Amargo e doce, suave suspiro: Adeus Mariem Hassan

A grande voz da música Haul (Música tradicional do Sahara Ocidental) e mundialmente conhecida como A Voz do Deserto, deixou-nos prematuramente no dia 22 de agosto aos 57 anos na sua Jaima (tenda típica Saharaui feita de peles de camelo e ovelha) em Tindouf, nos campos de refugiados na Argélia. Por Né Eme.

Mariem Hassan

Jamais esqueceremos esta grande senhora , embaixatriz do Sahara Ocidental no Mundo, onde através da sua música deu a conhecer a causa e o sofrimento do povo Saharaui. Como um grito desde a alma, a irreverente Mariem mostrou a determinação, coragem e honra dos Saharauis na luta pacifica pela sua autodeterminação, sob a invasão ilegal de Marrocos após a grande traição espanhola.

Depois de Felipe González ter discursado num campo de refugiados Saharauis em 14 de novembro de 1976 Mariem cantou respostas a este discurso em 2011 na sua música “Shouka” – “O Espinho”:

FELIPE – “Quisemos estar aqui hoje, dia 14 de novembro de 1976, para demonstrar, com a nossa presença, todo o nosso repúdio e condenação, pelo Acordo de Madrid de 1975 …”
MARIEM – “Gonzalez! Nós ouvimos com respeito e abrimos as nossas jaimas para si.”
FELIPE – “O povo Saharauí vai ganhar a sua luta. E vão ganhar, não só porque é o correto, mas porque têm vontade de lutar pela sua liberdade.”
MARIEM – “Advogado, grande líder, grande conversador, às vezes as suas palavras ferem …”
FELIPE – “Eu quero que vocês saibam que a maioria do povo espanhol, o mais nobre e mais decente povo espanhol, está solidário com a vossa luta.”
MARIEM – “Eu bebi o sangue dos meus três irmãos que lutaram contra os assassinos invasores …”
FELIPE – “Para nós não é uma questão de autodeterminação, mas sim acompanhá-los na vossa luta até a vitória final.”
MARIEM – “Parece que você esqueceu as promessas que fez ao meu povo.”
FELIPE – “Em nome do povo Espanhol e porque se sente envergonhado por o governo ter feito um péssimo acordo e uma descolonização pior ainda, entregando-vos nas mãos dos governos reacionários de Marrocos e da Mauritânia.”
MARIEM – “Nós já não o respeitámos Felipe, porque você se tornou um servo dos covardes invasores…”
FELIPE – “Mas vocês devem saber que o nosso povo também lutou com o governo por ter deixado para o povo Saharaui, os governos reacionários.”
MARIEM – “Cuidado para não confundir oportunismo com justiça e o mal com o bem …”
FELIPE – “À medida que o nosso povo se aproxima da liberdade, a maior e mais eficaz é o apoio que podemos dar à vossa luta.”
MARIEM – “Chegou ao poder com discursos eloquentes, logo em seguida vendeu armas a Marrocos …”
FELIPE – “A Frente Polisario é o guia certo para a vitória final do povo Saharaui, e também nos convenceu de que a sua República Independente e Democrática consolidará o seu povo povo, levando-os de volta às suas casas.”
MARIEM – “Os Saharauis não vão desistir de seus direitos, mesmo tendo que pagar o preço em sangue: eles são um povo valente e continuará a lutar.”
FELIPE – “Sabemos que já experimentaram receber muitas promessas nunca cumpridas. Eu não vos vou prometer nada, mas vou empenhar-se na história: o nosso Partido estará com vocês até à vitória final.”
MARIEM – A história não perdoa: acreditámos em ti e tu enganaste-nos. Recordaremos o que aconteceu, ainda que não possa ser alterado:
Não há rosa sem espinho! Não há rosa sem espinho! Oh,Felipe. Oh, Felipe. Felipe, Felipe, Felipe. O teu veneno é mortal. Ai, Felipe, veneno, Philip veneno.Não há rosa sem espinho! E o teu veneno é mortal. É mortal, mortal, Felipe fatal. Veneno, veneno mortal. “

O filme com legendas em inglês:

A terceira, numa família de 10 irmãos, Mariem Hassan nasceu em 1958 em Smara, no Sahara Ocidental. Era ainda uma jovem com 17 anos quando saltou por uma janela para não ser presa pela policia espanhola, depois de ter cantado numa reunião clandestina da Frente Polisario, em 1975. E nesse mesmo ano Marrocos invade o Sahara Ocidental e Mariem foge com a sua família para a “hamada” argelina1.

