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Sininho e ativistas ligados a Black Blocs prestam esclarecimentos na polícia

Elisa Quadros e mais cinco pessoas prestam depoimento num inquérito sobre as manifestações

O DIA

Rio – A ativista Elisa Quadros, conhecida como Sininho, foi levada na manhã desta quarta-feira por policiais da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) para prestar esclarecimentos na Cidade da Polícia, no Jacaré, Zona Norte do Rio. Ela, e mais cinco pessoas, entre eles a advogada Eloísa Sammy, estariam prestando depoimento num inquérito sobre manifestações que corre em sigilo.

Ativista Elisa Quadros, conhecida como Sininho, foi encaminhada na manhã desta quarta-feira para a Cidade da Polícia, na Zona Norte

Foto:  Severino Silva / Agência O Dia

O nome de Sininho ficou em evidência durante as manifestações do segundo semestre do ano passado. A ativista chegou a ser presa em outubro do ano passado, nas escadarias da Câmara Municipal. Em fevereiro deste ano, ela prestou depoimento na 17ªDP (São Cristóvão) sobre a morte de Santiago Andrade. Na ocasião, ela negou ter falado sobre o envolvimento do deputado Marcelo Freixo (PSOL) com Caio Silva Souza e Fábio Raposo Barbosa, acusados de arremessarem o artefato no cinegrafista durante um protesto na Central do Brasil. 

Até dezembro, pelo menos 837 pessoas foram feridas durante as manifestações

Marcas da violência se espalharam pelo país

O DIA|JULIANA DAL PIVA

Rio – Desde o ano passado, a população brasileira teve que se acostumar com um cotidiano ainda mais conturbado. No Rio, Cinelândia, Candelária, Avenida Presidente Vargas, Palácio Guanabara e Assembleia Legislativa se tornaram palcos de protesto e disputa, muitas vezes violenta. 

Os números assustam. De acordo com relatório da ONG Artigo 19, apresentado na última semana, ao menos 837 pessoas ficaram feridas até dezembro, durante as manifestações em todo o país. O estudo também registra agressões a 117 jornalistas.Em São Paulo, durante um dos protestos de junho, o fotógrafo Sérgio Silva perdeu a visão de um dos olhos, após ser atingido por uma bala de borracha disparada por um policial. 

Truculência policial e ação de mascarados tornaram os protestos violentos, o que reduziu as adesões

Foto:  João Laet / Agência O Dia

A consequência é previsível. As manifestações pulverizaram, mas encolheram. Pesquisador do fenômeno das manifestações, o professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ivar Hartmann, acredita que a violência teve dois momentos decisivos para os protestos. “Acho que teve efeitos em dois sentidos. Em um primeiro momento, mobilizou ainda mais, com as pessoas vendo o que aconteceu com quem estava nas ruas. Mas isso foi em alguns dias, algumas semanas. Agora, a violência tem sido muito mais um desincentivo. As pessoas têm medo da repressão policial”, afirmou Hartmann. 

A violência policial marcou inúmeros episódios. Ao longo dos meses, 2.608 pessoas foram detidas. Só em junho 1.212. A PM do Rio diz que abriu 67 investigações envolvendo o trabalho dos agentes em manifestações. Desses, dois policiais foram indiciados por crime militar, três por crime comum e cinco punidos por transgressão disciplinar. Os nomes, porém, não foram fornecidos. 

Os manifestantes também listam uma série de problemas no comportamento policial como a falta de identificação na farda, as prisões injustificadas e o uso excessivo de força. Para Hartmann, “a polícia não foi treinada e nunca ganhou equipamento adequado.”

‘Eu só quebrei banco’, diz integrante dos black blocs

Em meio aos protestos um grupo de jovens mascarados e de preto marcou posição e ficou conhecido. Estão envolvidos em episódios contraditórios. Tanto de vandalismo, como de defesa de professores, mas também na morte do cinegrafista Santiago Andrade. Sua atuação é polêmica e de difícil compreensão. De ferido no protesto a adepto da tática black bloc. Assim é a trajetória de Eric Pedrosa, 22 anos.

