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Em Cannes, Walter Salles encontra jovens diretores do mundo

O diretor de cinema brasileiro, Walter Salles.

O diretor de cinema brasileiro, Walter Salles|Foto: Christine Ordioni
Leticia Constant

Criada pelo Instituto Francês, a Organização Internacional da Francofonia, o Festival de Cannes e o Mercado do Filme, a “Fábrica dos Cinemas do Mundo” convida todos os anos dez diretores, acompanhados por seus produtores, que estejam desenvolvendo seu primeiro ou segundo longa-metragem. Eles recebem um acompanhamento personalizado, aprendem a se posicionar no mercado e a desenvolver uma rede de contatos profissionais.

Neste ano de 2014 foram enviadas 125 candidaturas e foram selecionados dez projetos vindos da África do Sul, Argélia, Bangladesh, Brasil, Cuba, Síria, Venezuela, Geórgia, Laos e Senegal.

Notícias dos cinemas do mundo

“Participar deste evento é uma oportunidade única de receber notícias de cinematografias que conhecemos pouco. Se você entende o cinema como um instrumento de conhecimento do mundo, e eu acho que é isso que ele é, essa ‘Fábrica dos Cinemas do Mundo’ te possibilita receber essas notícias”, diz Walter Salles.

O diretor cita um debate muito inspirador que teve com os participantes sobre a realidade do cinema em cada um dos seus países; ele confessa que aprendeu muito sobre a situação da Sétima Arte em latitudes muito diferentes.

 

 
Walter Salles – cineasta

 
21/05/2014
 
 

“Não tinha ideia do que acontece no cinema em Bangladesh nem da situação no Marrocos, onde tem três salas de cinemas; na Argélia é a mesma coisa, e no Laos tem apenas uma sala”, observa Salles, lembrando que, no entanto, os cineastas inventam formas muito criativas de exibição, levando projetores e telas para multiplicar a experiência e permitir o acesso das pessoas aos filmes que estão realizando.

Fogo sagrado, o ponto comum

Sobre os temas dos enredos selecionados, Walter explica que a maioria fala de crise de identidade ou de busca de identidade. “Quase sempre, essa crise ou essa busca reflete algo mais amplo: o momento específico pelo qual passa um país ou uma cultura. Esta sobreposição desvenda não somente muito da história mas também daquele mundo específico”, diz.

“O outro ponto comum tem a ver com o que podemos chamar de ‘fogo sagrado’ que move cada um desses realizadores que, mesmo num momento tão difícil para a distribuição de cinema, ainda estão acreditando, estão habitados pelo desejo de propor esse reflexo de suas sociedades através de uma câmera. E é isso que deixa a gente bastante otimista”, reflete o diretor.

Brasil, cinema e identidade

O fato de o Brasil não estar presente na competição pela Palma de Ouro não significa um enfraquecimento da produção nacional, segundo Walter Salles. Ele lembra que no Festival de Berlim o país esteve muito bem representado com “Praia do Futuro”, de Karim Ainouz: “Na paralela de Berlim tinha diversos filmes brasileiros também e devemos voltar à competição em Veneza, mas é muito difícil saber se os filmes brasileiros deveriam ter sido escolhidos pois não vimos ainda os que foram selecionados e estariam competindo com eles”.

Walter considera que a cinematografia brasileira está renascendo depois de um longo momento em que a opção foi recuperar o público, o que transformou a comédia na tendência dominante, “mas esse gênero não viaja ou viaja pouco”.

Reconhecendo o mérito desta reconquista, Salles analisa que é preciso olhar além e voltar a produzir filmes de autor, filmes mais exigentes. Como exemplo, ele cita “Todos os Mortos”, co-dirigido por Caetano Gotardo e Marco Dutra, que representa o Brasil na “Fábrica” deste 67° Festival de Cannes: “Este filme pode estar neste festival daqui a dois anos, mas para isso é preciso que ele possa existir no Brasil, que possa ser financiado. Acho que estamos começando a fazer isso”.