Entrevista de Serra ao Valor desmonta balão de ensaio

SEG, 17/08/2015

Luis Nassif

Entrevista desmente que tenha acertado ser vice de Temer e comprova que Serra não foi aceito no pacto de governabilidade.

A entrevista de José Serra ao “Valor Econômico”  (http://migre.me/rcQNt) traz duas informações relevantes e duas críticas impróprias.

A primeira informação relevante é a confirmação de que não passava de balão de ensaio (empinado pelo próprio Serra) a história de que ele seria o Ministro da Fazenda em um futuro governo Michel Temer.

Era um balão acompanhado de visão prospectiva: ele seria Ministro da Fazenda em um mandato Temer e depois saltaria para a presidência da República, assim como Fernando Henrique Cardoso no mandato Itamar.

A entrevista mostra que o balão murchou.

A segunda informação relevante é que fecharam a porta do pacto de governabilidade a Serra. Agora, ele monta no escaler da mídia para tentar escalar a lateral do navio.

A primeira crítica imprópria é quanto ao “vácuo de poder”.

É correta, porém imprópria partindo de quem a formula. Ao longo de sua vida pública, Serra escondeu-se em praticamente todos os momentos de crise que enfrentou.

Alguns exemplos:

  • Sumiu no segundo semestre de 1995, quando os juros do real jogaram a economia em uma crise sem paralelo e a dívida pública explodiu.
  • Enquanto governador de São Paulo sumiu durante as enchentes que devastaram o estado e não coordenou uma reunião sequer da Defesa Civil.
  • Escondeu-se quando a Polícia Civil cercou o Palácio, por não ser recebida por ele. Cedeu imediatamente a todas as demandas, desdizendo tudo o que dissera antes sobre responsabilidade fiscal.
  • Na crise de 2008 escondeu-se dos industriais da Abimaq, a ponto de eles ameaçarem cercar o Palácio junto com os metalúrgicos da CUT e da Força Sindical.
  • Em todo seu período de governo do estado, sequer comandou uma reunião de secretariado.

Portanto, se estivesse agora à frente do país, seu comportamento não seria muito diferente do de Dilma.

A segunda crítica imprópria é quanto à ausência de uma política industrial.

Com todos os problemas, Dilma implantou uma política industrial com o pré-sal e com o PDP (Política de Desenvolvimento Produtivo do MInistéiro da Saúde), a Embrapii, Territórios de Inovação. No governo de São Paulo, Serra foi de uma inércia a toda prova e, em plena crise de 2008, promoveu um arrocho fiscal sem precedentes com a implementação da substituição tributária. A mesma política que critica agora em Dilma.

Governando um estado com os melhores institutos de pesquisa e universidades do país, a maior rede de cidades médias, as maiores empresas, foi incapaz de articular uma política mínima de competitividade.

Mesmo o PSDB tendo em seus quadros os principais formuladores de políticas de inovação, não assumiu uma iniciativa sequer na área, porque sua mente persecutória passou a tratar como de inimigos todas as iniciativas que vinham da área acadêmica.

Nas universidades, a figura símbolo da era Serra não foi Britto Cruz: foi João Grandino Rodas.

Sobre a política econômica

As críticas em relação à política econômica são corretas.

Não se imagine Serra com conhecimento e experiência para trabalhar os instrumentos de políticas públicas. Ele é um observador da realidade. Seria um bom colunista de economia, jamais um bom Ministro.

Durante o Real, embora Ministro do Planejamento, manteve-se mudo nas discussões acerca dos desdobramentos do plano, pela incapacidade de entender plenamente a posologia das políticas cambial, monetária e seus efeitos sobre a inflação. Nas poucas vezes em que interveio espantou os economistas do Real pelo desconhecimento da matéria.

Mas é um analista de bom senso que, na entrevista, centra fogo nos seguintes pontos:

  • as metas fiscais irrealistas;
  • elevação dos juros sem haver os pressupostos da atividade econômica aquecida, inflação de demanda ou crise do balanço de pagamentos;
  • o impacto dos juros na elevação da dívida bruta;
  • as operações de swap cambial, com um custo fiscal altíssimo;
  • o descompasso entre o Banco Central, Fazenda e Executivo.

Nesta entrevista, a facilidade com que Serra distribui números é típica de respostas escritas. E a citação de uma frase em francês – idioma que ele não domina – poderia induzir os críticos a imaginar que tenha voltado ao velho método de se auto-entrevistar.

A suspeita é reforçada pela pergunta abaixo, típica das entrevistas que, nos anos 80, ele enviava para publicação na Folha com perguntas e respostas prontas:

Valor: Seu mandato tem alta taxa de sucesso. É campeão de propostas aprovadas. A parceria com o presidente do Senado, que comanda a pauta, ajuda?

Ajuda e muito. Renan é um grande brasileiro

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