‘Amazônia está longe de ser democrática’, observa Dom Cláudio Hummes

Em entrevista exclusiva, o presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia destaca os desafios da região e a presença do Estado


Dom Cláudio Hummes em Manaus. Foto: Divulgação/Arquidiocese de Manaus

MANAUS – O meio ambiente, especialmente a Amazônia, tem ganhado espaço na agenda do Vaticano. Para consolidar as orientações da Igreja Católica sobre a importância da preservação da região, o comitê executivo da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) realiza o primeiro encontro em Manaus. O evento é organizado pelo presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia, cardeal Dom Cláudio Hummes. O encontro acontece entre os dias 17 e 22 de agosto e reúne membros da Igreja de todos os países da Amazônia. Em entrevista excluisva ao Portal Amazônia, Hummes destaca os desafios da região e como avalia a atenção que o Governo Federal tem dispensado a ela.

Portal Amazônia – A Amazônia tem ganhado espaço no discurso do Papa Francisco, como aconteceu na XXVIII Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, e na carta encíclica ‘Laudato si, sobre o cuidado da casa comum‘. Como o senhor avalia esse destaque que a região ganhou junto a Igreja Católica?

Dom Cláudio Hummes – Foi uma coisa extraordinária. Um presente que caiu do céu para as grandes causas do Mundo. O Papa Francisco inspira a todos, sobretudo porque é um papa aberto ao diálogo e quer ouvir a todos e não só dentro da Igreja. Isso repercutiu muito fortemente na nossa Comissão, desde que ele disse no Rio de Janeiro, que a Amazônia é um teste decisivo, para a Igreja e para a sociedade. É preciso sentar e refletir com seriedade sobre os grandes projetos de desenvolvimento que estão em execução na região. Como vamos preservar a Amazônia? Queremos que ela vire um Paraná, onde tudo foi desmatado e se planta soja e se cria gado? É esse o futuro da Amazônia? Ela vai virar um deserto! Não vai aguentar! Precisamos pensar num modelo de desenvolvimento sustentável para a região que traga riquezas, mas não através da agropecuária e da mineração. Há muitas riquezas que só a floresta pode nos dar, não só para o Brasil, mas para o Mundo. A Igreja Católica e sociedade devem se deixar interpelar por essas questões, pois esse é o momento decisivo.


Encontro da Repam em Manaus. Foto: Divulgação/Arquidiocese de Manaus

A Amazônia não é só fauna e flora, também tem a questão das comunidades tradicionais, como ribeirinhos e indígenas, que são ameaçados por grandes obras, a exemplo de Belo Monte. O que o senhor acha do tratamento que o Governo tem dado a estes povos?

Os elementos principais da Amazônia são as pessoas. O restante existe em função da vida humana, dos povos que estão aqui, das sociedades que vivem aqui. Qualquer pessoa de bom senso vai ver que todos nós temos uma dívida imensa com os nossos indígenas, deles foi tirado tudo, a sua história, a sua identidade, a sua cultura, a sua terra. Eles nem sabem mais, por assim dizer, quem eles são ou se vale a pena ser indígena, ou simplesmente tentar se acomodar de alguma forma para viver na sociedade dos não-indígenas. É uma dívida enorme, mas não só com eles, mas com nossos ribeirinhos e com todos aqueles que deixaram seus lugares de origem e se aglomeraram nas periferias em busca de uma vida melhor. O Poder Público deve estar a serviço destas pessoas, e não agir como um comando que toma as decisões de cima para baixo. O Governo e o Estado são um serviço instituído pela sociedade porque precisa deles, por isso eles não podem se tornar um poder que decide tudo segundo pressões de interesses particulares. Eu acho que estamos correndo um grave risco de perdermos a Amazônia.

Ativistas ambientais e agrários, como a missionária Doroty Stang e o casal Maria do Carmo Moura e Gonçalo Araújo, são vítimas de assassinato. A mais recente, foi a líder comunitária do município amazonense de Iranduba, Dorinha Priante. Ela já havia registrado várias queixas na polícia dizendo que era ameaçada, mas nenhuma medida foi tomada. O senhor acha que o Estado brasileiro tem dado a devida atenção à luta destas pessoas?

As pessoas que ainda poderiam ajudar a encontrar caminhos para solucionar os problemas da Amazônia, porque têm amor a esta região e aos seus povos, acabam vivendo ameaçados por causa de interesses que vem de fora e até aqui da região. É inaceitável que o Poder Público não dê segurança a estas pessoas, e isso não é de agora. Sempre foi assim, as pessoas que se engajavam de alguma foram diferente daquilo que não é proposto pelos que tem poder econômico e político se sentem ameaçados. Isso não tem nada a ver com democracia e é contra todos os direitos humanos, pois todos têm o direito de ter a sua opinião sem que sejam sujeitos a violência ou ameaças. Aqui na Amazônia, ainda estamos muito longe de um País democrático porque o Estado ainda está muito ausente na região. E quando está aqui é para apoiar aqueles que são fortes e ricos.


Missionária americana Dorothy Stang, morta em 2005. Lutava pelo assentamento de comunidades tradicionais no Pará. Foto: Divulgação

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