A cerveja da cuiabanidade

Anselmo Carvalho e Rodrigo Vargas se afirmam como cervejeiros produzindo a Benedita, sucesso nos bares e também nos supermercados

DIÁRIO DE CUIABÁ|JOÃO BOSQUO

“Será a Benedita, a cerveja cuiabana?” Será ela a concretização daquele sonho que empresários pioneiros que desejavam um produto nosso, genuíno, que se cotizaram para empreender a Cia Cervejaria Cuiabana, mas não conseguiram realizar?

Não. A Cerveja Benedita não é nenhum projeto megalomaníaco de cuiabanos. Mas tão somente a proposta de dois jovens jornalistas, Anselmo Carvalho Pinto e Rodrigo Vargas, que gostam de cervejas especiais e, de tanto conversar sobre o assunto, um dia resolveram comprar em sociedade um desses kits de fazer cerveja caseira que se vende na internet.

De posse do kit, partiram para as experiências mais diversas, com ideias sofisticadas, como a de acrescentar um ingrediente nosso, da terra, genuinamente cuiabano. Coisa, claro, que nem de longe passou pela cabeça de Arquimedes Pereira Lima, empresário e também jornalista, fundador daquela cervejaria ainda hoje ativa às margens da avenida que leva seu nome, na entrada do Recanto dos Pássaros, que desejava apenas fazer a sua fábrica, beber a sua gelada e lucrar algum dinheiro. Dizem que a fábrica, hoje sob a grife Heineken, pertenceria a uma subsidiária do conglomerado do megamilionário Bill Gates.

A fabricação de cerveja caseira não tem tanto segredos assim. O ‘artesão’ hoje em dia já não precisa quebrar a cabeça. Rodrigo lembra que, em Cuiabá, até existe uma associação de cervejeiros e lá todos compartilham experiências e as eventuais dúvidas, no rumo da gostosa fabricação.

O inédito, como já foi bem dito, foi a busca de agregar alguma particularidade para diferenciar das outras cervejas que circulam nesse cada vez mais amplo mercado cervejeiro. Uma das experiências foi com o pixé – paçoca de amendoim torrado – e assim se chegou ao furrundu e ao acerto da receita.

Além disso, os dois amigos queriam tão somente fazer uma cerveja artesanal com ‘cara’ de cerveja para poder sentar à mesa com os amigos e saborear aquele líquido preparado pelas próprias mãos. A ideia do nome foi do Rodrigo – aponta Anselmo, que se diz apenas ‘operador das panelas’ – como de toda a estratégia de marketing. O DNA do nome, sim, vem de São Benedito, o Mouro. Benedito, não podia, porque era cerveja, no feminino, daí para Benedita foi um pulo.

“Desde a primeira leva a gente queria que ela tivesse uma cara de cerveja comercial, sem pensar em vender, mesmo porque não era esse o nosso objetivo e ninguém esperava acontecer o que aconteceu”, relata Rodrigo.

Todos, sem exceção, todos que beberam as sucessivas variações das cervejas só incentivavam para o aumento da produção. O que os dois sócios da Benedita pediam aos degustadores era que postassem nas redes sociais as suas impressões, de preferência com fotos. Isso foi fundamental para que a marca se firmasse e chegasse aos mais diferentes segmentos e promoveu, com certeza, a curiosidade de outros apreciadores de cerveja.

A primeira produção, segundo Rodrigo Vargas, foi a trivial cerveja pilsen. “Deu certo, vamos para outra” e se chegou à cerveja escura e se optou por ela e vieram novas experiências até se chegar à receita da Benedita com furrundu.

A cerveja Benedita Furrundu Stout – segundo seus criadores – é produzida com puro malte de cevada e furrundu (tradicional doce cuiabano feito de mamão, rapadura e gengibre) e essa mistura é que desperta a curiosidade nos apaixonados pela bebida e garante o jeito cuiabano de ser cerveja

A princípio, poderia se pensar que essa combinação malte, lúpulo e doce resultaria numa cerveja doce, ao contrário. Segundo os cervejeiros Anselmo e Rodrigo, a função do doce na receita é contribuir para a formação de álcool, no aroma de rapadura e gengibre e no gosto residual. “Na verdade, é uma cerveja com um certo amargor. Nada muito forte”, explica Rodrigo.

A industrialização foi quase que uma imposição do mercado. A estratégia do marketing viral deu certo e as pessoas começaram a conhecer a Benedita pessoalmente mas não encontravam nas prateleiras dos mercados. E partiu-se para o investimento de se fazer a produção de industrial em parceria com a Cervejaria Invicta de Ribeirão Preto (SP). Explica-se: a cerveja caseira não pode ser comercializada. O processo de terceirização, nesse ramo é mais comum que se possa imaginar, segundo Anselmo.

“A fórmula é nossa e a supervisão pessoal, dentro da fábrica, foi de Rodrigo”, diz Anselmo. Os ingredientes tradicionais são da própria indústria, Rodrigo viajou, daqui pra lá com 60 quilos de furrundu muito bem acondicionados.

A produção na mão e veio a distribuição. Também foi terceirizada em parceria com a Única Bebidas, uma empresa especializada em distribuição de cervejas especiais. Por meio dela chegou-se às gôndolas do Big Lar, uma das maiores redes de supermercado da Grande Cuiabá, que comercializou praticamente um terço de toda a produção.

Depois da primeira edição, nesse final de maio está chegando a segunda edição da Benedita. A diferença é que nesta o rotulo já traz a premiação Medalha de Bronze obtida no Concurso Brasileiro de Cervejas, que também serviu de ânimo aos sócios. Os dois estão, quando muito empatando o dinheiro, mas sonham com um sucesso mais aplumado que possa gerar algum lucro. Quem sabe uma nova cervejaria. Será a Benedita? Não sabemos.

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