Jogadoras lutam pela sobrevivência do futebol feminino

Time feminino do SPFC corre risco de fechar devido à escassez de patrocinadores.

01/09/2015

Por Letícia Dauer, Mariana Presqueliare e Rafael Santos

De São Paulo (SP), colaboração para o Brasil de Fato

Após empate, São Paulo segue para final do campeonato | Crédito: Mariana Presqueliare

O time de futebol feminino do São Paulo Futebol Clube conseguiu seguir para a final do Campeonato Paulista após empate contra o time do Santos no dia 23 de agosto – as meninas do Morumbi enfrentarão o São José. O momento deveria ser de alegria, porém não há como as jogadoras se esquecerem de que estão prestes a perderem seus empregos. O time corre risco de fechar devido à escassez de patrocinadores. Afinal, o Brasil é o país do futebol para quem?

Enquanto, de acordo com um estudo da CBF, os jogadores de grandes clubes recebem em média 20 salários mínimos, as jogadoras ganham em média de dois a três. Isso quando seus pagamentos não estão atrasados. As atletas já ficaram cerca de 4 meses sem receber neste ano. Para Ana Cristina da Silva, jogadora do S.P.F.C., a maior violência cometida contra as mulheres nesse ramo esportivo é a “falta de incentivo financeiro”.

Dedicação

Colega de trabalho de Ana Cristina, Giovana Crivelari revela que consegue viver com o salário mesmo ele sendo baixo. Ela largou o ciclismo para se dedicar profissionalmente a sua grande paixão: o futebol. “A gente vive futebol de manhã, tarde e noite. A gente vive para isso”, disse Crivelari.

Para as meninas que sonham desde cedo em ser jogadoras, a garra vem de berço. Passando pelo Bangu no Rio de Janeiro, Ana Cristina trocou de times até chegar em São Paulo, onde joga atualmente. Sobre a disparidade entre o futebol masculino e feminino, revela frustração: “O futebol feminino está a quantos anos lutando para ter uma chance de viver melhor, de crescer?”.

A melhoria nas condições do esporte e maior reconhecimento para as próximas gerações é o que deseja Ana, que trabalhava como manicure e só tem mais três anos como jogadora profissional, “ninguém quer investir, o grupo é bom e não estamos aqui por acaso”. Em meio ao que vem acontecendo, dedicação é o que não falta: “com trabalho bem feito, porta não vai se fechar”.

Machismo

 Ana Cristina, jogadora do SPFC | Crédito: Mariana Presqueliare

Mesmo no futebol feminino, a predominância dos homens ainda se faz sentir. O atual técnico do time feminino do São Paulo Futebol Clube, MarceloMaria Friguerio, afirmou que “se a mulher fizer estágio ou curso com bons treinadores ela pode ser treinadora, na minha comissão técnica eu não tenho mulher trabalhando, eu não gosto, mas se eu fosse técnico do masculino eu teria uma mulher trabalhando comigo”.

De acordo com Marcelo, 44, elas misturam a relação com o trabalho, de maneira a criarem um sentimento de rivalidade e competitividade pessoal entre si. Sobre coordenar o time que está nas semifinais do campeonato estadual, ele diz “com a mulher você tem que ter esse jogo de cintura por conta da sensibilidade”.

O machismo e as más condições de divulgação e investimento reforçam a desvalorização do futebol feminino. “Eu dou aula de futebol em um colégio. De 200 alunos, apenas quatro são meninas. As mães não deixam”, disse a torcedora Alessandra Melo, de 26 anos.

A falta de incentivo das famílias, as escassas escolas de base para meninas e o reforço das desigualdades entre gêneros no mundo do futebol promovem as desigualdades e forçam jogadoras a abrirem mão de seus sonhos, “Eu precisei parar de jogar para pagar os estudos”, relatou a estudante Thainá Dias, 18.

Professora de educação física e jogadora da Liga Universitária de Futebol Feminino, Charlene Angelim, 26, afirma que a mídia contribui na construção dos estereótipos machistas. “Já sofri muita discriminação por ser mulher e dentro do futebol não é diferente, nossa sociedade possui o costume de criar estereótipos baseados em puro preconceito, além disso o futebol é um meio extremamente machista, e a mídia ao invés de desconstruir os paradigmas existentes em torno do futebol feminino acaba reforçando essa conduta, porque não consegue enxergar a mulher praticante de qualquer esporte, sem objetificá-la sexualmente”, afirma.

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