Migração em massa e alterações climáticas

“Não estamos a dizer que a seca causou o conflito na Síria. Estamos a dizer que, somando todas as outras agravantes, ajudou a ultrapassar os limites, levando a um conflito interno”, diz um estudo sobre a seca severa de 2006. Por Ellie Mae O’Hagan, The Guardian

O Mediterrâneo, neste século, continuará a ficar cada vez mais seco, com consequências socioeconómicas bastante negativas. Foto de Gary Sauer-Thompson
O Mediterrâneo, neste século, continuará a ficar cada vez mais seco, com consequências socioeconómicas bastante negativas. Foto de Gary Sauer-Thompson

 Tenho acompanhado a forma como a crise de migração está a ser debatida pelos políticos e os media. É esta palavra – crise – que é particularmente chocante. Sugere queaquilo a que assistimos ao longo da Europa éuma aberração, um desastre temporário para ser “resolvido” por políticos. Mesmo as tendas periclitantes montadas em Calais sugerem um fenómeno que poderia ser resolvido a qualquer momento
Na obra “O Conceito do Político”, o filósofo Carl Schmitt argumenta que, quando confrontadas com uma crise, as democracias liberais colocarão as subtilezas constitucionais de parte, de forma a sobreviver. O público concede que o seu governo viole valores liberais, porque uma crise é um estado de exceção que requer medidas desesperadas.

Talvez isto explique o motivo de ter havido tão pouco alarido quanto a supostas sociedades civilizadas terem usados termos como “pilhagem” e “enxames”, por terem feitos escolhas políticas que resultam em centenas de pessoas que se afogam ou que ficam retidas em centros de detenção.

Pensamos que estas coisas não refletem o que somos como pessoas. São apenas respostas necessárias a esta crise atual.

Há apenas um problema quanto a chamar este fenómeno de crise: é que não é temporário, é permanente. Graças ao aquecimento global, a migração massiva poderá ser a nova normalidade.

Graças ao aquecimento global, a migração massiva poderá ser a nova normalidade.

Há muitas estimativas em relação ao que poderemos esperar no futuro próximo, mas a perspetiva mais conhecida (e mais controversa) vem do Professor Norman Myers, que afirma que as alterações climáticas poderão causar a deslocalização de 200 milhões de pessoas em 2050.
Aliás, já está a acontecer. De acordo com o Pentágono, as alterações climáticas são um multiplicador de conflitos e, de facto, parece aumentar o risco de conflitos.

Um novo estudo, publicado em março, sugere que foi o que realmente aconteceu na Síria, após uma severa seca em 2006. Como explica o coautor do artigo, o Professor Richard Seager: “Não estamos a dizer que a seca causou o conflito na Síria. Estamos a dizer que, somando todos as outras agravantes, ajudou a ultrapassar os limites levando a um conflito interno. E uma seca tão severa foi, muito provavelmente, causada pela atividade humana que acabou por secar a região.”

A Síria tem agora o maior número de refugiados no mundo. Um novo relatório, levado a cabo pelo governo, sobre a iminente penúria causada pelo clima, sugere que “a ascensão do Estado Islâmico deve-se muito à crise alimentar que provocou a Primavera Árabe.
No seu livro “Colapso: Como as Sociedades Escolhem Falhar ou Prosperar”, Jared Diamond sublinha que as zonas mais afetadas pelas alterações climáticas são as mais prováveis de viver conflitos, o que origina refugiados. Rápidas alterações climáticas irão pressionar, climaticamente, muitos países em desenvolvimento.

Não serão apenas conflitos, exacerbados pelas alterações climáticas, que criarão refugiados. As alterações climáticas provocarão a migração massiva. Como diz Simon Lewis, professor de ciência de alteração global na University College de Londres, “as zonas climáticas e as vegetais estão a deslocar-se, assim o Mediterrâneo, neste século, continuará a ficar cada vez mais seco, com consequências socioeconómicas bastante negativas. Será duro para a Espanha, Itália e para a Grécia, onde um número significativo de pessoas se deslocarão para norte e, claro, os refugiados/ deslocalizados não permanecerão no Mediterrâneo, continuarão a deslocar-se para norte.

Os países mediterrâneos que estão atualmente a lidar com os migrantes, viverão um dia uma crise migratória. Um dia poderá haver italianos e gregos nos campos de Calais, à medida que os seus países se tornam cada vez mais quentes e áridos.

Noutras palavras, os países mediterrâneos que estão atualmente a lidar com os migrantes, viverão um dia uma crise migratória. Um dia poderá haver italianos e gregos nos campos de Calais, à medida que os seus países se tornam cada vez mais quentes e áridos.

Num artigo de 2014, Migration as Adaptation (migração como adaptação), Kayly Ober sugere que a migração é uma boa forma de lidar com os efeitos iminentes das alterações climáticas. Ela afirma que a comunidade internacional deveria “concentrar-se não só em como lidar com as emissões de gás com efeito de estufa, mas também em como lidar como um mundo já alterado”.

A ideia de milhões de migrantes a serem assistidos para virem para a Europa ocidental poderá escandalizar o Daily Mail, mas não deveria – porque a migração poderá vir a ser uma forma de adaptação a considerar, para os britânicos. De acordo com a Agência Ambiental, 7.000 propriedades poderão perder-se devido ao aumento do nível do mar, no virar do século. Estas pessoas também necessitarão de se realojar.
Então, o que faremos em relação à migração climática? O primeiro passo é mudarmos a nossa perceção. Precisamos de processar o facto de o problema da migração não desaparecer nem vir a ser “resolvido”. Provavelmente, tornar-se-á mais comum, uma nova normalidade.

O segundo passo é óbvio – todos temos de ser mais ativos a pressionar os governos, para que eles tomem decisões que reduzam a emissão de gases com efeito de estufa, para que mais pessoas possam permanecer nas suas casas e comunidades, salvaguardadas. No que toca à Grã-Bretanha, terá de aderir aos compromissos internacionais para reduzir as emissões, assim como terá de manter o aquecimento a níveis inferiores aos níveis perigosos (em outras palavras, acima dos níveis pré-industriais), terá também de providenciar os fundos necessários à adaptação. A Grã-Bretanha terá de procurar um acordo global equitativo, na cimeira climática de Paris, em dezembro, vista por muitos como a última hipótese de evitar uma transformação climática catastrófica.

Finalmente, precisamos de abordar urgentemente as estratégias adotadas para lidar com a migração, pelos países ocidentais e dos comentários fanáticos que frequentemente acompanham estas estratégias.
Existe um forte motivo para que a Grã-Bretanha aceite um grande número dos refugiados climáticos: como primeiro país a industrializar-se, precisamos de assumir a histórica responsabilidade pelas alterações climáticas, precisamos de ter em conta a nossa histórica emissão de carbono e os seus efeitos quando respondemos à migração massiva.
A migração a que assistimos não é um estado de exceção, é o início de um novo paradigma – e a resposta que dermosrefletirá o que verdadeiramente somos como sociedade. Precisamos de lidar com as vítimas desta crise permanente com compaixão, não só pela sua humanidade mas também para a nossa.

Publicado no The Guardian

Título original: A migração em massa não é nenhuma “crise”: é a nova normalidade, à medida que o clima muda

Tradução de Tomás Nunes para o Esquerda.net

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