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Combates na Ucrânia já deixaram mais de 1.100 mortos desde abril

Um separatista pró-russo ao norte da cidade de Donetsk, bastião da insurgência.

Um separatista pró-russo ao norte da cidade de Donetsk, bastião da insurgência.

AFP PHOTO/ BULENT KILIC

Em um comunicado divulgado nesta segunda-feira (28), a ONU denunciou as mortes de 1.129 pessoas desde o início da operação do Exército contra os separatistas no leste da Ucrânia, em meados de abril. Além do elevado número de mortes, os combates deixaram 3.442 feridos, segundo a ONU.

 

O texto chama de alarmantes as informações sobre os combates em Donetsk e Lugansk, onde as duas partes “utilizam armas pesadas como artilharia, tanques, foguetes e mísseis” em áreas residenciais.

Citada pelo comunicado, a comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, afirma que a queda do avião da Malaysia Airlines, abatido por um míssil no leste da Ucrânia, pode se assimilar a um crime de guerra. “Tudo será feito para que os responsáveis dessa tragédia sejam levados à justiça”, disse ela. O Boeing fazia a rota entre Amsterdã e Kuala Lumpur no dia 17 de julho, com 298 pessoas a bordo. Kiev e as potências ocidentais apontam a responsabilidade dos rebeldes pró-russos e de seus aliados em Moscou.

Dez dias depois do acidente, fragmentos de corpos e pedaços da aeronave continuam espalhados pela região sob controle dos separatistas. Apesar de um frágil cessar-fogo ter sido estabelecido ao redor do área, os combates voltaram a se intensificar.

Equipes de policiais holandeses e australianos tentam chegar ao local do acidente. Ontem, eles desistiram da incursão por conta dos confrontos entre tropas ucranianas e rebeldes pró-russos, que aconteciam não só na estrada que leva à região, mas no próprio local do acidente, a cerca de 60 quilômetros de Donetsk, bastião da insurgência. A ministra australiana das Relações Exteriores, Julie Bishop, viajou a Kiev para discutir o assunto com as autoridades locais.

Desarmados, os policiais não estão encarregados da segurança do perímetro. Eles vão simplesmente observar o local em detalhes, uma etapa importante para a investigação, que deve durar entre cinco e sete dias.

Corte Europeia dos Direitos Humanos valida proibição da burca na França

A Corte Europeia dos Direitos Humanos pronunciou-se nesta terça-feira (1°) sobre a proibição do uso de véu islâmico integral na França.

A Corte Europeia dos Direitos Humanos pronunciou-se nesta terça-feira (1°) sobre a proibição do uso de véu islâmico integral na França.

Flickr| Creative Commons|RFI

A Corte Europeia dos Direitos Humanos validou nesta terça-feira (1°) a lei francesa de 2010 que proíbe “dissimular o rosto” no espaço público, sobretudo usando um véu islâmico integral, como a burca ou o niqab. Ao mesmo tempo, os juízes de Estrasburgo avaliaram que essa lei pode alimentar “estereótipos”.

O tribunal de Estrasburgo não acatou a queixa de uma francesa muçulmana de origem paquistanesa que denunciava a proibição do uso da burca no espaço público como uma violação de sua privacidade e de sua liberdade de religião.

A jurisdição do Conselho Europeu avalia que a lei francesa é “proporcional” ao objetivo pretendido quando se trata de preservar “o convívio social”, mas não aceita os argumentos do governo francês baseados na segurança ou na igualdade entre homens e mulheres. A decisão da corte, por uma maioria de 15 votos a 2, é definitiva.

A lei de 15 de outubro de 2010 prevê uma multa de 150 euros, o equivalente a 450 reais, para quem “dissimular o rosto” no espaço público. A multa pode ser acompanhada ou substituída por um curso de cidadania.

A legislação não visa especificamente as muçulmanas. Mas foi o aumento do uso do véu integral islâmico, cujas adeptas eram estimadas em cerca de duas mil mulheres em 2010, que levou a ministra da Justiça da época, Michèle Alliot-Marie, a defender o texto.

Estereótipos

Em sua decisão, a Corte Europeia aponta os argumentos preconceituosos em relação ao Islã que haviam surgido durante o debate sobre o tema na França e avalia que “um Estado que inicia um processo legislativo desse tipo corre o risco de contribuir para consolidar os estereótipos que afetam certas categorias de pessoas e de encorajar a expressão da intolerância”.

