50 anos da Globo é marcado por protestos em todo país

Mídia Ninja

Movimentos sociais e sindicais se reuniram para denunciar a parcialidade da emissora e sua herança da ditadura militar

27/04/2015

Por Larissa Gould, dos Jornalistas Livres

Ato em Brasília / Foto: Mídia Ninja

No dia  26 de abril, a Rede Globo de televisão completou 50 anos. A emissora nasceu fruto de uma concessão pública da ditadura militar. Não por coincidência, completa meio século um ano após Golpe Militar ter feito seu quinquagésimo aniversário.

O ano passado foi marcado por atos de descomemoração do golpe, nesse ano, entidades e movimentos sociais denunciam a emissora que apoiou o regime militar e que, até hoje, serve aos interesses do poder econômico.

No último domingo, foram realizadas manifestações em Brasília (DF), São Paulo (SP) e Belo Horizonte (MG), em frente às respectivas sedes da emissora. Em Recife (PE), o ato foi na Praça do Arsenal, em Porto Alegre (RS), nos Arcos da Redenção, e em Bagé (RS), na Praça dos Esportes.

Os eventos compõem o calendário de “Descomemoração do Aniversário da Rede Globo” e continuarão durante o mês em outros estados. Por exemplo, em Curitiba (PR), o ato público está marcado para essa segunda-feira (27).

Além dos atos, estão sendo organizados seminários, rodas de conversas, aulas públicas e debates sobre a mídia no país, atentando à representatividade dos negros, mulheres e à cobertura das pautas populares, além da importância da democratização dos meios de comunicação.

Os movimentos sociais, sindicais e diversas entidades também lançaram um manifesto “50 Anos da TV Globo: Vamos descomemorar”, que apresenta a postura da emissora na cobertura jornalística de movimentos sociais e denuncia a sonegação de impostos da empresa. Mais de 50 entidades e movimentos sociais assinam o documento, entre eles o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e a União Nacional dos Estudantes (UNE).

Os movimentos pontuam também que a Globo recebeu uma concessão pública e, devido a isso, deveria servir à população.

Confira o manifesto na íntegra:

50 ANOS DA TV GLOBO: VAMOS DESCOMEMORAR!

A TV Globo festejará os seus 50 anos de existência no dia 26 de abril. Serão promovidos megaeventos e lançados vários produtos comemorativos. No mesmo período, porém, muita gente está disposta a promover a “descomemoração” do aniversário do império global, um ato de repúdio ao papel nocivo desse grupo de mídia na história do país. Uma palavra-de-ordem que se destaca em todo o Brasil em manifestações recentes é: “O povo não é bobo. Fora Rede Globo”. E motivos não faltam para esta revolta.

A emissora é filha bastarda do golpe militar de 1964. O então diretor do jornal “O Globo” Roberto Marinho foi um dos principais incentivadores da deposição do presidente João Goulart, dando sustentação ideológica à ação das Forças Armadas. Um ano depois, foi fundada a sua emissora de televisão, que ganhou as graças dos ditadores. O império foi construído com incentivos públicos, isenções fiscais e outras mutretas. Os concorrentes no setor foram alijados, apesar do falso discurso global sobre o livre mercado.

Nascida da costela da ditadura, a TV Globo tem um DNA golpista. Apoiou abertamente as prisões, torturas e assassinatos de inúmeros lutadores patriotas e democratas que combateram o regime autoritário. Fez de tudo para salvar o regime dos ditadores, inclusive omitindo a jornada das Diretas Já na década de 80. Com a democratização do país, ela atuou para eleger seus candidatos — os falsos “caçadores de marajás” e os convertidos “príncipes neoliberais”. Na fase recente, a TV Globo militou contra toda e qualquer avanço mais progressista, atuando na desestabilização dos governos que não rezam integralmente a sua cartilha. Nas marchas de março desse ano, ela ajudou a mobilizar o anseio golpista e garantiu a ele todos seus holofotes.

A revolta contra a Globo que ganha corpo está ligada também à postura sempre autoritária diante dos movimentos sociais brasileiros. As lutas dos trabalhadores ou não são notícia na telinha ou são duramente criminalizadas. A emissora nunca escondeu o seu ódio ao sindicalismo, às lutas da juventude, aos movimentos dos sem-terra e dos sem-teto. Através da sua programação, não é nada raro ver a naturalização e o reforço ao ódio e ao preconceito. Esse clima de controle e censura oprime jornalistas, radialistas e demais trabalhadores da empresa, que são subjugados por uma linha editorial que impede, na prática, o exercício do bom jornalismo, servidor do interesse público, em vez da submissão à ânsia de poder de grupos privados.

Além da sua linha editorial golpista e autoritária, a Rede Globo — que adora criminalizar a política e posar de paladina da ética — está envolvida em inúmeros casos suspeitos. Até hoje, ela não mostrou o Darf (Documento de Arrecadação de Receitas Federais) do pagamento dos seus impostos, o que só reforça a suspeita da bilionária sonegação da empresa na compra dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002. A falta de transparência do império em inúmeros negócios é total. Ela prega o chamado “Estado mínimo”, mas vive mamando nos cofres públicos, seja através dos recursos milionários da publicidade oficial ou de outros expedientes mais sinistros.

Essas e outras razões explicam o forte desejo de manifestar o repúdio à TV Globo em seu aniversário de 50 anos. Assim, vamos realizar em torno do dia 26 de abril uma série de manifestações, em todo o país, para denunciar a emissora como golpista ontem e hoje; exigir a comprovação do pagamento de seus impostos; e reforçar a luta por uma mídia democrática no Brasil.

Sem enfrentar o poder e colocar limites à maior emissora do Brasil — e uma das cinco maiores do mundo — não será possível garantir a regulamentação dos artigos da Constituição que proíbem o monopólio para levar a cabo a democratização do país. Por isso, vamos às ruas contra a Globo e convidamos todos os brasileiros comprometidos com a democracia, a liberdade de expressão, a cultura nacional, o jornalismo livre e a soberania popular a participar das manifestações em todo o país.

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