No novo país não cabe o impeachment

TER, 25/08/2015

Luis Nassif

A entrevista à Folha do presidente do Itaú Roberto Setubal – condenando as manobras para o impeachment – ajudou a desnudar de vez um país velhíssimo, que teimava em se impor sobre o novo.

Seguiu-se às entrevistas do presidente do Bradesco Luiz Trabucco e da Cosan Rubens Omettto Filho.

Nos anos 80, Trabucco era um jovem executivo do Bradesco, frequentador ocasional do Bar do Alemão, teimando em lançar o produto capitalização no mercado; Setubal estava sendo preparado para substituir o pai, Olavo Setubal; e Ometto era o jovem promissor, filho de família rica, mas que fazia carreira como financeiro do grupo Votorantim.

Na época, os grandes grupos nacionais ainda eram acanhados, reunidos em torno da indústria de máquinas e equipamentos, da cadeia sucro-alcooleira e de um setor de empreiteiras que se especializara em grandes hidrelétricas. Tentativas de criar um setor de informática não deram certo.

Com exceção das empreiteiras, tinham em comum a ojeriza ao centralismo do regime militar. Mas não se podia dizer que fossem democratas convictos. Tanto que no jornalismo econômico da época procurávamos levantar vantagens econômicas, para reforçar a bandeira da democracia.

Lembro-me da  entrevista que fiz  com um brazilianista da época, não me recordo se Stanley Hilton ou outro historiador, indaguei sobre as vantagens econômicas da democracia e levei uma lição preciosa para casa: “Democracia não precisa ter vantagens econômicas para ser legítima, Democracia é condição civilizatória”, ou algo assim.

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De lá para cá muita água rolou. A economia se abriu de forma brusca, houve a desregulamentação, um presidente impichado, depois uma relativa estabilização política.

Dois anos atrás, nas comemorações dos 25 anos da Constituição, juristas, como o vice-presidente Michel Temer e o Ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, enalteceram sua resiliência, o fato de ter permitido manter as regras do jogo mesmo ante todo o tiroteio do “mensalão”.

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De novembro passado para cá, em alguns momentos, o interminável terceiro turno pode ter passado a impressão da volta ao passado, ao golpismo paraguaio, o mesmo que vitimou outras jovens democracias latino-americanas, independentemente da linha política do presidente deposto.

O germe do oportunismo inoculou-se do politicamente imberbe Aécio Neves ao vetusto Fernando Henrique Cardoso, passando pelo inacreditável Gilmar Mendes, a maior ofensa ao republicanismo brasileiro.

De repente, as trincheiras do legalismo passaram a receber adesões imprevistas, de colunistas escapando ao torniquete da opinião midiática, artistas e, agora, os empresários que contam. Constatou-se que todo o discurso de segurança jurídica viraria pó se se permitisse o impeachment paraguaio. Percebeu-se nitidamente a democracia como um valor maior.

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FHC recolheu-se, amparado por amigos do Cebrap tentando criar a narrativa de que a proposta de renúncia de Dilma, que ele apresentou, era uma maneira de segurar o golpismo.

O analista político costuma ter razões que o próprio autor desconhece.

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Daqui para frente, a bola volta a Dilma para que se possa, finalmente, encarar os problemas concretos da economia, que não são poucos.

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