Literatura brasileira em quadrinhos

Adaptação de clássicos como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, reforça as possibilidades proporcionadas pelas HQs

Secretaria da Cultura do Rio de Janeiro

Cena da morte da cachorra Baleia: uma das mais impactantes do livro  (Foto: Danielle Veras)
Aves de rapina acentuam o tom de seca e morte do sertão
O ilustrador e quadrinista Eloar Guazzelli optou por tons escuros e personagens sem rosto na maioria das cenas
Cena mostra o reencontro entre Fabiano e o soldado amarelo
Coleção "Grandes Clássicos em Graphic Novels", da Ediouro

Lançado em 1938, o romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, mostra a saga da família composta por Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia, que lutam para sobreviver em meio à aridez da caatinga e do sertão nordestino. Apesar de escrita há mais de 70 anos, a obra-prima do escritor alagoano apresenta problemas sociais, políticos e econômicos que ainda persistem, como a dificuldade em meio aos longos períodos de estiagem e os abusos de poder.

O clássico já teve uma adaptação para o cinema em 1963, assinada por Nelson Pereira dos Santos e considerada um marco do Cinema Novo. Em 2015, volta a ocupar as prateleiras, dessa vez em versão quadrinhos lançada pela editora Galera Record, com os traços do premiado ilustrador e quadrinista gaúcho Eloar Guazzelli e roteiro de Arnaldo Branco. Ana Lima, editora executiva do selo de livros jovens da Record, diz que a ideia da adaptação surgiu naturalmente. “Por ser mais profundo, o texto pedia uma adaptação para jovens e adultos. O formato quadrinho/graphic novel é muito usado para clássicos. Ele privilegia os diálogos e não esgota a obra original, pelo contrário”.

Arnaldo Branco, a quem coube a tarefa inglória, como define Guazzelli, de cortar trechos inteiros da obra, a fim de adaptá-la à nova linguagem, conta que, inicialmente, procurou se inspirar no filme de Nelson Pereira dos Santos, mas acabou mudando de ideia para se manter fiel à obra literária. “Cheguei a começar o trabalho tentando traduzir o livro com poucas legendas e diálogos, como no filme, me concentrando em descrever as imagens que pudessem mostrar a história sem muito auxílio da prosa. Mas aí me dei conta de que estaria sonegando o belo texto do Graciliano aos leitores. Passei para o Guazzelli um corte mais abrangente, e ele fez questão de não rever o filme pra deixar sua versão mais pura, direta”.

Para Guazzelli, a obra de Graciliano representa “o retrato de uma tragédia” e sua denúncia permanece atual, já que o país ainda sofre em termos de carência e má distribuição de renda. “É uma grande vitória do Graciliano narrar a derrota daquela gente. Uma coisa fundamental no entendimento da obra e da genialidade dele é que, apesar de ser um autor comprometido com as questões sociais, ele não é, de forma alguma, um panfletário. Em nenhum momento ele idealiza os personagens, movido pelos seus desejos de transformação. Eles estão totalmente à deriva e são roubados por todas as estruturas. Boa parte das pessoas que sofreram tipo semelhante de violência também vão responder com violência, representando a convulsão social que abalou a América Latina”, diz.

Ao todo, o processo de trabalho teve duração aproximada de um ano. “Não foi um trabalho de muita interação. Cortar uma obra perfeita é um desafio, principalmente para grandes fãs do texto, como eu e o Guazzelli. Tentei manter tudo que fosse central para a história de cada capítulo, e também tudo que definisse o conflito de cada personagem. Mas claro que mantive passagens em que a beleza do texto era mais importante do que a função na trama. Fiz o roteiro e mandei para o Guazzelli com as legendas, diálogos e marcação dos quadrinhos, dando a ele total liberdade para mexer na minha adaptação se tivesse uma solução narrativa que preferisse”, explica Branco, autor da série em quadrinhosMundinho Animal.

