Para quem o yuan fraco é uma ameaça?

17 de agosto de 2015 KONSTANTIN KORNICHENKO, ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

Reflexo do cenário global, queda de moeda chinesa pode reforçar laços do país com a Rússia e contra o dólar.
Ilustração: Iorsh
O enfraquecimento significativo do yuan desencadeou uma avalanche de explicações para responder por que isso é necessário à China e os motivos de estar acontecendo agora. Cada argumento traz em si motivos que, em maior ou menor grau, levaram à mudança abrupta, para não dizer marcante, no comportamento da moeda do país, que disputa o título de maior economia do mundo com os Estados Unidos. Na Rússia, algo parecido aconteceu em meados de 2014, e o Banco Central do país adotou o regime de câmbio flutuante para o rublo.
Antes de tudo, o passo dado pela China é uma conclusão lógica da evolução da economia local após a crise de 2008. As repetidas conversas no início da década de 2010, de que a crise terminara e o mundo voltara para o trilho do crescimento, eram otimistas demais. A taxa de crescimento em torno de 5% do PIB mundial caiu agora abaixo de 3%, e as perspectivas de recuperação de ritmos mais elevados não são, por enquanto, muito animadoras.

O abrandamento da China é um reflexo da tendência global que agora se manifesta claramente na queda dos preços de commodities e na diminuição abrupta do volume do comércio mundial e do transporte de mercadorias. Como o “modelo empresarial” do país está orientado para a exportação e a mão de obra barata praticamente se esgotou, a liderança do país teve que decidir entre trocar de modelo ou procurar um novo estímulo de crescimento.

Solução rápida, embora temporária, abalar a taxa de câmbio foi praticamente a única opção considerada pelo governo chinês. A necessidade de desvalorização do yuan vinha amadurecendo há muito tempo. Em comparação com a moeda dos demais países exportadores, a da China tinha ganhado de 30% a 50% em relação ao período precedente à crise de 2008.

Depois da turbulência econômica, a cotação das moedas russa e chinesa seguiu, inicialmente, o mesmo patamar. Em 2013, o rublo começou gradualmente a enfraquecer e, em meio à queda do preço do petróleo e ao fortalecimento do dólar, passou para o regime de câmbio flutuante em 2014. Também ligado ao dólar, o yuan resistiu por um tempo, mas as exportações continuaram caindo e agora chegou a hora de tomar a difícil decisão.

A diferença entre a Rússia e a China é que as exportações russas são principalmente de matérias-primas, enquanto as chinesas são extremamente diversificadas, desde bens de consumo a produtos industriais complexos. Logo, as perspectivas de recuperação do crescimento das exportações chinesas dependem diretamente da rapidez e do valor da desvalorização do yuan, enquanto a Rússia continua refém da dinâmica de preço do petróleo.

Até meados de 2011, a China, assim como os seus principais concorrentes – Europa, Japão e Coreia –, encontrava-se mais ou menos no mesmo status quo. Porém, medidas internas, como a ativa impressão de dinheiro no Japão e na Europa, agravaram as condições para os exportadores chineses. Mais cedo ou mais tarde isso, isso levaria a uma desaceleração na China.

A forte valorização do dólar desde o segundo semestre de 2014 conduziu a China a um final lógico: a desvalorização do yuan. A queda não ficou em torno de 3 a 5%. Para um alinhamento aceitável da situação, esse valor teve de ser entre 20 e 30%. Isso pode ser o começo da transição para um regime liberal da taxa de câmbio na China, talvez uma política de yuan flutuante.

Para a Rússia, um fator mais importante do que a taxa cambial chinesa são os acordos políticos, especialmente sobre o uso ativo das moedas nacionais nesse processo. A ideia é que a volatilidade crescente do rublo e do yuan possa ser largamente compensada com mecanismos de garantia e financiamento por parte de fundos e bancos estatais.

Todas essas ferramentas, quando utilizadas adequadamente, podem proteger os empresários russos e chineses das flutuações no mar de divisas causadas por tempestades econômicas. E, por mais paradoxo que possa parecer, o recife mais estável nesse mar, o dólar americano, pode vir a ser a principal vítima do próximo dilúvio.

Konstantin Korichenko é ex-vice-presidente do Banco Central da Rússia e diretor do departamento de mercado de ações e engenharia financeira da Faculdade de Finanças da Academia Presidencial de Economia Nacional e da Administração Pública.

Os textos publicados na seção “Opinião” e “Blogs” expõem os pontos de vista dos autores e não necessariamente representam a posição editorial da Gazeta Russa ou da Rossiyskaya Gazeta
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