Em compensação, a corte elogia o fato “que essa proibição não se baseia explicitamente na conotação religiosa das roupas visadas, mas somente no fato que elas dissimulam o rosto”. Ela “não afeta a liberdade de usar no espaço público toda roupa ou elemento do vestuário – com ou sem conotação religiosa – que não esconda o rosto”, acrescenta o texto.

A questão do uso do véu integral agita atualmente vários Estados europeus. A Bélgica adotou em 2011 uma lei similar à da França, e o cantão suíço de Tessin fez o mesmo em setembro de 2013. Procedimentos legislativos para restringir o uso da burca e do niqab estão em andamento na Itália e na Holanda.

ONU alerta para casos de execuções extrajudiciais no Iraque e crescente vulnerabilidade de civis

Iraquianos deslocados que fugiram dos combates em Mossul esperam na fila para viajar para Erbil. Foto: ACNUR / R.Nuri

Iraquianos deslocados que fugiram dos combates em Mossul esperam na fila para viajar para Erbil. Foto: ACNUR / R.Nuri

A alta comissária da ONU para os direitos humanos, Navi Pillay, alertou nesta sexta-feira (13) para a deterioração dramática da situação no Iraque. A Organização recebeu relatos de execuções sumárias e extrajudiciais de militares, policiais e civis, e mostrou preocupação com o deslocamento massivo de cerca de meio milhão de pessoas provocado pela conquista das principais cidades do país pelo grupo armado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS).

“A extensão total de vítimas civis ainda não é conhecida”, disse a alta comissária, “mas relatos sugerem que centenares de pessoas podem ter sido mortas nos últimos dias, e estima-se que o número de feridos chegue a quase mil.”

A chefe de direitos humanos afirmou ter recebido relatos de que “combatentes do ISIS têm procurado ativamente e, em alguns casos, matado, soldados, policiais e civis, que eles associam com o governo”.

“Recebemos relatos de execuções sumárias de soldados do exército iraquiano durante a captura de Mossul, e de 17 civis em uma rua nessa cidade, no dia 11 de junho”, disse Pillay.

“Estou extremamente preocupada com a extrema vulnerabilidade de civis pegos no fogo cruzado, alvo de ataques diretos por grupos armados, ou presos em áreas sob o controle de ISIS e seus aliados”, disse Pillay. “E estou especialmente preocupado com o risco para os grupos vulneráveis, as minorias, mulheres e crianças.”

A chefe de direitos humanos afirmou ainda que “haverá uma fiscalização especial da conduta do ISIS, dado seu histórico bem documentado de cometer graves crimes contra a humanidade na Síria”.

Pillay também pediu para que as forças do governo exerçam a máxima moderação em suas operações militares em curso e tomem medidas para assegurar que os civis sejam protegidos da violência.

Ajuda humanitária no terreno

Para responder a escalada de violência no país, agências da ONU já se encontram nas áreas afetadas para prestar assistência para as centenas de milhares de pessoas que fogem do conflito.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e seus parceiros priorizaram a entrega de ajuda de emergência, incluindo vacinas para prevenir a propagação de doenças como o pólio ou sarampo.

Além disso, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) lançou uma operação inicial de emergência para fornecer assistência alimentar para 42 mil pessoas mais vulneráveis. A agência indicou, através de um comunicado, que já enviou equipes de emergência e logística para Erbil, na região do Curdistão, para averiguar as necessidades adicionais de alimentos nessa zona bem como a causa do descolamento de centenas de milhares de pessoas de Mossul para Erbil e regiões vizinhas nos últimos dois dias.

A Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) também intensificou seus esforços para fornecer abrigo, proteção e kits de emergência para as famílias deslocadas. Os preparativos para um campo de deslocados em Dohuk estão em andamento. Cerca de mil tendas do ACNUR já foram entregues, e o UNICEF e seus parceiros estão coordenando o abastecimento de água e serviços sanitários no acampamento.

