Após renúncia, ex-presidente Pérez Molina é preso na Guatemala

Detido provisoriamente por acusação de corrupção, ex-mandatário fará defesa nesta sexta; audiência teve áudio de escutas que provariam sua culpa

04/09/2015

Por Vanessa Martina Silva,

Do Opera Mundi

O juiz Miguel Ángel Gálvez decretou nesta quinta-feira (3) ordem de prisão provisória para o ex-presidente da Guatemala Otto Pérez Molina, que renunciou à presidência ontem. O político, que havia se apresentado à Justiça, foi enviado à prisão de Matamoros, onde ficará até sexta (04), quando será reiniciada a audiência judicial.

 Foto: Reprodução/Twitter

O advogado de Molina, César Calderón, contestou a decisão, alegando que há violação do princípio de inocência, legalidade e livre locomoção do ex-mandatário. A defesa ressaltou ainda que o político teve a oportunidade de fugir e não o fez para responder devidamente ao processo.

O Ministério Público, no entanto, entendeu que a detenção provisória não viola os direitos de Molina e o juiz manteve a detenção.

Defesa

Em declarações após a audiência, Molina ressaltou que não há a menor intenção de “fugir do país” e voltou a dizer que vai “respeitar o devido processo, dar a cara [à investigação]”.

O ex-mandatário argumentou que há inconsistência nas provas apresentadas pelo Ministério Público contra ele. Por quase cinco horas, Molina ouviu as escutas apresentadas na audiência perante o juiz e que seriam provas do envolvimento dele com o caso de corrupção conhecido no país como “a linha”.

Ele defendeu ainda que falta investigação e que tudo será esclarecido amanhã (04/09), quando será retomada a audiência. E questionou ainda o fato desse processo estar ocorrendo às vésperas das eleições no país. “Há grupos que querem adiar as eleições. É preciso que acima de tudo elas sejam realizadas. Neste país temos que aprender que temos que respeitar a lei”, afirmou Molina minutos antes de deixar o prédio escoltado por policiais.

Crise política

“Somos exemplo para o mundo. Hoje o sistema dá mostras de que está funcionando, essa é uma grande lição especialmente quando a polarização nos levou a um conflito entre irmãos”, afirmou o deputado Orlando Blanco, da UNE (Unidade Nacional da Esperança) sobre o processo que resultou na renúncia de Molian.

A ONU também comentou o momento vivenciado pela Guatemala. “Finalmente haverá um devido processo, no qual se poderá deduzir ou não as responsabilidades que o presidente teve neste caso. Houve uma demanda social de luta contra a corrupção e creio que as instituições estão respondendo, fortalecendo o estado de direito”, afirmou o representante das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Alberto Brunori.

Já Amícar Pop, deputado do partido de esquerda Winaq, afirmou que a renúncia de Molina não acaba com os problemas da Guatemala, mas a “sociedade nos dá a opção de tomar uma rota para fazer as grandes reformas constitucionais que o país está pedindo. Não podemos seguir adiando como fizemos com a lei eleitoral. Temos que limpar sistema”, afirmou Pop.

Contexto

No último dia 21 de agosto, o Ministério Público e uma comissão da ONU acusaram Molina de ser um dos cabeças de uma rede chamada “a Linha” dedicada à cobrança de subornos a empresários para a evasão de impostos no sistema nacional de aduanas.

Diante das acusações e da pressão popular em todo o país, o ex-mandatário renunciou na noite desta quarta-feira (02), três dias antes das eleições gerais.

No próximo domingo (06/09), os guatemaltecos deverão ir às urnas para eleger um novo presidente, vice-presidente, 338 prefeitos, 158 deputados e 20 representantes do Parlamento Centro-Americano.

Eleições

Com relação às eleições que serão celebradas neste domingo (06/09), apesar do pedido de alguns setores da sociedade guatemalteca para que elas sejam adiadas por conta do clima político no país, a magistrada do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), María Eugenia Mijangos, afirmou que as eleições gerais serão realizadas com normalidade.

“O tom das manifestações tem sido pacífico, se continuar nesse mesmo sentido e se for realizada a substituição do presidente da República como estabelece a Constituição, eu não vejo porque não possam ser realizadas as eleições”, afirmou Mijangos.

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