MC Carol, herdeira de Dandara

Uma das principais funkeiras da atualidade, cantora fala sobre preconceito, feminismo e inspiração

17/08/2015

Brasil de Fato | Raíssa Lopes e Rafaella Dotta 

Foto: Angela Fotuti

Aos 21 anos, ela conquistou o status de diva e é apontada como a sucessora de Tati Quebra Barraco. À primeira vista, Carolina Lourenço de Oliveira pouco se parece com MC Carol, artista imponente que se apresenta no palco. Tímida e reservada, a dona dos sucessos “Bateu uma onda forte” e “Minha vó tá maluca” aos poucos solta o característico vozeirão e revela à equipe do Brasil de Fato MG todo o carisma que cativou fãs por todo o país.

“Acho esse negócio de diva uma palhaçada! Eu sou é bandida, Carol Bandida. Essa definição pra mim é coisa de Beyoncé, Madonna. Eu sou uma pessoa normal”, comenta Carol, aos risos.

Apesar de não se ver como diva, diz com orgulho que é feminista e que, independente de narrar que seu “namorado é maior otário” por lavar suas calcinhas, homem tem sim que realizar tarefas domésticas. “O que eu canto nem sempre é realidade. Muitas vezes a música inteira não é. Agora, “Minha vó tá maluca” é. Ela realmente comprou uma peruca”, declara.

Vista por muitos como exemplo de resistência – é mulher, negra, gorda, e de periferia – Carol sabe da importância e poder social que tem. Para ela, o preconceito existe e deve ser combatido. “Eu sou de luta sim. Porque algumas pessoas acham que pra ser aceito tem que ser branco, magro e ter cabelo liso. Mulher no funk tem que ter ‘corpão’, tem que usar praticamente um biquíni no palco e eu vim contrariando tudo isso”, aponta a cantora, que já foi expulsa de um táxi quando o motorista percebeu seu tom de pele.

Dandara e Zumbi como inspiração

Além do humor com que procura escrever suas letras, recentemente a MC se aventurou por outros temas. Foi assim que surgiu o também hit “Não foi Cabral”, desenvolvido pela artista como uma resposta ao que aprendeu na escola sobre o descobrimento do Brasil. Na música, além de questionar a versão oficial da história, Carol cita Dandara e Zumbi, lideranças negras que lutaram contra a escravidão.

Questionada sobre a razão, ela é enfática: “se não fosse por eles, eu não estava aqui”.

“A minha professora falava que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, mas ele invadiu. Ela tocava muito no nome da Princesa Isabel, porque próximo ao Morro do Preventório [comunidade onde Carol vive até hoje] existe a casa de bonecas onde ela brincava. E lá também existe um cemitério onde os escravos eram enterrados. E mesmo assim a professora repetia que ela foi a salvadora dos negros, e não foi”, diz. “Dandara e Zumbi representam tudo. Se hoje eu estou aqui nessa mesa, tranquila, dando uma entrevista, é graças a eles e não graças à Princesa Isabel. Como os escravos já deveriam ser libertados naquela época, resolveram colocar uma branca como ‘rainha dos negros’. Mas eram Dandara e Zumbi que lutavam”, completa Carol.

Confira a letra de “Não foi Cabral”, de MC Carol

Professora me desculpe

Mas agora vou falar

Esse ano na escola

As coisas vão mudar

Nada contra ti

Não me leve a mal

Quem descobriu o Brasil

Não foi Cabral

Pedro Álvares Cabral

Chegou 22 de abril

Depois colonizou

Chamando de Pau-Brasil

Ninguém trouxe família

Muito menos filho

Porque já sabia

Que ia matar vários índios

Treze Caravelas

Trouxe muita morte

Um milhão de índio

Morreu de tuberculose

Falando de sofrimento

Dos tupis e guaranis

Lembrei do guerreiro

Quilombo Zumbi

Zumbi dos Palmares

Vitima de uma emboscada

Se não fosse a Dandara

Eu levava chicotada

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