Movimentos populares cobram políticas para educação no campo na Assembleia Legislativa de SP

Encontro de educadores e educadoras do campo denunciou o fechamento das escolas no meio rural e propôs a criação de um espaço entre organizações e parlamentares para debater a educação no estado

04/08/2015

Brasil de Fato | José Coutinho Júnior, de São Paulo

Encontro Estadual de Educação no Campo | Fotos: Alesp

“4.084 é um número que não representa o salário dos professores; 4.084 não é emenda constitucional que garante direito à categoria; 4.084 é o número de escolas fechadas no campo no ano de 2014, 84 em São Paulo, que deixou 85 mil jovens sem estudar”. Com essa afirmação teve início, na segunda-feira (3), na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), uma audiência sobre a educação no campo. A atividade contou com a presença de parlamentares e movimentos populares.

O evento fez parte do 1° Encontro Estadual de Educação no Campo, que reuniu educadores da reforma agrária, organizações e movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a Federação da Agricultura Familiar (FAF) e as comunidades tradicionais do estado.

“Sou de uma comunidade quilombola, e as crianças valorizam muito mais a comunidade quando tem uma escola dentro da comunidade, que vive a dinâmica dela. O problema é a desvalorização dos profissionais, que ainda continua. Esse ano, os professores estiveram na luta e obtiveram poucas conquistas”, disse Carla Galvão, integrante do MAB.

Um plano de educação que leve em conta as especificidades das comunidades do campo é algo que os professores dos movimentos populares consideram necessário. “Os movimentos têm interesse em colaborar na construção de um plano político pedagógico, para mudar a visão que há na educação hoje. Tem uma diversidade muito grande em São Paulo e a educação precisa refletir isso. Precisamos criar uma política de educação interna, que respeite a comunidade; e não externa, que a ignore”, afirmou uma moradora de comunidades tradicionais, que se apresentou como Nilce no debate.

Compromisso

Em carta lida na Alesp, os educadores e as educadoras se comprometem a lutar pela instituição de uma política estadual de educação do campo, pela ampliação das conquistas do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), pela autonomia dos movimentos e comunidades sobre seus projetos políticos pedagógicos, dentre outras coisas.

Educadoras e educadores presentes na audiência na Alesp

Para isso, eles acreditam que é preciso construir uma unidade entre os movimentos e organizações sociais para debater a educação no campo e pressionar o Estado a aplicar políticas públicas em relação ao tema.

A deputada estadual Márcia Lia (PT), coordenadora da Frente Parlamentar pela Reforma Agrária, Agricultura Familiar e Segurança Alimentar, se comprometeu a encabeçar o debate com os deputados da Comissão de Educação da Alesp sobre o tema.

“Quando há um compromisso político com a educação no campo, ela é exitosa. Vamos encaminhar o documento do encontro aos deputados comprometidos e continuar o debate dentro da frente parlamentar. A Comissão de Educação, junto aos movimentos sociais, vai encaminhar e fazer esse debate, para contrapormos o fechamento das escolas no campo e os outros problemas que escolas e profissionais enfrentam”, afirmou Márcia Lia.

Para o superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em São Paulo, Wellington Diniz, o fortalecimento do Pronera é algo que deve ser pensado ao se debater educação no campo.

“Mais de 4 mil assentados da Reforma Agrária foram formados e temos convênios com as principais universidades do país. Precisamos criar um colegiado do Pronera, para que ele tenha representação dos movimentos”, apontou Diniz.

Comunidade

Para mostrar o impacto concreto que uma educação ‘no campo e para o campo’ pode ter, o professor Alexandre Freitas apresentou os resultados de sua pesquisa, que levou cerca de 15 anos, em uma escola no Assentamento Bela Vista, em Araraquara, interior paulista.

“Nosso foco tem que ser o direito da criança a aprender. A escola é democrática, com grêmios, conselhos estudantis. Ensinamos a democracia aos alunos na prática, não só nos livros. O material da escola é a vida das pessoas. Criamos idas diárias às propriedades das pessoas, os alunos viam como eles viviam e colhiam material fazer pesquisa”, apresentou.

O professor também conta que o resgate da memória das pessoas mais antigas e as lutas da comunidade para obter a terra eram lembradas aos alunos; assim como os conteúdos críticos, com base na reflexão da realidade.

Umas das educandas que se manifestou no encontro na Alesp foi Fernanda, que falou da importância da unidade entre movimentos sociais e parlamentares aliados para pautar o tema da educação rural.

“A população do campo não existe estatisticamente em São Paulo, somos apenas 2%. Por isso não há políticas públicas nesse meio. Mas o fato de estarmos aqui mostra que existimos e vamos exigir que nossas políticas de direito sejam aplicadas”, concluiu.

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