Jolie diz que violações são arma de guerra contra civis

por Lusa, texto publicado por Isaltina PadrãoHoje

 
Angelina Jolie com o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, William Hague, num encontro para a condenação da violência sexual em zonas de conflito
Angelina Jolie com o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, William Hague, num encontro para a condenação da violência sexual em zonas de conflitoFotografia © REUTERS / Carl Court / piscina

A atriz norte-americana, Angelina Jolie, considerou hoje “um mito” que as violações sejam consequência inevitável dos conflitos, sublinhando que esta realidade “é uma arma de guerra dirigida à população civil”.

“Não tem nada que ver com o sexo, mas sim, com o poder”, afirmou a atriz, em Londres.

Angelina Jolie juntou-se esta manhã ao ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, William Hague, na condenação da violência sexual em zonas de conflito, um tema que será debatido numa cimeira que decorre entre hoje e sexta-feira, na capital britânica.

Os encontros e debates sobre violência sexual em zonas de conflito, que vão realizar-se ao longo desta semana, antecedem uma reunião de alto nível na próxima sexta-feira, na qual ministros de mais de cem países deverão firmar um protocolo internacional para acabar com as violações e abusos de mulheres como arma de guerra.

No âmbito deste protocolo, haverá um maior reforço a nível judicial e mais apoio às vítimas.

Na sessão de encerramento desta cimeira, na sexta-feira, marcarão presença o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon (este último por videoconferência).

Aquando da sessão inaugural deste encontro, o ministro dos Negócios Estrangeiros anunciou que o Reino Unido vai doar 6 milhões de libras (7,4 milhões de euros) para ajudar as vítimas de crimes sexuais, um montante que vai somar-se aos anteriores donativos de 140 mil libras (173 milhões de euros).

William Hague salientou que a violação de mulheres e crianças durante as guerras é “um dos maiores crimes em massa dos séculos XX e XXI” usados de forma “deliberada e sistemática” contra as populações civis em todos os continentes e em países como a Síria, o Congo, o Ruanda e a Colômbia.

Paquistanesa é apedrejada pela família por casar-se com homem que amava

27. Maio 2014

Por Mubasher Bukhari

LAHORE (Reuters) – Uma mulher de 25 anos foi apedrejada até a morte por sua família do lado de fora de um dos principais tribunais do Paquistão nesta terça-feira, em uma chamada sentença de morte por “honra”, cujo motivo foi ter se casado com o homem que amava, disse a polícia.

Farzana Iqbal estava esperando a abertura da Alta Corte na cidade de Lahore, leste do país, quando um grupo de dezenas de homens a atacou com tijolos, disse o policial Umer Cheema.

O pai dela, dois irmãos e um ex-noivo estavam entre os agressores, disse ele. Farzana sofreu severos danos na cabeça e morreu no hospital, segundo a polícia.

Todos os suspeitos, exceto o pai, escaparam. Ele admitiu ter matado a filha, de acordo com Cheema, e afirmou que era uma questão de honra. Muitas famílias paquistanesas consideram que uma mulher se casar com alguém de sua própria escolha traz desonra à família. 

Farzana havia sido noiva de um primo, mas casou-se com outro homem, disse o policial. Sua família registrou uma acusação de sequestro contra ele, mas Farzana havia ido à corte para argumentar que havia casado com ele por vontade própria. 

Cerca de 1.000 paquistanesas são mortas todos os anos por suas famílias em nome da honra, de acordo com o grupo de direitos Aurat Foundation. Mas o número real é provavelmente muitas vezes maior, considerando que a fundação apenas registra dados baseados em registros de jornais. O governo não compila estatísticas nacionais.

Reuters

Sudanesa condenada à morte deu à luz hoje na prisão

Diário de Notícias| Mariana Pereira, com agênciasHoje

 
Sudanesa condenada à morte deu à luz hoje na prisão

Mariam Yahya Ibrahim, a sudanesa condenada à morte por enforcamento por recusar renunciar à sua fé cristã, deu à luz na madrugada de hoje, numa prisão de Cartum.

Meriam Yehya Ibrahim, sudanesa ortodoxa de 27 anos, casada com um cristão, deu à luz uma menina na madrugada de hoje, numa prisão de Cartum, onde está presa com o seu filho de 20 meses. A justiça sudanesa, regida pela lei islâmica (sharia) desde 1983, acusou Meriam de adultério em agosto de 2013, por estar em união com um homem que não é muçulmano. Em fevereiro de 2014, foi acusada de apostasia por se ter afirmado cristã, renunciando à religião do seu país. A 15 de maio foi condenada a cem chicotadas por adultério e, por apostasia, à morte por enforcamento. Ao ouvir o veredito, a jovem manteve-se impassível, segundo relataram as agências. As embaixadas dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Holanda divulgaram um comunicado conjunto onde manifestaram a sua “profunda preocupação” com o caso e evocaram o “direito à liberdade de religião” perante o Sudão.