Viveu vários anos em Smara, um dos 5 acampamentos que se ergueram em Tindouf, onde aprendeu a cultura Saharaui, incluindo a musica haul.

Ao longo dos últimos 40 anos, Mariem viveu o sofrimento do exílio, e nos últimos 10 anos conviveu com um cancro que acabaria por lhe tirar a vida.

Mas Mariem (para além da sua determinação e luta) deixou-nos um valioso legado: A sua Música!!!

Na Europa, África e Cuba, Mariem cantou, encantou e emocionou. Porque ninguém ficava indiferente ao seu grito de coragem, ao seu olhar terno e à dança com que acompanhava as suas músicas.

Mariem foi indubitavelmente uma guerreira.

Editou vários discos, e adaptou algumas músicas ao seu ritmo. Em Portugal, com Sebastião Antunes e Luís Peixoto, em 2013, Mariem cantou varias músicas entre as quais “Senhora do Almortão” e a “Cantiga da Burra”. Em 2015, Mariem participa no mais recente álbum de Sebastião Antunes & Quadrilha: “Proibido Adivinhar”.

No seu percurso, contam ainda um livro, “Soy Saharaui” e é homenageada ao ser-lhe dedicado o filme “Life is waiting: Referendum and Resistance in Western Sahara” de Iara Lee, produzido por Cultures of Resistance, pela sua devoção e procura diária da autodeterminação do povo Saharaui.

Em maio de 20124, foi convidada a encerrar o FiSahara (Festival Internacional de Cinema do Sahara), em Dajla nos campos de refugiados de Tinduf na Argélia, onde uma vez mais acompanhada de Sebastião Antunes, e naquele que foi o seu ultimo concerto, visivelmente debilitada, Mariem Hassan fez ecoar a sua voz, e voltou a cantar a “Senhora do Almortão” e “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso. A pedido de um público visivelmente consternado, diante desta grande senhora que apesar do seu sofrimento não se deixou esmorecer e cantou a emblemática “El Aaiún egdat” – “Arde El Aaiún”, uma canção dedicada aos tristes acontecimentos em novembro de 2010 na capital do Sahara Ocidental.

Concerto de Mariem Hassan no acampamento de Dajla, em Tinduf na Argélia, foto de Carlos Cazurro

Depois, sob aquele céu estrelado, Mariem levantou-se ajudada pelos seus músicos e discretamente recolheu-se na sua Jaima.

15 meses depois a sua voz calou-se para sempre.

A saudade será eterna. A recordação doce.

A tristeza de sabermos que partiu sem ver o seu Sahara livre e pelo qual tanto lutou… essa tristeza jamais perdoaremos.

Será feita justiça nesse dia. No dia em que à boa maneira Saharaui, bebermos um chá a comemorar a liberdade do Sahara Ocidental…

O primeiro copo é Amargo como a Vida, o segundo Doce como o Amor e o terceiro Suave como a Morte.

Até sempre Mariem!!!

Artigo de Né Eme

Notas:

1Termo árabe que designa um tipo de deserto pedregoso, com uma paisagem árida, o solo bastante duro, com muitas rochas e pouca areia. O cascalho tem dimensões superiores a 6 cm. As temperaturas mais altas rondam os 45º entre os meses de Julho e Setembro. O vento, o siroco, sopra forte em tornados e mini tornados levantando muito pó. A pluviosidade é escassa, mas quando se faz sentir caem chuvas torrenciais.

Trailer do filme: “Life is waiting: Referendum and Resistance in Western Sahara” de Iara Lee

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