Ele conta que no grande ato da Avenida Rio Branco, que reuniu 100 mil pessoas, ele estava ajudando um policial que estava encurralado na rua lateral da Alerj, quando foi atingido no olho por um estilhaço de bomba de gás lacrimogêneo. A cicatriz no canto da pálpebra é visível até hoje. “A partir do momento em que eu quase fiquei cego, eu tenho que proteger o meu olho”, justifica Pedrosa, ao dizer por que aderiu aos black blocs. 

Eric Pedrosa diz que aderiu aos black blocs depois de ser ferido por estilhaço de bomba que quase o cegou

Foto:  Uanderson Fernandes / Agência O Dia

De lá para cá, já participou de 44 manifestações. Segundo ele, tem o apoio da família e a própria mãe chegou a comprar a sua máscara antigás. Questionado sobre o que conhecia de teoria política, respondeu rindo: “Maquiavel, O Pequeno Príncipe. A única coisa que eu li foi o Pequeno Príncipe e o Alquimista do Paulo Coelho.” Sobre os atos de vandalismo, ele afirma que só atacou “símbolos do capitalismo”. “Eu só quebrei banco”, conta. 

Pedrosa diz que vai torcer pela Alemanha na Copa do Mundo. E garante que vai marcar presença em todos os protestos que puder. Para pesquisadores tanto a violência policial quanto a causada pelos adeptos da tática black bloc também contribui para a violência. “Eles acreditam na violência como forma de mudança e contestação social. Isso entra em choque com outros movimentos sociais que acreditam na via pacífica”, explicou o sociólogo Paulo Baía.

Cinegrafista morreu após disparo de rojão 

Em fevereiro, um protesto contra um novo aumento no preço das passagens de ônibus no Rio terminou de modo trágico. O cinegrafista da Rede Bandeirantes Santiago Andrade acompanhava a manifestação quando ativistas e policiais militares do Batalhão de Choque entraram em confronto. 

Morte do cinegrafista Santiago Andrade virou marco na luta contra a violência nos protestos

Foto:  Divulgação

Ao fazer imagens da confusão, Santiago foi atingido na cabeça por um rojão disparado pelos manifestantes Fábio Raposo e Caio Souza. Ambos estavam com os rostos encobertos e foram identificados com o auxílio das imagens dos jornalistas que cobriam o protesto. Santiago chegou a ser levado com vida ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos dias depois. Sua trágica morte virou símbolo na luta contra a violência nos protestos. 

Fábio e Caio foram presos pouco tempo depois. Eles continuam detidos aguardando julgamento, acusados acusados pelos crimes de explosão e homicídio triplamente qualificado. As penas podem chegar a 34 anos de reclusão.

Ministro: parceria entre PCC e black blocs é ‘inadmissível’

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou no domingo que é “inadmissível” a associação entre black blocs e a facação criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) para causar caos na Copa do Mundo. “É inadmissível que pessoas queiram se associar ao crime para fazer reivindicações”, disse o ministro ao jornal O Estado de S. Paulo. A entrevista foi uma reação a uma reportagem do jornal em que um black bloc afirma ter “certeza” da atuação do PCC no Mundial.

Cardozo disse ainda que o governo está monitorando todos os setores considerados estratégicos e que poderão criar problemas, afirmando ainda que há uma cooperação entre os serviços de inteligência dos governos federal e de São Paulo para acompanhar quaisqer situações. 