A Amnistia Internacional (AI) disse hoje que as condições da mãe e do bebé não são conhecidas, visto que o advogado de Meriam Ibrahim e o seu marido viram o acesso à prisão negado. “O Governo sudanês tem de garantir a sua segurança e a segurança das suas crianças, incluindo a recém-nascida”, disse ao britânicoThe Guardian Manar Idriss, da AI. Hoje, segundo o jornal britânico, o pedido de libertação de Ibrahim lançada pela AI tem o apoio de 700 mil pessoas em todo o mundo.

Ainda antes do nascimento de hoje, as autoridades sudanesas tinham já declarado que o cumprimento da sentença de morte de Ibrahim iria ser adiado por dois anos, para que ela possa cuidar da recém-nascida.

Direitos Humanos na Ucrânia se deterioram de forma alarmante, diz ONU

Vladimir Poutine em visita à Crimeia no último dia 9 de maio.

Vladimir Poutine em visita à Crimeia no último dia 9 de maio.

REUTERS/Maxim Shemetov

A situação dos Direitos Humanos no leste da Ucrânia se deteriorou de forma alarmante, segundo relatório divulgado nesta sexta-feira (16) pela ONU em Kiev. O documento relata inúmeros casos de assassinatos, torturas, sequestros e atos de intimidação, além de assédio sexual, cometidos principalmente por grupos antigoverno bem organizados e bem armados.

A Onu denuncia também assédio e perseguições visando a comunidade dos tártaros da Crimeia, minoria muçulmana da península recém-anexada pela Rússia. Moscou disse que o relatório da ONU tem uma gritante “falta de objetividade”. Os tártaros lembram neste domingo os 70 anos da deportação de seu povo promovida por Stalin, uma tragédia histórica que voltou ao debate público desde a anexação da Crimeia à Rússia em março.

Uma das principais etnias da Crimeia na época da Segunda Guerra Mundial, esse povo turcófono foi deportado em 1944 pelo regime soviético, que pretendia “limpar a península de elementos hostis”. “A versão oficial soviética acusava os tártaros de ter colaborado com os alemães. Eles eram apresentados como ‘pouco confiáveis'”, explica o historiador Elvedine Tchoubarov.

Vladimir Putin, por sua vez, afirmou nesta sexta que a questão dos tártaros da Crimeia está sendo instrumentalizada pela Ucrânia e prometeu uma ajuda financeira para esta minoria.

Ameaças americanas

Um representante do governo americano disse nesta quinta-feira (15) que os Estados Unidos não hesitarão em fazer “sangrar” a economia russa com novas sanções caso a Rússia tente impedir as eleições presidenciais ucranianas marcadas para o dia 25.

O americano, que não teve a identidade revelada, acompanhou o secretário de Estado John Kerry ontem em uma visita a Londres. Essa mesma fonte usou uma metáfora curiosa para descrever a relação do Ocidente com a Rússia. Ele diz que as sanções impostas até agora teriam sido “um bisturi e não um martelo”, mas que os Estados Unidos poderão causar um sangramento ainda maior na economia russa.

As ameaças ocidentais acontecem em um momento em que os enfrentamentos entre o exército ucraniano e os separatistas armados se multiplicam no leste do país. Os pró-russos tomaram ontem a prefeitura de um bairro da cidade de Antratsyt e o Banco Central Ucraniano foi obrigado a fechar seu escritório em Donetsk após diversas ameaças a servidores públicos. Também ontem, um navio de reconhecimento francês entrou no Mar Negro, reforçando a presença internacional na região.
 

Anistia Internacional lança campanha mundial contra tortura

A campanha mundial "Chega de tortura" foi lançada nesta terça-feira (13), pela Anistia Internacional.

A campanha mundial “Chega de tortura” foi lançada nesta terça-feira (13), pela Anistia Internacional.
 