Com o trabalho pronto em mãos, já com os desenhos, o roteirista conta que se emocionou com o resultado. “Quando estava escrevendo o roteiro me sentia fazendo uma trabalho técnico. Embora não pudesse deixar de reparar na beleza de várias passagens do livro, sabia que estava principalmente tentando manter a estrutura da narrativa intacta. Mas quando o arquivo com os desenhos chegou, pude avaliá-lo apenas como leitor e chorei em algumas passagens”.

Uma das cenas mais marcantes, tanto do livro quanto do filme, envolve a morte de Baleia. Com a liberdade maior proporcionada pelos quadrinhos, Guazzelli pode incluir a perspectiva da cachorra, que observa  fixamente Fabiano segurar um objeto desconhecido quando escuta um estrondo. Uma mancha avermelhada aparece no fundo branco da tela e, com uma dor forte nos quartos, ela se encaminha aos juazeiros, cambaleando. Uma sede horrível lhe queima a garganta, enquanto sua visão vai ficando anuviada, o céu vai escurecendo e uma ave de rapina anuncia a morte iminente. Em seus pensamentos, um mundo mais feliz, “todo cheio de préas, gordos, enormes”, com as crianças rolando com ela em um pátio espaçoso.

“É o ponto alto da obra, não tem como fugir da morte da Baleia. É terrível, porque tenho filhos e um cachorro que está velhinho, provavelmente para morrer. Achei muito doloroso. A cena tem toda uma delicadeza, mas a família não tem margem para essa delicadeza. Graciliano coloca coisas geniais, porque, além da crítica social, tem a questão de trazer para nós, leitores, esse artificialismo feliz que vivemos. Pude colocar o ponto de vista da Baleia, com ela sonhando, o que foi ótimo. É esse o momento em que o desenhista traz algo para a narrativa e mostra serviço”, diz Guazzelli.

O desenhista também destaca outra cena impactante, quando Fabiano encontra, perdido no meio da mata, o soldado amarelo, responsável pela noite que passara na cadeia e por seu espancamento. Com a chance de vingança nas mãos, tinha vontade de levantar o facão e desferir um golpe certeiro. “Por que motivo o Governo aproveita gente assim?”, se pergunta. Mas pensa melhor, abaixa a cabeça, curva-se e indica o rumo certo ao soldado, pensando consigo: “governo é governo”. “O encontro dele com o soldado representa toda a repressão. Quando ele tem a chance de se vingar, não se vinga. Gostei muito de desenhar essa cena”, afirma.

Para dar mais realismo às cenas protagonizadas pela família, o ilustrador e quadrinista optou pela predominância de tons escuros e por apagar o rosto dos personagens na maioria das passagens. “Eu sempre tive bem claro que não gostaria de fazer um álbum colorido. Apesar de poder usar este recurso, eu queria usar a escassez como narrativa. O que eu usei foram pontos de vista inusitados que o quadrinho, assim como o cinema, permite, e recursos gráficos, como quase apagar o rosto deles, para colocá-los como uma multidão, o que ainda são, infelizmente, apesar de ter diminuído. Eles fazem parte da paisagem. O quadrinho facilita nesse aspecto, ele dá espaço para mais ‘delírios'”.

Veteranos das adaptações    

Guazzelli já participou de diversas adaptações. A primeira delas foi em 2008, com O Pagador de Promessas (Agir), de Dias Gomes. De lá para cá, outros títulos surgiram, como Demônios (Peirópolis), de Aluísio Azevedo e A Escrava Isaura (Ática), de Bernardo Guimarães. O mais recente foi Grande Sertão: Veredas (Biblioteca Azul), de Guimarães Rosa, com roteiro assinado por ele e ilustrações de Rodrigo Rosa, escolhido como a melhor adaptação pelo prêmio HQ Mix, considerado o Oscar dos quadrinhos e do humor gráfico no Brasil. “Eu e o Rodrigo vamos ter o orgulho de subir ao palco do HQ Mix no próximo dia 12 para receber a premiação. Além de ilustrador e quadrinista, também trabalho com roteiro e cinema de animação. Sou um contador de histórias. Se eu fosse me apresentar hoje, acho que é o termo que melhor me definiria. Transitar por várias linguagens ajuda na hora de trabalhar, de conseguir enxergar o outro”, diz Guazzelli, que se refere aos autores como amigos que o auxiliaram em diferentes momentos de sua vida.