Fonte: Terra

ENFRENTAR A POLÍCIA COM A LEI TAMBÉM FAZ PARTE DA ‘AÇÃO DIRETA’

Iranildo Brasil, de 22 anos, citou artigos da Constituição e do Código de Processo Penal quando PMs tentaram revistar seu carro

As cerca de 250 pessoas que se reuniram no sábado passado na Praça da Sé, para se manifestar contra a realização da Copa do Mundo no Brasil, eram basicamente black blocs – muitos deles sem máscaras – e seus seguidores. Mesmo assim, o ato foi pacífico do início ao fim. O momento de maior tensão ocorreu quando policiais militares tentaram revistar o carro de um rapaz e ele não deixou. Os manifestantes cercaram a van da PM para onde o rapaz foi levado. Acabaram deixando o veículo passar, para que ele pudesse resolver o conflito com a PM em uma delegacia. O rapaz era Iranildo Brasil, de 22 anos, filho de empregada doméstica, que ainda não terminou o curso de Direito em uma faculdade particular, mas já passou no exame da Ordem dos Advogados do Brasil e faz estágio em um escritório de advocacia. No 8º Distrito Policial, o delegado de plantão deu razão a Iranildo.

O incidente começou quando um manifestante mascarado veio deixar objetos em seu Santana, que estava estacionado na praça. Policiais vieram revistar o carro, mas Iranildo os impediu. “Não estou cometendo crime ou prestes a cometer, portanto, a ordem é ilegal”, disse ele ao policial. O jovem advogado cita o artigo 5º da Constituição, sobre a inviolabilidade da propriedade, e o artigo 244 do Código de Processo Penal, que fala de “fundada suspeita” e obriga o policial a explicar ao cidadão as razões da revista. “O que a PM fez foi dizer que esses direitos não valem nada, que sua autoridade é superior à Constituição.” 

 

Enfrentar a polícia com a lei também faz parte da ‘ação direta’

 

Iranildo conta que já tinha tido uma experiência de um policial “plantar” uma garrafa de gasolina (utilizada para fazer coquetéis molotov) no seu carro, durante uma revista. 

Segundo ele, o soldado na Praça da Sé não conhecia a lei, e teria dito: “Se fosse noutro momento, você teria apanhado”. Os moradores da periferia que acompanharam o episódio concordaram que ele só teve esse desfecho porque ocorreu no centro da cidade, e na presença da imprensa. “Se você diz na comunidade ‘quero me identificar na delegacia’, não sai vivo de lá”, comenta um rapaz que mora com o pai, auxiliar de limpeza, no extremo sul de São Paulo.

“A PM não respeita as leis, e por mais que tenha códigos de disciplina, não respeita o cidadão com ideologias e o pobre”, acusa Iranildo. O jovem advogado foi o herói dos black blocs no sábado. Sua atitude é considerada, pela doutrina black bloc, uma “ação direta”, de imposição de um direito na prática.

Um grupo de advogados voluntários acompanha as manifestações e dá assistência aos detidos, até constituírem um defensor. O grupo surgiu espontaneamente em julho, no início da onda de manifestações. Foi formado por advogados que participavam dos protestos como manifestantes. Eles são facilmente identificáveis: em geral jovens, são os únicos que aparecem de gravata ao lado dos black blocs. 

BLACK BLOCS PROMETEM CAOS NA COPA COM AJUDA DO PCC

Protagonistas das ações mais espetaculares da rede anarquista não foram nem sequer fichados pela polícia

O Estadod e São Paulo|Lourival Sant’Anna

Os black blocs que executaram as ações de grande repercussão do ano passado continuam fora do radar da polícia, e prometem transformar a Copa do Mundo “num caos”. Para isso, alguns deles esperam que o Primeiro Comando da Capital (PCC), a organização que domina os presídios paulistas e emite ordens para criminosos soltos, também entre em campo. Não se trata de uma parceria, mas de uma soma de esforços.

Com o compromisso de não identificá-los, o Estado ouviu 16 desses black blocs, em seis encontros, na última semana. À diferença dos adolescentes que os imitaram em depredações, e que acabaram arrolados em um inquérito do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), eles são adultos, seguem tática desenvolvida há décadas na Europa e nos Estados Unidos, não têm página no Facebook nem querem aparecer.