Divulgação|RFI

A campanha Stop tortura, ou Chega de Tortura, foi lançada nesta terça-feira (13) pela ONG Anistia Internacional, sediada em Londres. A campanha vai durar dois anos e visa principalmente cinco países: México, Filipinas, Marrocos, Nigéria e Uzbequistão, onde os maus-tratos são generalizados. Mas a Anistia alerta que a prática também faz parte da vida na Ásia e é aplicada em uma escala industrial na Síria.

 

A ONG internacional de direitos humanos denuncia a tortura como crise global. Diz que a prática se expandiu, que a tortura foi banalizada pela guerra contra o terrorismo e glorificada por séries de TV como 24 horas e Homeland.

Nos últimos cinco anos, a Anistia Internacional registrou atos de tortura em 141 países. Um número assustador 30 anos após a adoção pela ONU da Convenção contra a Tortura. 79 dos países citados assinaram a Convenção.

Pesquisa mundial

Além disso, uma pesquisa mundial em 21 países indica que 44% dos entrevistados temem ser torturados em caso de detenção. Um resultado da sondagem alarmou a ONG: 36% dos ouvidos aceitam a tortura como algo às vezes necessário para obter informações para proteger a população.

A ONG, que venceu o prêmio Nobel da Paz em 1977 por sua luta contra a tortura, pede que os governos previnam os abusos facilitando o acesso médico e jurídico aos prisioneiros. A Anistia também reivindica, para acabar com a impunidade, melhores condições de inspeção dos centros de detenção e a multiplicação de inquéritos independentes, sempre que se suspeitar casos de tortura.
 

Corpo de Rubens Paiva foi jogado em rio, diz viúva

Antes de morrer, coronel Malhães confessou à esposa ter mentido à Comissão da Verdade

O DIA|JULIANA DAL PIVA
Antes de morrer, coronel Malhães confessou à esposa ter mentido em depoimento à Comissão Nacional da Verdade

Foto:  Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

Rio – Pouco antes de morrer, o coronel reformado do Exército Paulo Malhães confiou à mulher, Cristina, uma última revelação histórica. Ele admitiu à companheira dos últimos 25 anos que mentiu no depoimento prestado à Comissão Nacional da Verdade. Na ocasião, em março, ele negou que tivesse trabalhado na missão que ocultou definitivamente o cadáver do deputado federal cassado Rubens Paiva. Cinco dias antes, oDIA publicou uma entrevista em que o coronel assumiu ter recebido e concluído a missão dada a ele por oficiais do gabinete do então ministro do Exército Orlando Geisel, em 1973. Malhães disse a Cristina que os restos mortais de Paiva foram atirados em um rio.

À noite, depois do depoimento de quase três horas, os dois mal entraram na casa do sítio em Marapicu, Nova Iguaçu, e ela diz que não segurou a curiosidade sobre o assunto: “Aquilo que você disse sobre desenterrar o corpo do Rubens Paiva, era mentira ou verdade?”  E Malhães respondeu: “Era mentira. Eu fiz.”

Nas conversas íntimas do casal, Malhães não nomeava os guerrilheiros que torturou e matou. Em março, no entanto, ela conta que sentia no marido uma necessidade de desabafar sobre o caso. “A história do Rubens Paiva era a única que eu sabia. Ele falava recentemente e era um desabafar constante. Quando ele contou no depoimento aquela versão, eu estranhei. Só se fosse uma parte que eu não sabia porque ele já tinha me falado sobre isso antes. Ele não podia negar para mim. E o destino final do corpo foi um rio”, contou.

A viúva também disse que não entendia a atitude do marido em assumir a responsabilidade sozinho e não revelar os nomes de todos os oficiais e militares envolvidos na missão. Ao questioná-lo, ouviu do coronel que ele era honesto. “Eu perguntei a ele porque não dava os nomes de todos que tinham participado. Ele dizia que na época que trabalharam no Exército, eles (os colegas) eram leões e, quando acabou, se tornaram ratinhos. Acho que ele mudou a versão no depoimento por causa desses leões”, explicou ela.

Cristina diz que o marido não acreditava em represálias e que também achava possível que, no futuro, ele voltasse a esclarecer o caso. “Ele queria um tempo para a cabeça, mas acho que ele ia dizer a verdade em outro momento”, afirmou a viúva.

