A guerra acabou, o IRA foi-se e não voltará

Uma conferência de imprensa, que se supunha que ia ser para informar sobre uma investigação de assassinato, transformou-se num escândalo político e mediático em torno da situação do IRA. Por Gerry Adams.

[Tradução do texto da coluna semanal de Gerry Adams em “Andersonstown News”, na qual o dirigente irlandês analisa a crise que se seguiu aos atentados que provocaram duas mortes em Belfast e as interessadas acusações de um suposto envolvimento da direção do movimento republicano. Gara]

Um escândalo mediático rebentou na semana passada depois da conferência de imprensa da PSNI (Polícia da Irlanda do Norte) em torno do assassinato de Kevin McGuigan. Kevin McGuigan foi morto a tiro após especulações da imprensa o vincularem ao assassinato de Jock Davison em maio.

Na conferência de imprensa, o superintendente da PSNI, Kevin Geddes, disse que “A Ação contra as Drogas, como sabem, fez uma declaração pública a 6 de agosto afirmando que executariam quem quer que tivesse algum tipo de participação no assassinato de Jock Davison”. Geddes continuou dizendo que: “A Ação contra as Drogas é um grupo de pessoas que são delinquentes, republicanos dissidentes violentos e antigos membros do IRA Provisório… São perigosos, estão envolvidos na violência e na extorsão dos nacionalistas e das comunidades republicanas e têm uma agenda criminosa… Este é um grupo dissidente do IRA Provisório”.

No entanto, o seu comentário posterior assinalava que “uma linha importante de investigação é que membros do IRA Provisório estiveram implicados neste assassinato”, e que ele não podia assegurar nesse momento “se era uma decisão a nível de direção ou não; não posso especular sobre isso”. Estas palavras foram aproveitadas para criar o posterior escândalo político e mediático.

Alguns unionistas, sempre prontos a fazer julgamentos de valor contra o Sinn Féin, ameaçaram excluir o nosso partido da Assembleia e do Executivo.

Outros jornalistas não foram menos rápidos. Vários dos principais meios de comunicação especularam que a Ação contra as Drogas tinha chegado a um acordo de trabalho conjunto com o IRA. O Sinn Féin opôs-se à Ação contra as Drogas, que foi publicamente acusada de assassinato e extorsão por Gerry Kelly e outros líderes republicanos.

Os jornalistas, alguns com uma longa experiência pelo que deveriam ter melhor conhecimento, especularam que os republicanos estavam a trabalhar com um grupo criminoso – pejado de agentes e delatores – formado por pessoas frontalmente opostas à estratégia de paz e à liderança do Sinn Féin. A inconsistência e as contradições inerentes a esta acusação foram ignoradas.

Durante os anos de conflito e censura, salvo algumas notáveis exceções, a ideia de um jornalismo de investigação equilibrado desapareceu. Nestes tempos mais pacíficos, a falta de imparcialidade e objetividade é igualmente surpreendente. Uma conferência de imprensa, que se supunha que ia ser para informar sobre uma investigação de assassinato, transformou-se num escândalo político e mediático em torno da situação do IRA.

Não estou de acordo com a afirmação do chefe da PSNI de que o IRA existe – inclusive na forma benigna como o pinta –. A guerra acabou e o IRA foi-se e não vai voltar

Assim, enquanto os líderes unionistas rugiam, ameaçavam e condenavam o Sinn Féin e as instituições políticas pareciam cada vez mais frágeis, o chefe da PSNI teve que dar outra conferência de imprensa.

Segundo George Hamilton, a PSNI “atualmente não tem nenhuma informação que indique que a participação do IRA Provisório foi decidida e dirigida a partir de algum nível superior ou organizativo do IRA ou do movimento republicano”.

Afirmou que embora ele pessoalmente ache que o IRA existe, a PSNI avalia que:

– “Num sentido organizativo o IRA Provisório não existe para fins paramilitares…”

– “A nossa análise indica que o objetivo principal do IRA é promover uma agenda republicana política e pacífica”.

– “Entendemos que o IRA Provisório se comprometeu a seguir uma via política e já não participa no terrorismo”.

– “Aceito a boa fé dos dirigentes do Sinn Féin em relação à sua rejeição da violência e aceito as suas garantias de que querem apoiar a Polícia para levar os responsáveis perante a justiça”.

– “Não temos nenhuma informação que sugira que essa violência, como a do assassinato de Kevin McGuigan, foi decidida ou dirigida a partir de um nível superior no movimento republicano».

– “Achamos que a continuidade e a coesão da direção da IRA Provisório permitiu levar a organização a avançar no processo de paz”.

Foi até mais longe ao descrever com mais detalhe a Ação contra as Drogas como “um grupo independente que não faz parte nem é uma forma disfarçada do IRA Provisório”.

Os políticos unionistas ignoraram os dados que não encaixavam no seu discurso e fizeram sua a afirmação de Hamilton, de que o IRA ainda existe, para dar mais força a esta crise.

Não estou de acordo com a afirmação do chefe da PSNI de que o IRA existe – inclusive na forma benigna como o pinta –. A guerra acabou e o IRA foi-se e não vai voltar.

Durante as mais de duas décadas do processo de paz, o Sinn Féin e os republicanos, incluindo o IRA, tomaram uma série de iniciativas históricas para dar uma oportunidade à paz; para manter o processo em momentos difíceis e superar os obstáculos.

O progresso que se deu é um trabalho coletivo de muitos partidos, grupos e indivíduos. Mas sem a participação ativa dos republicanos e os riscos que assumiram pela paz não haveria processo de paz.