Black blocs prometem caos na Copa com ajuda do PCC

Dos 20 que formam o núcleo da rede, apenas um foi fichado, porque foi detido em uma manifestação. Movem-se na sombra do anonimato, articulam-se nacionalmente, e nunca haviam dado entrevista antes. Preocupados com sua imagem perante a opinião pública, decidiram falar, pela primeira vez. “Vamos estourar de novo agora”, promete o mais veterano deles, de 34 anos, formado em História na USP e com matrícula trancada no curso de Psicologia.

“A gente vai devolver o troco na moeda que o Estado impõe”, ameaça o ativista, que trabalha para um hospital público de São Paulo. “O caos que o Estado tem colocado na periferia, por meio da violência policial, na saúde pública, com pessoas morrendo nos hospitais, na falta de educação, na falta de dignidade no transporte, na vida humana, é o caos que a gente pretende devolver de troco para o Estado. E não na forma violenta como ele nos apresenta. Mas vamos instalar o caos, sim. Esse é um recado para o Estado.”

“A gente tem certeza de que o crime organizado, o PCC, vai causar o caos na Copa, e a gente vai puxar para o outro lado”, continua o veterano. “Não temos aliança nem somos contra o PCC. Só que eles têm poder de fogo muito maior do que o MPL (Movimento Passe Livre, que iniciou as manifestações, há um ano, com ajuda dos black blocs). Pararam São Paulo”, acrescentou, lembrando as ações do PCC na década passada.

O veterano e uma bailarina de 21 anos, que abandonou um curso em uma universidade pública para se dedicar exclusivamente à causa, contaram que membros do PCC receberam bem na Penitenciária do Tremembé (interior paulista) dois black blocs presos na manifestação de junho do ano passado do MPL. “Colocaram colchões para eles.” Igualmente, o Comando Vermelho acolheu um ativista preso no Rio.

“Os ‘torres’ respeitam o que fazemos, por causa do nosso idealismo”, explica o veterano, usando o jargão que designa os líderes do PCC. “Eles fazem por lucro e a gente, contra o sistema. Não nos arriscamos por dinheiro, mas para que a mãe deles também seja atendida pelo SUS.” O veterano prossegue: “Sou nascido e criado na ZL (zona leste). Conheço muito a cara do PCC. Somos os nerds do lado da casa deles. O crime organizado respeita a gente porque nasceu de mentes pensantes. Por isso talvez não nos coloquem na cadeia”, interpreta, intrigado com o fato de a polícia não os incomodar. “Porque vamos fazer uma revolução lá.”

Black blocs prometem caos na Copa com ajuda do PCC

Tática. O veterano, que cita o anarquista canadense George Woodcook e os Racionais MC, emprega “a tática”, como eles a chamam, desde 2001, quando “quebrou” o Parque d. Pedro, no centro de São Paulo. Em princípio, a função assumida pelos black blocs é a de resistir à repressão e proteger os manifestantes, interpondo-se entre eles e a polícia. Mas também a provocam, quando acham politicamente conveniente fazer com que ela perca o controle e a razão diante da opinião pública, de modo a atrair simpatia para um movimento.

Foi assim há um ano, na Praça da Sé, em protesto do MPL, quando o veterano, protegendo-se apenas com sua mochila, investiu contra a polícia de choque. Pegos de surpresa, os policiais dispararam bombas de gás lacrimogêneo, que atingiram a multidão, enquanto ele saía de cena, ileso. A partir dali, intensificaram-se os distúrbios.

Os black blocs, que não são um grupo estruturado, mas uma rede, que vai se formando espontaneamente, no contato nas ruas, queimaram carros de emissoras de TV e da polícia, depredaram 14 bancos (em 40 minutos) e a sede da Prefeitura. Protegidos por barricadas e beneficiados pela surpresa e pelo despreparo da polícia, não foram pegos.

