Como os pilotos de avião do tráfico driblam a fiscalização

Diário do Nordeste

26.05.2015

A Polícia busca combater o esquema montado para que as aeronaves não escapem do aparato de segurança

1As rotas do tráfico de droga aéreo já existem há anos no Brasil, porém a ampliação delas é um fato relativamente novo, conforme a Polícia Federal (PF). Os indícios de que o esquema criminoso, operado por diferentes quadrilhas, está se espalhando pelo País têm ficado evidentes com as investigações e apreensões. O trabalho da Polícia se volta, neste momento, para a elucidação de como as aeronaves conseguem desviar os radares e chegar ao destino, sem serem percebidas em nenhum ponto.

Conforme o investigador Baker Martins, da Polícia Civil do Piauí, parte do Ceará e do Piauí não é monitorada pelos radares da Força Aérea Brasileira (FAB). O agente, que trabalha no caso do avião que trazia 250Kg de cocaína e explodiu na divisa dos Estados, no último dia 11 de abril, afirmou que a área entre Crateús e Assunção do Piauí, por exemplo, não é coberta pelos equipamentos.

“Fora da faixa de abrangência do radar, se uma aeronave voa com o transponder desligado, ela não é detectada e é isto que os pilotos dos monomotores do tráfico têm feito. Esta é uma grande dificuldade da Polícia. Se houvesse o equipamento que nos avisasse sobre a aproximação de aeronaves suspeitas seria mais fácil fazer interceptações”, explicou Baker Martins.

O investigador lotado na Delegacia Regional de Campo Maior afirmou que o radar mais próximo da fronteira Ceará/Piauí cobre cerca de 150Km, mas isto não é o suficiente para atender a região citada. “O que é apreendido é muito pouco, diante do que consegue chegar. Acreditamos que quando as quadrilhas perceberam que existiam pontos descobertos pela fiscalização, passaram a montar suas estratégias de voo com base nisto”, declarou.

De acordo com ele, a pista clandestina de Assunção, onde a aeronave tentava pousar quando explodiu, já foi destruída, mas os moradores das redondezas têm denunciado pousos suspeitos. “As investigações estão em andamento e muita coisa precisa ser esclarecida, inclusive a frequência com que estes aviões vêm até a fronteira abastecer os dois Estados. Pelos levantamentos que fizemos, pelo menos uma vez por mês, uma carga de cocaína chega a esta região nos monomotores”, revelou.

Internacional

O piloto do avião que caiu no Piauí teve a ossada desintegrada no sinistro. Ele foi identificado dias depois, por um exame de DNA realizado pelo Instituto de Medicina Legal (IML) do Estado. O laudo atestou que quem comandava a aeronave era Antenor José Pedreira, o ‘Dodó’, 61, investigado no ano 2000 pelo Congresso Nacional, durante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, sob suspeita de transportar cocaína da Bolívia para o Brasil. Ele já teria prestado serviços à organização criminosa da qual participava Luiz Fernando da Costa, o ‘Fernandinho Beira-Mar’.

‘Dodó’ tinha sido preso pela Polícia Federal, em 1999, em Goiás. Na ocasião foi indiciado por transportar 800Kg de droga para o Brasil. Conforme a Polícia piauiense, quando fazia a rota em que acabou morto, o piloto pousava em Assunção do Piauí, onde já era aguardado por quem recebia os pacotes que ele arremessava. Em seguida, ia para Crateús abastecer a aeronave. “Quando descobrimos detalhes do esquema, como é o caso deste piloto, vemos que o que aconteceu aqui fazia parte do plano de uma organização criminosa imensa. Não era brincadeira de alguém que se aventurava, eles sabiam exatamente o que faziam”, disse Baker Martins.

Lucrativo

O titular da delegacia de Repressão a Entorpecentes da PF/CE, Janderlyer de Lima, disse que outro homem preso no Piauí no dia 11 de abril, identificado como Thiago Costa Araújo, também já havia sido preso por tráfico internacional de drogas.

“Thiago deu nome falso no Piauí, mas os policiais descobriram sua verdadeira identidade. Ele foi preso por nós no Ceará, em 2013, com 101Kg de cocaína. Provavelmente, já fazia parte deste esquema. Uma quantidade dessas de droga geralmente é transportada em aeronaves”, afirmou o titular da DRE.

Janderlyer Lima disse que as quadrilhas buscam pessoas experientes, para evitar prejuízos. “A droga com o grau de pureza que eles vendem é muito cara, não podem arriscar perdê-la. Os pilotos deles são legalizados. Entram no esquema porque em um único frete para transporte de cocaína, podem ganhar de R$ 100 a 200 mil. É um negócio milionário”, contou o delegado.

Informações privilegiadas

Além da experiência dos pilotos e da suposta falta de cobertura por radares em alguns pontos do País, outros meios para que os aviões cruzem o Brasil estão sendo investigados.

Um piloto do tráfico aéreo flagrado no Ceará, no dia 14 de abril, quando tentava pousar sua aeronave na Zona Rural de Canindé, levantou novas suspeitas sobre as possibilidades de como os aviões conseguem escapar da fiscalização. Cléber Paulo da Silva disse à Polícia que foi forçado a fazer o transporte da droga, por criminosos que sequestraram sua esposa. No entanto, as investigações dão conta que a situação não existiu.

A reportagem do Diário do Nordeste apurou que a esposa de Cléber Paulo é controladora de voo. A prisão dele motivou a abertura de um inquérito contra a servidora, sobre um suposto fornecimento de informações privilegiadas ou de uma possível facilitação para que os voos acontecessem sem serem notados.

O apartamento da mulher teria sido alvo de um mandado de busca e apreensão. As autoridades investigam o caso, pois o marido da controladora de voos da FAB conseguia cruzar a País transportando um produto ilícito sem ser flagrado pelos radares. O objetivo é saber se ela estava contribuindo de alguma forma ou repassando informações que o ajudasse.

Denúncias

As denúncias sobre pousos atípicos de aeronaves na fronteira Ceará e Piauí podem ser feitas pelo telefone (86) 3252-2900, da Delegacia de Campo Maior

Transporte

Piloto foi investigado por CPI do Congresso

O piloto que tripulava a aeronave que caiu no Piauí, identificado como Antenor José Pedreira, o ‘Dodó’, era empresário do ramo de construções, em Goiás. Ele foi investigado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, do Congresso Nacional. A CPI que buscava desvendar o trânsito das drogas no País investigou mais de 100 pessoas. Traficantes como Fernandinho Beira-Mar’ foram ouvidos durante as apurações. ‘Dodó’ já havia sido preso ano de 1999, suspeito de integrar uma quadrilha que transportava drogas em monomotores, da Bolívia para a Região Norte do País. Por conta desta captura, foi indiciado por contrabandear 800Kg de droga

As denúncias sobre pousos atípicos de aeronaves na fronteira Ceará e Piauí podem ser feitas pelo telefone (86) 3252-2900, da Delegacia de Campo Maior

Márcia Feitosa, Repórter

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