Repetidamente, os governos britânico e irlandês ou os partidos unionistas e outros têm conspirado para minar as instituições políticas. Alguns fizeram-no de uma maneira muito premeditada enquanto, outros, têm criado as crises mediante o incumprimento das suas obrigações com o acordo de Sexta-feira Santa e os que lhe seguiram.

Os dirigentes do Sinn Féin têm trabalhado duramente para encontrar formas imaginativas e inovadoras para resolver problemas. Mas este problema não está nas nossas mãos. O Sinn Féin não tem qualquer responsabilidade sobre os que mataram Kevin McGuigan ou Jock Davison. A resposta dos outros partidos políticos sobre estes assassinatos tem sido egoísta e míope.

As instituições políticas já têm dificuldades consideráveis. Há elementos chave que ainda não se implementaram. Existem grandes dificuldades orçamentais e um esforço contínuo de Londres para impor políticas de austeridade na Assembleia do norte.(…)

Deixem-me ser claro. Basta! O Sinn Féin não tem qualquer responsabilidade especial, particular ou específica de responder às denúncias formuladas sobre o IRA, por cima ou para além do que aqui descrevi

Deixem-me ser muito claro. Uma vez mais. Qualquer pessoa que viola a lei deve ser considerado responsável pela justiça e pelas agências policiais. O Sinn Féin apoia estas agências e vamos cooperar com a PSNI nas suas investigações sobre os homicídios de Jock Davison e Kevin McGuigan. Temos pedido insistentemente a qualquer pessoa que tenha informação que colabore para que os responsáveis enfrentem o devido processo nos tribunais. Estamos muito conscientes do facto de que há duas famílias e duas comunidades locais de luto pela perda de entes queridos.

É nossa firme opinião que qualquer pessoa envolvida em atividades ilegais deve prestar contas nos processos judiciais adequados. A investigação da PSNI deve ir para onde a evidência o indica. Todos os partidos e os dois governos devem proporcionar todo o apoio possível para este fim.

Deixem-me ser igualmente claro. Basta! O Sinn Féin não tem qualquer responsabilidade especial, particular ou específica de responder às denúncias formuladas sobre o IRA, por cima ou para além do que aqui descrevi. Não há base para as acusações formuladas contra o Sinn Féin pelos nossos adversários políticos e se isto desencadear uma crise política será resultado direto da sua estupidez e do seu oportunismo partidário.

Dada a maneira em que o debate se desenvolveu e se passou ao ataque pessoal, às invenções, tendo o Sinn Féin como alvo, é difícil saber como os outros partidos, o Executivo ou os ministros do Governo irlandês esperam travar esta crise.

A não ser que, e eu acuso-os disto, sejam motivados exclusivamente por interesses políticos e eleitorais de partido.

Não permitiremos que o Sinn Féin ou o seu eleitorado sejam demonizados ou marginalizados por questões que nada têm que ver connosco. Neste caso não há nada mais que o Sinn Féin possa fazer.

Temos feito mais que ninguém para pôr fim ao conflito e abrir uma via pacífica e democrática alternativa para que os republicanos possam prosseguir os seus objetivos republicanos. Isto nunca existiu antes.

Pela nossa parte, o Sinn Féin não se distrairá e continuará com a difícil tarefa de construir a paz, resolver os problemas orçamentais no Executivo e obter o apoio para a unidade da Irlanda e a alternativa republicana à austeridade

A forma oportunista e profundamente cínica com que estes factos foram aproveitados para atacar o Sinn Féin, a sua integridade e o nosso mandato eleitoral é vergonhosa e o nosso partido e a nossa liderança far-lhe-ão frente energicamente.

Neste sentido, os esforços britânicos e a pose unionista não são surpreendentes. Face a qualquer oportunidade esforçam-se por tentar diluir o potencial do Acordo de Sexta-feira Santa e as suas instituições. A intervenção do líder do Fianna Fáil, Micheál Martin, da Ministra da Justiça, Frances Fitzgerald, e de outros em Dublin é particularmente desprezível.

Frances Fitzgerald minou o seu papel como Ministra de Justiça para atacar politicamente o Sinn Féin.

Micheál Martin também tentou utilizar estes assassinatos com fins políticos de partido. Ele era o Ministro dos Negócios Estrangeiros quando o então Ministro da Justiça, Dermott Ahern, disse que o IRA se tinha ido para não voltar.

Em 2010, quando o Sinn Féin negociou com sucesso a transferência da Polícia e da Justiça com os dois governos que eram parte do processo, ele nunca me colocou a questão. Mas agora estamos num momento eleitoral quente e Micheál Martin atua de forma eleitoralista.

O fundo da sua denúncia, de que o IRA financia e proporciona direção política ao Sinn Féin enquanto exerce um férreo controle sobre a comunidade, é desprezível. No ano passado o povo da Irlanda deu ao Sinn Féin a maioria do voto em qualquer das partes desta ilha. Onde foram coagidos estes votos? São esses votantes ingénuos ou estúpidos, estão intimidados? Não. Eles votaram no Sinn Féin, já que oferece uma alternativa real às más políticas de Fianna Fail, Fine Gael e Partido Trabalhista. E isso é o que realmente os preocupa.

Pela nossa parte, o Sinn Féin não se distrairá e continuará com a difícil tarefa de construir a paz, resolver os problemas orçamentais no Executivo e obter o apoio para a unidade da Irlanda e a alternativa republicana à austeridade.

Também vamos continuar a apoiar a PSNI e a Garda no cumprimento das suas funções e seremos responsáveis perante o eleitorado nas próximas eleições para a Assembleia e nas próximas eleições gerais, quando o Primeiro-ministro ousar convocá-las.

Artigo de Gerry Adams, publicado em “Andersonstown News”, traduzido para espanhol por naiz.eus. Tradução para português de Carlos Santos para esquerda.net

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