Festa da língua portuguesa, com certeza

Sétima edição do Festival de Teatro da Língua Portuguesa traz espetáculos de seis países lusófonos a diversos espaços da cidade

Secretartia da Cultura do Rio de Janeiro

A atriz, encenadora e diretora moçambicana Manuela Soeiro é a homenageada da sétima edição do Festlip  (Foto: Divulgação)

A relação de cumplicidade entre dois colegas de trabalho dá o tom de "Aqueles Dois", montagem da companhia mineira Luna Lunera
O premiado monólogo "Misterman", dirigido pelo português Elmano Sancho, é um dos destaques da mostra teatral

Angola, Cabo Verde, Galícia, Moçambique e Portugal se encontrarão no Rio de Janeiro na sétima edição do Festival de Teatro da Língua Portuguesa (Festlip). O evento, que tem como principal objetivo promover a integração dos países lusófonos através da arte, começa nesta quarta (26) e segue até o dia 6 de setembro, com destaque para a mostra teatral. Serão, ao todo, oito peças inéditas, que circulam gratuitamente por Oi Futuro Flamengo, Teatro Ipanema, Espaço Cultural Sérgio Porto e os teatros Sesi Centro e Jacarepaguá.

Todo ano, o Festlip escolhe um homenageado e, nesta edição, não poderia ser diferente, já que a atriz, encenadora e diretora moçambicana Manuela Soeiro será lembrada. Comemorando 40 anos de carreira, ela é um dos grandes nomes do teatro em seu país, tendo produzido mais de 60 peças. Também serviu de inspiração para o próprio festival, como explica sua idealizadora, a atriz e produtora Tânia Pires.

“Eu conheci a Manuela em 2006, na Noruega. Foi vendo um espetáculo dela que despertou a própria ideia do Festlip, que seria reunir espetáculos do universo de língua portuguesa. Foi  muito interessante ver um texto realista, de um dramaturgo nórdico, montado na língua portuguesa por um grupo de Moçambique. Quando eu voltei de lá, isso ficou na minha cabeça e, em 2008, depois de dois anos de pesquisa, o festival começou. Ela, hoje, é uma pessoa muito importante no cenário teatral de Moçambique. Foi a responsável pela profissionalização do teatro no país”, diz.

Do grupo teatral criado por Manuela em 1986, Mutumbela Gogo, Tânia destaca Os Meninos de Ninguém, que fala sobre a persistência do sonho ante a realidade das crianças vítimas da guerra e da miséria nas ruas de Moçambique. A peça será exibida na quinta (27) e na sexta (28), às 19h30, no Teatro Sesi Centro. “É uma história verídica, contada através de um texto escrito por ela e pelo Mia Couto, que fala muito da realidade dos meninos moçambicanos, que ficam à margem do país e que a Manuela acolheu em seu teatro”, afirma a idealizadora do festival.

Outro destaque da programação é Misterman, em cartaz de 29/08 a 06/09 no Oi Futuro Flamengo. O premiado monólogo é assinado pelo diretor português Elmano Sancho e conta a rotina do solitário Thomas, que sai de casa todos os dias para inspecionar o comportamento dos habitantes da aldeia em que vive. “É um texto delicado e forte ao mesmo tempo, que fala da psique humana de forma muito direta, através de um personagem solitário que vive a ilusão de ser várias pessoas, criando personagens como a própria mãe ou seus vizinhos”, diz Tânia.

O teatro brasileiro será representado pela companhia mineira Luna Lunera, com a peça Aqueles Dois (dias 27 e 28, no Espaço Cultural Sérgio Porto), baseada no conto homônimo do escritor Caio Fernando Abreu. No palco, o público conhece a história de Raul e Saul, novos funcionários de uma repartição que desenvolvem um forte laço de cumplicidade que passa a incomodar os colegas de trabalho. A companhia já tem uma história com o Festlip, como lembra Tânia. “Eles vieram logo no início, no primeiro ano. O texto que estão trazendo tem tudo a ver com o contexto do festival. Acho que o perfil dos textos nesta edição está lidando muito com a ironia e a questão lúdica do ser humano”.

Muito além do teatro

Apesar de ser o carro chefe do evento, o teatro não é sua única atração. “A coluna vertebral é o teatro, mas não dá para falar só disso, ainda mais em se tratando da língua portuguesa”, esclarece Tânia. Desde a primeira edição, o festival abriga o Festlipshow, que acontece neste sábado (29), a partir das 21h, na EAV Parque Lage, com apresentações da DJ Lili Prohmann e do músico angolano Abel Duërë na festa Disritmia. O Festgourmet será encabeçado pelo restaurante Zazá Bistrô Tropical, em Ipanema, cujo chef Lúcio Vieira montou um cardápio especial a partir das culinárias carioca e moçambicana. Completam a programação oficinas com nomes como Hugo Cruz, Carlos Pessoa e José Mena Abrantes, diretor e encenador angolano homenageado em 2013. O Festlipinho, evento destinado às crianças que este ano chega à sua segunda edição, terá duas oficinas de capulana, traje típico de Moçambique, ministradas pela atriz Graça Silva, da companhia Mutumbela Gogo, no Morro de São Carlos (29/8) e na EAV Parque Lage (30/8), que terminará com um desfile de moda africana entre as crianças participantes.

As novidades desta edição ficam por conta da coprodução inédita entre o Festlip e o Teatro da Garagem, premiada companhia portuguesa, a ser apresentada na edição de 2016 do festival, e um concurso de poesia aberto a todos os países de língua portuguesa para celebrar os 450 anos do Rio. “A visão de cada país sobre o Rio é muito diferente, peculiar, e a poesia é uma forma de expressar isso. Recebemos em torno de 60 poesias e selecionamos 15 para uma exposição multimídia no Oi Futuro Flamengo, montada pelos alunos da Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Já selecionamos o vencedor, o poema Saudade, do angolano Daniel de Oliveira que, por coincidência, escreveu o hino do festival há uns cinco anos. Ele fala muito da paixão que desenvolveu pelo Rio de Janeiro como uma pessoa que vem à cidade não se desvincula nunca mais da palavrasaudade, que fica no imaginário para o resto da vida”, diz Tânia, para, em seguida, apontar a importância do festival.

“A língua portuguesa é o que une a cultura e a história do Brasil com todos esses países. Temos um movimento artístico que fala por si e que vem conseguindo, nesses sete anos, introduzir na cultura carioca e na cultura brasileira um conhecimento muito mais espontâneo e aprofundado da língua. Nada mais fácil do que compreender a história de cada país, onde temos congruências, diversidades e adversidades, através do teatro. O Rio hoje é uma referência muito forte e o Festlip é um encontro anual que já está no calendário de todos os países lusófonos”, conclui.

Colaboração de Danielle Veras

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