Mas receberam a adesão de cerca de 100 adolescentes, que, numa explosão de fúria, ou por terem apanhado da polícia nas manifestações ou por ressentimentos trazidos da periferia onde moram, partiram para um quebra-quebra descontrolado, de tudo o que aparecesse na frente. Incluindo carros, lanchonetes e bancas de revista cujos donos pouco têm a ver com os “símbolos do capitalismo” visados pela doutrina anarco-socialista que predomina entre os black blocs. O núcleo original, então, saiu de cena. Voltou há uma semana, em uma manifestação pacífica na Praça da Sé. “A gente estava bem armado”, disse o veterano, sem detalhar o tipo de arma. Eles têm usado coquetéis molotov, pedras e escudos improvisados.

“A ação black bloc é mais incisiva e intensa numa manifestação pacífica”, afirma o veterano. Segundo ele, as ações têm de ter uma razão de ser. “Não vejo sentido em quebrar banco na Copa”, exemplifica. Mas a violência contra bens materiais – e não contra seres vivos, com exceção de policiais – é justificada pelos praticantes da tática. E desculpada, no caso da ação “aleatória” de adolescentes da periferia. “Não existe o errado e o certo”, pondera. “É a revolta dele.”

Frustração. “Ocupamos durante cinco meses a frente da Assembleia Legislativa, cheios de boas intenções”, lembra um estudante de Direito de 22 anos. “Apresentamos uma pauta de reivindicações. Não deu em nada. Manifestação pacífica não dá resultado.”

“No último ano, houve 30 protestos, 4 muito violentos, que foram os mais noticiados”, contabiliza um profissional de Marketing e estudante de Ciência Política de 32 anos, que doutrina os black blocs e seus seguidores com textos anarquistas. “Os outros não receberam uma linha.”

A socióloga espanhola Esther Solano, professora da Universidade Federal de São Paulo e pesquisadora dos black blocs, vê uma distorção nessa atenção dada às depredações. “Num país onde mais de 50 mil pessoas são mortas por ano, como é possível essa histeria com 40 garotos?”, pergunta. “Um país que naturaliza tanto a sua violência não tolera ver a violência na Avenida Paulista.” O veterano acrescenta: “No Brasil, choca mais 14 bancos quebrados do que a polícia matar 6 crianças”.

“A manifestação não pode ser pacífica, sendo que é resposta à repressão estatal e capitalista”, argumenta um rapaz de 18 anos, que estuda e trabalha, mas não quis dar mais detalhes sobre si mesmo. “O Estado sendo opressor, esmagando a população, obrigando a morrer na fila do SUS, isso é violento, e a resposta é autodefesa.” O veterano completa: “É legítimo quebrar banco. Quantas pessoas os bancos quebram por dia?” Com relação a depredar bens públicos que depois terão de ser reparados com dinheiro dos impostos, ele responde: “O imposto já é roubado. Dizer que o dinheiro vai sair do nosso bolso é mentira, porque já saiu. Alguém tem saúde digna? Então não reclame de vandalismo.”

Contágio. Os black blocs acreditam que sua revolta esteja se espalhando pelas camadas mais pobres da população. “O bagulho que mais gostei da semana passada foi a greve dos motoristas”, disse a moça de 21 anos, que vive da renda de um aluguel. “Estamos mostrando na rua a tática, e queremos que as pessoas se apropriem”, acrescenta uma estudante de Ciências Sociais “na casa dos 30”, que, como muitos deles, tem receio de fornecer detalhes nesta reportagem e finalmente entrar no radar da polícia. “A barricada é útil quando o Choque chega para desocupar uma área”, exemplifica. “Uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) foi queimada em uma favela do Rio em protesto contra a violência policial.”