“Graciliano Ramos e Guimarães Rosa são autores que se debruçam sobre o Brasil de maneira profunda. Quanto ao Dias Gomes, eu tenho profunda admiração por ele, desde pequeno. Eu assisti à novela original, uma das peças do audiovisual mais fantásticas já feitas. O Odorico Paraguaçu é um dos maiores personagens da cultura brasileira. Eu venho tendo essa sorte e essa responsabilidade. Considero esses grandes autores como amigos, porque me ajudaram na vida. O que me salva é que, modéstia à parte, eu também sou artista, e entendo várias das questões que eles propõem. Podem me criticar de tudo, menos de falta de empenho”.

Branco, por sua vez, foi o responsável pela adaptação em quadrinhos de outros dois clássicos da literatura brasileira: Vestido de Noiva (Desiderata) e O Beijo no Asfalto (Nova Fronteira), ambos de Nelson Rodrigues. “Peças são mais fáceis de adaptar, pois o autor já separou os diálogos e as marcações de cena. Ao mesmo tempo, as ‘decisões editoriais’ são mais complexas, porque há menos trechos supérfluos, por assim dizer”, acredita.

Nicho literário                                                                                 

Trazer clássicos da literatura para o formato dos quadrinhos já é um fenômeno mundial que pode ser apontado como um nicho literário. Em qualquer livraria é possível encontrar, com relativa facilidade, diversos títulos, tanto estrangeiros quanto nacionais. No Rio, outra editora que faz adaptação de obras é a Ediouro, que tem em seu acervo a coleçãoGrandes Clássicos em Graphic Novels, com títulos como o já citado O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, com roteiro assinado por Branco, e O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, com ilustrações de Guazzelli.

“A coleção surgiu em abril de 2007, com o lançamento da adaptação deO Alienista para os quadrinhos, pelo selo Agir. A obra de Machado de Assis foi adaptada por ninguém menos que Fábio Moon e Gabriel Bá, grandes nomes do nosso quadrinho nacional. A ideia inicial era adaptar clássicos da literatura nacional em formato de graphic novel, mas, atualmente a coleção, agora publicada pelo selo Desiderata, específico para o gênero das histórias em quadrinhos, vem incorporando também clássicos estrangeiros, como O Castelo, de Franz Kafka. Um dos títulos da coleção ganhou o troféu HQ Mix na categoria de melhor adaptação para os quadrinhos, em 2011: Os Sertões: a Luta, de Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa, baseado no clássico de Euclides da Cunha”, explica Guilherme Vieira, editor de títulos infanto-juvenis da Nova Fronteira, que pertence ao grupo Ediouro desde 2006.

Segundo ele, os quadrinhos não vieram para substituir a obra original. “Ainda há quem defenda a obra original em detrimento da adaptação em quadrinhos ou vice-versa. No entanto, a graphic novel não existe para substituir a obra original, nunca foi esse o objetivo. O público-alvo das graphic novels se divide entre aqueles que gostariam de ter um primeiro e rápido contato com a obra original e aqueles que são fãs da história, do autor ou dos quadrinistas envolvidos no projeto”, diz Guilherme, que promete novidades para 2016. “Estamos nos voltando para a adaptação em quadrinhos de obras exclusivas da Editora Nova Fronteira, que oferece autores do calibre de Mário de Andrade, João Guimarães Rosa, Rubem Fonseca, Caio Fernando Abreu e Nelson Rodrigues”.

Arnaldo Branco destaca que as adaptações podem ajudar a aquecer o mercado literário, embora este não seja o principal objetivo. “Pode não só vender novamente o título para fãs da obra como levar leitores que ainda não tiveram o prazer de ler o livro a tomar a iniciativa, embora não ache que esse seja o objetivo principal. Uma boa adaptação tem uma força própria, assim como uma boa adaptação de um clássico para o cinema, por exemplo”. Guilherme complementa. “Na literatura, tudo se soma, tudo se transforma e se torna legado para as futuras gerações”.

Colaboração de Danielle Veras

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