Brasil: Direita volta a ganhar as ruas contra Dilma

Manifestações foram menores que em março mas superiores às de abril. Aécio Neves participou pela 1ª vez e discursou contra o governo. Sondagens mostram participação massiva da classe média e média alta.

Boneco gigante de Lula da Silva preso foi exibido na manifestação de Brasília. Foto de Antonio Cruz, Agência Brasil
Boneco gigante de Lula da Silva preso foi exibido na manifestação de Brasília. Foto de Antonio Cruz, Agência Brasil

Pela terceira vez neste ano, centenas de milhares de brasileiros foram às ruas de cerca de 200 cidades do país a pedir a demissão da presidente Dilma Rousseff. Os alvos da fúria dos manifestantes foram também o Partido dos Trabalhadores, o ex-presidente Lula da Silva e o presidente do Congresso Nacional e do Senado, Renan Calheiros.

As mobilizações constituíram, por outro lado, uma demonstração de apoio à operação Lava Jato, que investiga o esquema de corrupção na empresa estatal de petróleo Petrobras, e em apoio ao juiz federal Sérgio Moro, responsável por esta investigação.

De acordo com várias fontes, os protestos de domingo terão reunido cerca de 790 mil pessoas, mais do que as manifestações de dia 12 de abril, que mobilizaram 660 mil, mas menos que a 15 de março, quando quase dois milhões de pessoas terão saído às ruas.

Em São Paulo, onde ocorreu a maior manifestação do país, o instituto Datafolha contou 135 mil pessoas na av. Paulista, contra cem mil em abril e 210 mil em março.

Em São Paulo, onde ocorreu a maior manifestação do país, o instituto Datafolha contou 135 mil pessoas na av. Paulista, contra cem mil em abril e 210 mil em março.

Pela primeira vez, o PSDB, o maior partido da oposição, apoiou e compareceu oficialmente às manifestações. Aécio Neves, candidato derrotado do partido às eleições presidenciais, discursou no protesto de Belo Horizonte, dizendo-se “indignado com a mentira, com a corrupção e com a incompetência deste governo”.

Manifestações de direita

Tal como nos anteriores protestos, a tónica geral este domingo foi de direita e por vezes de extrema-direita. Repetiram-se os apelos ao golpe militar, as acusações de que Dilma e o PT são comunistas, bolivarianos que deviam ir para a Venezuela, e casos de agressões a pessoas que se cruzaram com os manifestantes vestindo t-shirts vermelhas. “O comunismo matou 100 milhões de pessoas. Mais que o nazismo”, gritava um dos organizadores da manifestação paulistana. “Quem é a favor de criminalizar o comunismo?”, perguntava, sob fortes aplausos. “Fora comunismo!”, urrava no microfone.

Cartazes ultra-reacionários voltaram a aparecer nas manifestações e, se não eram maioritários, também não foram hostilizados. Exemplos: “O povo é soberano! Intervenção militar não é crime!”; “Por que não mataram todos em 1964?”; e ainda “Dilma, pena que não te enforcaram no DOI-CODI”, referindo-se à prisão da atual presidente da República, entre 1970 e 1972, por lutar contra a ditadura militar instaurada e 1964.

Mesmo a luta contra a corrupção ganhou um viés muito particular: políticos denunciados por corrupção mas que se opõem ao governo, como o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, não só ficaram isentos de críticas, como também chegaram a ser apresentados como heróis. As denúncias de corrupção envolvendo os governos do PSDB não foram mencionados.

Popularidade de Dilma no fundo do poço

Para além da indignação em relação às revelações que todos os dias surgem dando conta do envolvimento de membros ou ex-membros do governo com a corrupção, o descontentamento em relação ao governo Dilma tem crescido por culpa da política de “ajuste fiscal” – o nome que naquele país ganhou a política que na Europa se chamou “austeridade” –, aplicando as medidas que eram defendidas, não por ela, mas pelo seu adversário, Aécio Neves.

Essa mistura explosiva, corrupção e ajuste fiscal, já levou o governo ao índice de popularidade mais baixo de que há memória

Essa mistura explosiva, corrupção e ajuste fiscal, já levou o governo ao índice de popularidade mais baixo de que há memória, abaixo mesmo do de Fernando Collor em vésperas de ser afastado do governo. Segundo sondagem do Instituto MDA, a avaliação positiva da presidente Dilma Rousseff caiu de 11% para 7,7% dos entrevistados, em julho, O Ibope dá-lhe 9%.

Governo ganhou margem

Apesar disso, nas últimas duas semanas o governo ganhou alguma margem de manobra. Primeiro, foram as federações patronais dos Estados de S. Paulo (FIESP) e do Rio de Janeiro (FIRJAN) que vieram a público defender a proposta do vice-presidente da República, Michel Temer, que fez um apelo à oposição, defendendo que “todos se dediquem a resolver os problemas do país”.