Sete membros do núcleo participaram da ocupação da Câmara Municipal do Rio, no ano passado. Eles também estão associados a um grupo no Recife, uma das cidades do Nordeste que visitaram. “Fomos fazer campo de base”, disse o veterano. Ativistas colombianos e venezuelanos vieram trocar experiências com eles. A bailarina está interessada nos zapatistas, e prepara-se para ir visitá-los no México. Ela gosta do filósofo germano-americano Herbert Marcuse, ideólogo da contracultura, para quem “não temos que quebrar o sistema nem por dentro nem por fora, mas por suas brechas”.

Alguns abandonaram estudos e trabalho para se dedicar à causa em tempo integral. Outros a conciliam com uma vida “normal”. Têm carros e cedem seus apartamentos para a “causa”. O repórter do Estado esteve em dois “aparelhos”, para usar um termo dos anos 70, na região da Avenida Paulista. Num deles, o anfitrião calçava pantufas de ursinho. Em duas situações, o repórter viu black blocs dando esmolas na rua. Pessoalmente, são gentis e educados, em contraste com a imagem de violência associada a eles.

O perfil social dos black blocs é variado. Alguns são pobres e moram na periferia. Outros são de classe média baixa e vivem na região central da cidade. O repórter conheceu apenas um caso de um rapaz de classe alta, cujos pais moram em um bairro nobre de São Paulo. Depois de ler o primeiro texto anarquista, aos 13 anos, pediu para seus pais pararem de pagar escola para ele. Hoje com 18 anos, mora com a namorada na região oeste de São Paulo, trabalha e estuda, e participa das ações mais ousadas dos black blocs.

Polícia. Quase todos concluíram, abandonaram ou fazem faculdade. E sofreram violência policial. Quando o veterano tinha 14 anos, a polícia veio despejar sua família do barraco em que viviam, no Parque São Luís, na zona norte de São Paulo. “Estávamos devendo o aluguel e parece que o dono tinha um parente militar, porque a polícia não pode chegar assim, sem um mandado”, recorda. “Um policial alterou a voz com a minha mãe, entrei na frente e ele deu um tapa na minha cara. Eu nunca tinha apanhado, nunca tinha tacado pedra na polícia. Hoje, jogo coquetel molotov com gosto.”

“A maioria dos presos é punk”, diz o veterano. “A gente ‘cola’ muito com os punks. São inteligentes, não são vândalos”, continua, empregando esse termo para quem depreda aleatoriamente, sem seguir a tática, que preconiza ações com motivo claro. “Não cobrem a cara. Em tudo o que eles acham justo, eles estão. A polícia prende os punks e, por causa da cor da roupa, diz que são black blocs.”

Um rapaz de 20 anos conta que aderiu à tática depois de levar três balas de borracha da polícia – uma na perna esquerda e outra nas costas, no distúrbio na Rua Maria Antonia, no dia 13 de junho; e uma no estômago, na manifestação do 7 de Setembro, a que teve a maior participação de black blocs e de seus seguidores adolescentes.

“Não vejo sentido em quebrar banco, mas vejo a polícia como órgão repressor, e nosso papel é proteger os manifestantes”, assinala o rapaz, que estuda Direito em uma faculdade privada, com 100% de bolsa do ProUni, e faz estágio em uma imobiliária. Ele mora em um bairro da região central com a mãe, empregada doméstica.

A bailarina afirma ter sido assediada sexualmente por policiais, antes de aderir à tática.

Um programador de 32 anos que apoia o movimento acredita que seu pai, que era dono de um bingo, tenha sido morto por policiais, por não pagar a quantia exigida por eles para manter o negócio funcionando, quando se tornou ilegal, em 1998. Seus conhecimentos profissionais são valiosos para os black blocs, que se apoiam na atividade de hackers. No primeiro encontro com o repórter do Estado, o veterano lhe disse: “O seu CPF não é de São Paulo”, para deixar claro que o havia investigado.