 

‘Foi um sufoco para achar’

No dia 19 de março, o coronel Malhães recebeu O DIA em sua casa, mesmo local onde foi assassinado há 12 dias, e contou que havia coordenado junto com também coronel reformado José Brandt Teixeira uma missão para desenterrar o corpo de Rubens Paiva em uma praia do Recreio dos Bandeirantes.

“Recebi a missão para resolver o problema, que não seria enterrar de novo. Procuramos até que se achou (o corpo), levou algum tempo. Foi um sufoco para achar (o corpo). Aí seguiu o destino normal”, disse, Malhães.

Rubens Paiva era deputado pelo Rio. Ele foi preso em 1971, torturado e morto. Seu corpo nunca foi achado

Foto:  Reprodução

Para localizar o corpo de Paiva, duas equipes trabalharam durante cerca de 15 dias na praia. Também participaram da ação os sargentos Jairo de Canaan Cony e Iracy Pedro Interaminense Corrêa. Apenas Cony está falecido.

Malhães admitiu na ocasião que sabia de quem era o corpo procurado. “Eu podia negar, dizer que não sabia, mas eu sabia quem era sim. Não sabia por que tinha morrido, nem quem matou. Mas sabia que ele era um deputado federal, que era correio de alguém”, contou.

Revelação da viúva constará no relatório final da CNV

Para a advogada Rosa Cardoso, membro da Comissão Nacional da Verdade, o esclarecimento prestado por Cristina Malhães é importante para o avanço no caso e também para o relatório final da CNV.

“É muito importante porque defaz a névoa que o coronel quis lançar à comissão, quando resolveu voltar atrás dizendo que não tinha cumprido a missão. Essa revelação ajudará o relatório final”, afirmou Rosa, que tomou o depoimento de Malhães.

Ex-coronel Paulo Malhães, que em março confessou ter sumido com o corpo do Rubens Paiva na época da ditadura, foi morto em casa

Foto:  José Pedro Monteiro / Agência O Dia

A advogada também considera que a afirmação de Cristina autêntica. “A declaração de Cristina, aparentemente, não pode ter nenhuma segunda intenção em relação ao fato. É uma declaração que transpira autencidade. Ela é uma pessoa que não tem interesse em distorcer fatos. Ela não teria porque inventar ou acusar ele de algo que não tenha acontecido”, avalia.

No dia 25 de abril, três criminosos invadiram a casa de Malhães. No fim da noite, Cristina encontrou o corpo do marido de bruços e com a cabeça em um travesseiro. Na semana passada, o caseiro do sítio admitiu envolvimento no assalto. O caso segue em investigação.

Calvário de Rubens Paiva

Prisão

Em 20 de março de 1971, Rubens Paiva foi preso e levado de sua casa por agentes armados da Aeronaútica (CISA) até o quartel da 3ª Zona Aérea

Morte

No mesmo dia em que foi preso, Paiva foi levado para o DOI-Codi, na rua Barão de Mesquita, onde foi torturado até a morte

Alto da Boa Vista 

Segundo Malhães, os militares do DOI-Codi enterram Paiva no Alto da Boa Vista, próximo a estrada. No mesmo local, também forjaram a versão de que Paiva foi resgatado por guerrilheiros quando era conduzido dentro de um fusca. Em janeiro, o general Raymundo Campos confessou a farsa à Comissão Estadual da Verdade

Praia do Recreio

Malhães disse ainda que no mesmo ano o corpo foi retirado do Alto da Boa Vista e enterrado em uma praia do Recreio. Em 1973, os restos mortais foram desenterrados e jogados em um rio não identificado

 

 

 

 

Meninas raptadas serão “vendidas e casadas à força”

por LusaHoje

 
Meninas raptadas serão "vendidas e casadas à força"
Fotografia © Reuters

O líder do grupo extremista islâmico Boko Haram reivindicou hoje o sequestro de mais de 200 raparigas em abril, no nordeste da Nigéria, e disse que elas vão ser tratadas como “escravas”, “vendidas” e “casadas” à força.

“Raptei as vossas raparigas”, afirmou Abubakar Shekau, num vídeo de 57 minutos obtido pela agência France Presse.

Duzentas e setenta e seis raparigas adolescentes foram raptadas a 14 de abril da escola que frequentavam em Chibok (nordeste), no estado de Borno. Segundo a polícia, 53 raparigas conseguiram fugir, mas 223 continuam sequestradas.