O aparelhamento político e estratégico do governo de SP por Alckmin

SEG, 17/08/2015

Jornal GGN – Condenar a repartição da máquina pública em lotes que são distribuídos a aliados é algo que fazem frequentemente com Dilma Rousseff (PT), embora a petista não tenha inventado esse modus operandi que se reproduz país afora, há décadas, em várias instâncias do poder, com distintos governantes. Hoje, aliás, é impossível negar que a maioria deles tem tido muito mais sucesso com essa fórmula do que a presidente.

Vejamos o governo estadual paulista. A regra, neste segundo mandato de Geraldo Alckmin, do PSDB, segue a mesma: se a eleição é bem sucedida, a participação é garantida. Os aliados não são esquecidos.

Um exemplo de fidelidade à parceria é o retorno de Soninha Francine ao governo. Em abril, segundo o Diário Oficial, a jornalista e ex-vereadora foi alçada ao Conselho Fiscal da Prodesp (Companhia de Processamento de Dados de São Paulo).

A Prodesp era vinculada à Secretaria de Gestão Pública que, até o ano passado, Alckmin delegava ao partido de Soninha, o PPS. O setor é visado porque, entre outras funções, cuida da construção das unidades do Poupatempo espalhados por São Paulo, servindo de plataforma para um bom relacionamento com prefeitos e, convenhamos, de vitrine em época de eleição.

Um exemplo do uso político da Prodesp pelo PPS é a indicação de Admir Ferro, ex-vereador de São Bernardo do Campo, para atuar na Prodesp, em 2013. Admir, então do PSDB, foi indicado pelo hoje deputado federal Alex Manente (PPS).

Manente e Admir disputaram o Paço de São Bernardo com o atual prefeito, Luiz Marinho, em 2012. Perderam. Mas como a ideia é disputar novamente juntos em 2016, Manente indicou Admir para a Prodesp, e não um nome do próprio PPS. Como há construção de unidades do Poupamento em Mauá e Santo André (cidades vizinhas de São Bernardo), a dupla vinha mantendo a frequência nos jornais da região nos últimos anos.

Admir Ferro hoje está no PTB e ficou sem cargo na Prodesp após a reeleição de Alckmin, pois o governador refez o secretariado com vistas à disputa presidencial de 2018. A Secretaria de Gestão foi extinta e a participação do PPS o governo, um tanto afunilada. O popular-socialista Davi Zaia, ex-secretário de Gestão, virou deputado estadual em outubro passado. A Prodesp foi vinculada à Secretaria de Governo do Estado, agora liderada por Saulo de Castro Abreu Filho, ligado ao PSDB.

Alckmin empoderou Saulo de Castro com o intuito de concentrar nele a responsabilidade pelas ações estratégicas do governo, incluindo as parceiras com instituições privadas. A ideia é destravar os grandes projetos que ajudarão a pavimentar o caminho de Alckmin até o Palácio do Planalto.

Ao PPS sobrou a inexpressiva Secretaria de Agricultura, entregue ao deputado federal licenciado Arnaldo Jardim.

O caso Prodesp

Saulo de Castro é hoje presidente do Conselho Administrativo da Prodesp, que ainda conta com a participação de Carlos Moretzsohn (engenheiro que coordenou a equipe que inventou a urna eletrônica, em 1996), Célio Bozola (presidente da Prodesp, do ramo de telecomunicações), Moacir Rossetti (secretário-adjunto da Casa Civil, do grupo de Saulo), Daniel Edelmuth (economista, marido da deputada tucana Célia Leão), Emília Ticami (que atua na Fazenda do Estado), José Eduardo Poyares (ex-chefe da Casa Civil do governo Serra), Júlio Semeghini Neto (deputado federal pelo PSDB) e o advogado e assessor de comunicação Márcio Aith (que já foi alvo de artigos aqui).

