por essa terra, seus símbolos, sua gente.”

Escravos na ilha mágica

Depois de tantas idas e vindas, ainda fascinada, a cantora tira da bolsa um volume: The Mystery of Easter Island: The Story of an Expedition, de Katherine Routledge (1866-1935), a inglesa que em 1914 explorou o Chile de ponta a ponta, atravessou o Pacífico, e foi estudar osmoais da Ilha da Páscoa que ilustram os cartões postais, e decifrando petróglifos, que possivelmente codificavam a cosmogonia dos habitantes primevos, navegantes da longíngua Polinésia que devem ter alcançado Rapa Nui entre 300 e 400 d.C. , à qual legaram o culto a Tangata Manu, o “homem-pássaro”.

Fontes históricas indicam que entre os séculos XV e XVII a ilha sofreu sua primeira catástrofe alimentar em virtude do desmatamento e sobrepovoamento, culminando em intensas lutas intertribais, das quais alguns moáis tombados são ainda silentes testemunhas.

Em 1722, o holandês Jacob Roggeveen realizou o primeiro contato europeu, seguido pelo espanhol, Felipe González de Ahedo, que levou a cabo o primeiro mapeamento da ilha, então batizada de San Carlos. Utilizando os mapas de Ahedo, o pirata britânico, James Cook, um dos fundadores da Austrália, pisou a ilha com seus corsários em 1774.

Em 1888, a ilha foi anexada pelo Chile, que a transformou em fazenda de ovelhas, por sua vez administrada por uma empresa escocesa, estabelecida no Chile, que submeteu os nativos à condição de escravos: eram pagos em bens e víveres, ao estilo do velho cambão nordestino e amazônico e estavam proibidos de exercer seus cultos pagãos, declarados extintos e substituídos por um violento protestantismo europeu. Em 1914, os nativos ergueram um motim, mas foram truculentamente reprimidos pela marinha chilena. Somente em 1966, os Rapa Nuianos foram reconhecidos como cidadãos chilenos, que invadiram a ilha em bandos, hoje mais uma vez sobrepovoada.

Essa história de saque e colonização não podia passar despercebida pela jovem música chilena, cujas composições, no idioma nativo, por vezes soam como lamentos empurrados mar afora pela arrebentação das ondas: Kite vai kava.

Em 2014, lançou “Juga di Prima 2009-2013”, título datado porque as composições do quadriênio nunca tiveram a difusión que mereciam ter tido, explica.

Santa de casa…

“Nadie es profeta en su tierra”, diz o adágio espanhol, que significa exatamente a mesma coisa que “santo de casa não faz milagre”.

País verticalista, com uma bolha urbana chamada Santiago, onde tudo ou nada acontece, segundo os humores do mercado, Juga di Prima resolveu fixar-se em Buenos Aires, o centro latino-americano de produção cultural por excelência.

“Lá tratam bem o artista, as pessoas assimilaram que o artista merece respeito, espaços e paciência. Creio que na Argentina as pessoas são menos ingratas como o Chile é com seus artistas, e os esquece menos. Os meios de comunicação e a radiofonia argentinos são algo incrível e precioso. Há muitos programas no ar que convidam os artistas para ir tocar e falar de seu tarbalho. Lá os profissionais de comunicação levam muito a sério seu trabalho e isso é diferente e fascinante. Acho que, como chilenos, temos muito a aprender deles”.

Artista que não embarcou nos modismos de fácil consumo e ritmos bate-estaca de sua geração, aposta na lei recentemente aprovada, que obriga a rádio privada chilena a executar 20% de música da safra nacional em sua programação diária – porcentagem que Juga di Prima questiona, cobrando 50% de execuções.

Enquanto a implementação da lei não acontece, o jeito é investir no Youtube, palco de sua mais recente produção:

 JUGA DI PRIMA EN BORIS CLUB

“Sinto que sou dona de um estilo que não se encaixa em nada no cenário musical atual do Chile. Meu negócio é botar o pé na estrada. Viajeira, não me vejo vivendo durante muitos anos em um só lugar”.

O Brasil como palco para a apresentação de seu trabalho, é um dos seus próximos objetivos.

Enxadrista profissional – que aprendeu a estudar lances estratégicos pela mão de seu pai, criador da Fundacão Chilena de Xadrez, e que enxerga o xadrez como arte do diálogo – a cantora presenteou-me um precioso tabuleiro em forma de caixa dobrável, com figuras artisticamente esculpidas em sândalo, do mesmo modo como resolveu doar algumas dezenas de tabuleiros e incentivar um concurso de enxadristas em Rapa Nui.

Diz: “Criei uma teoria: a de que você pode canalizar e domar a violência e a beligerância do ser humano através do xadrez.”

Brinquei: “Teoria perspicaz, deveria inspirar a Casa Branca e o Pentágono”.

Vídeo:

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