Depois foi o poderoso grupo de média Globo que se afirmou contra o impeachment de Dilma Rousseff, chamando o PSDB de ‘inconsequente’, e fazendo críticas às ‘manipulações’ do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. A Folha de S. Pauloacompanhou esta posição no próprio domingo, num editorial em que avalia que “as circunstâncias começaram a mudar a favor” da presidente, ficando por ora “travados os meios” para a sua destituição.

O poderoso grupo de média Globo afirmou-se contra o impeachment de Dilma Rousseff, chamando o PSDB de ‘inconsequente’

O jornal elogiou também a Agenda Brasil, um conjunto de propostas apresentado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, do PMDB. “O gesto de Renan oferece ao menos um ponto de partida para discussões sobre o futuro do Estado brasileiro – o que não é pouco para um governo que afundava sem nem saber apontar a direção do céu e a do fundo do mar”, diz o texto.

Da Agenda Brasil fazem parte medidas como “a possibilidade de cobrança diferenciada de procedimentos do SUS (Serviço Único de Saúde) por faixa de rendimento”. Em relação à Segurança Social, propõe-se “ampliar a idade mínima para aposentadoria“.

Todos estes acontecimentos vieram assim dar uma margem de manobra maior ao governo. Mas não porque tenha recebido apoio da que seria a sua base social mais importante – a população de rendimento mais baixo – e sim porque aprofundou a política de aplicar todo o programa da oposição, de uma forma que esta, se fosse governo, não teria coragem de fazer.

Composição social dos manifestantes

A Folha de S. Paulo fez uma sondagem entre os manifestantes da capital paulista para determinar as suas características. Os resultados mostram que se mobilizou uma população maioritariamente masculina (61% de homens), e mais envelhecida: 40% dos manifestantes tinham 51 anos ou mais, 30% de 36 a 50 anos, 19% de 21 a 25 anos, e 5% de 12 a 20 anos.

Quanto aos rendimentos dos manifestantes, a sondagem mostra que apenas 6,2% ganhavam até 1576 reais (dois salários mínimos); 8,19% de 1576 até 2364 reais; 13,28% de 2364 a 3940 reais; 25,09% de 3940 a 7880 reais; 25,17% de 7880 a 15760 reais; 14,39% de 15760 a 39400 reais; 2,88% acima de 39400 reais; 4,80% não souberam ou não quiseram responder. Isto é: 50% dos manifestantes ganhava de cerca de 1000 euros a cerca de 4000 euros; e cerca de 17% ganham ainda mais. O que indica até que ponto os protestos de domingo mobilizaram essencialmente a classe média e média alta.

Dia 20: contra o ajuste fiscal mas a favor do governo que o promove?

O passo seguinte na disputa das ruas será uma manifestação em São Paulo convocada por algumas centrais sindicais e movimentos sociais em “respeito à democracia”. O manifesto define assim os seus objetivos: “Estaremos nas ruas de todo o país neste 20 de agosto em defesa dos direitos sociais, da liberdade e da democracia, contra a ofensiva da direita e por saídas populares para a crise”. E o primeiro ponto dos objetivos é o ataque ao ajuste fiscal e a reivindicação de que o governo “ao invés de atacar direitos trabalhistas, cortar investimentos sociais e aumentar os juros”, “ajuste as contas em cima dos mais ricos”.

A manifestação será vista, assim, mesmo que muitos dos seus integrantes não queiram, como uma ação a favor do governo.

Ora o governo brasileiro atual, presidido por Dilma Rousseff, é justamente o promotor do ajuste e tem até promovido políticas, como a lei antiterrorista, que permitem criminalizar os movimentos sociais. E não vem demonstrando qualquer tendência para fazer os “ricos pagarem a crise”, pelo contrário: tem aprofundado a política neoliberal, com a aceitação da Agenda Brasil de Renan Calheiros.

A manifestação será vista, assim, mesmo que muitos dos seus integrantes não queiram, como uma ação a favor do governo. O PC do B, um dos partidos que a convocam, não esconde esse objetivo: uma “frente ampla, e um bloco político e social de esquerda para a defesa da democracia e do mandato da presidenta Dilma”.

Nem 16, nem 20

Outra opção da esquerda é defendida pela central CSP-Conlutas e entidades do Espaço de Unidade de Ação em São Paulo, que afirma que nem dia 16 nem dia 20 representam os interesses dos trabalhadores. Observando que a insatisfação com o governo Dilma/PT é cada vez maior, a central considera que “a oposição de direita, encabeçada pelo PSDB, é uma falsa oposição, que se diz contra o governo, mas vota favorável em todas as medidas que são contra os trabalhadores”.

Esta terceira posição, defendida também pelo PSTU, propõe-se realizar no mês de setembro uma grande manifestação nacional unificada, contra o governo e sua política económica e contra as alternativas da oposição burguesa de direita.

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