Responde ao Conselho Administrativo da Prodesp o Conselho Fiscal onde Soninha Francine figura ao lado de outros dois conselheiros: Maria de Fátima Alves Ferreira (do elenco da Fazenda do Estado) e Amauri Gavião Almeida, que já passou pela Secretaria de Habitação, hoje liderada por Rodrigo Garcia, eleito deputado federal e presidente do DEM paulista.

Amauri também acumula a função de chefe de gabinete da Secretaria de Planejamento, comandada por Marcos Antonio Monteiro. Este último, ao lado de Saulo de Castro, compõe o núcleo duro do governo Alckmin.

Em 2014, a Prodesp discutiu a fixação da remuneração dos membros de Conselho Fiscal em R$ 18 mil em dinheiro, mais extras que podem chegar a R$ 10 mil.

O loteamento da Cetesb

Antes de chegar à Prodesp, Soninha Francine (que hoje acumula o posto de conselheira fiscal daAssociação dos Artistas Amigos da Praça, instituição que promove ações com a Secretaria de Cultura de Alckmin) também passou, em 2013, pelo Conselho de Administração da Cetesb(Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental), entidade ligada à Secretaria de Meio Ambiente do Estado.

Quem presidia o Conselho, à época, era Rubens Naman Rizek Junior. Formado em Administração e Direito, atualmente é secretário-adjunto de Agricultura. É filho de Rubens Nanam Rizek, conselheiro vitalício da Fundação Mário Covas, com passagem, ainda, pela Secretaria de Meio Ambiente na época em que o titular era Bruno Covas (PSDB), hoje deputado federal.

O aparelhamento da Secretaria de Meio Ambiente por Covas foi denunciada em reportagem doEstadão, em 2013. Naquele ano, o jornal apontou que ambientalistas estavam preocupados com a demissão em massa de técnicos da área para dar lugar a funcionários comissionados com pouca ou nenhuma experiência no ramo. A própria cúpula da Pasta, segundo o Estadão, estava recheada de advogados.

Primeiro escalão

Se a divisão de poder entre aliados de Alckmin ficar apenas na análise do primeiro escalão do governo, veremos que o governador tucano soube deixar boa parte dos partidos da base feliz.

O PRB tem Jean Madeira na Secretaria de Esportes desde 2014. Antes, a pasta era ocupada por José Auricchio Junior, ex-prefeito de São Caetano do Sul pelo PTB, nome ligado ao presidente estadual do partido, Campos Machado.

Na Justiça, outro nome indicado pelo PTB: o desembargador Aloisio de Toledo Cesar, também próximo de Campos Machado. Abaixo dele, no comando do Ipem (Instituto de Pesos e Medidas), mais uma indicação petebista. O superintendente é Clovis Volpi, ex-prefeito de Ribeirão Pires pelo PV.

O Solidariedade do deputado federal Paulinho da Força conseguiu emplacar João Dado, também eleito deputado federal, na Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho de Alckmin.

O DEM tem sua parcela com o deputado Rodrigo Garcia, presidente estadual da legenda,  no topo da Secretaria de Habitação.

O PSB tem o vice-governador Márcio França desde a reeleição de Alckmin, em 2014. França, presidente estadual do partido, acumula a função de secretário de Desenvolvimento Econômico. Essa semana ele chegou a declarar que a sigla pode deixar de lançar um candidato próprio à eleição municipal para apoiar o candidato do PSDB.

Já o PV ficou com a Secretaria de Turismo, do deputado licenciado Roberto de Lucena.

Como se vê, Alckmin segue reproduzindo em São Paulo o loteamento da máquina a troco de apoio político para governar e vencer eleições. Nada diferente do que fez FHC no plano federal, na década de 1990 – é só resgatar, por exemplo, as reportagens sobre as disputas entre PSDB e aliados em torno das estatais.

A diferença é que, hoje, Alckmin, ao contrário do que tem ocorrido com Dilma, possui controle de seus parceiros políticos na Assembleia Legislativa. Não se vê o governador perdendo os poucos cabelos que lhe restam na cabeça com criações de CPIs indigestas ou problemas sérios de governabilidade. Talvez por isso o aparelhamento de parte do Estado pelo tucano passe despercebido.

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