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Massacre em Israel é “injustificável e solução deve ser imposta”, diz chanceler francês

O exército de Israel anunciou um cessar-fogo de 7 horas nos ataques da Faixa de Gaza que sofre com falta de abastecimento de água.

O exército de Israel anunciou um cessar-fogo de 7 horas nos ataques da Faixa de Gaza que sofre com falta de abastecimento de água.

REUTERS/Finbarr O’Reilly
RFI

O direito de Israel à segurança não justifica o massacre de civis em Gaza, disse nesta segunda-feira (4) o ministro das Relações Exteriores francês, Laurent Fabius. Segundo ele, uma “solução política” entre os israelenses e os palestinos “deve ser imposta” pela comunidade internacional.

 

A França muda o tom em relação à ofensiva israelense em Gaza, depois de se abster no voto da resolução que condena a operação, aprovada no Conselho de Direitos Humanos da ONU em 23 de julho. O chanceler Laurent Fabius criticou duramente a operação “Limite Protetor”, que já deixou mais 1800 mortos, a maioria civis.

Em um comunicado, o ministro francês lembra que “a tradição de amizade entre Israel e a França é antiga e o direito de Israel à segurança é total, mas esse direito não justifica que crianças sejam assassinadas e civis massacrados”, disse o ministro, que citou o bombardeio de uma escola em Rafah, na Faixa de Gaza.

“O Hamas tem responsabilidade no processo macabro que beneficia os extremistas, mas isso também não justifica o que o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon, qualificou de crimes”, disse Fabius. Neste domingo, o respresentante da ONU declarou que o ataque da escola a Rafah é “uma nova violação flagrante do direito humanitário internacional.”

O ataque deixou pelo menos dez palestinos mortos. “Quantos mortos serão necessários para que seja colocado um fim ao que podemos chamar de matança em Gaza?”, diz o ministro. Diante da situação, ele propõe a instauração do cessar-fogo proposto pelo Egito e preconiza uma solução política baseada em dois estados imposta pela comunidade internacional.

“Uma solução política é indispensável, e acredito que isso deva ser imposto, já que as duas partes infelizmente se mostraram incapazes em concluir a negociação”, diz. “Cessar-fogo, imposição da solução de dois Estados e segurança de Israel, não existe outro caminho.”

Bombardeios continuam, apesar de trégua de sete

Uma menina palestina de oito anos morreu e 30 ficaram feridas hoje por um tiro que atingiu a região oeste da cidade de Gaza, após a entrada em vigor de uma trégua declarada unilateralmente por Israel.

Os serviços de resgate palestinos acusam a aviação israelense de ter atacado uma casa do campo de refugiados de Chati. A trégua entrou em vigor às 10h locais e deve durar sete horas.

O objetivo dessa trégua é facilitar a entrada de ajuda humanitária e deixar que palestinos retornem às suas casas. Mas esse cessar-fogo é parcial e bastante frágil. A região de Rafah, no sul de Gaza, não é beneficiada por essa pausa nos combates.

O chefe das operações militares israelenses na Cisjordânia ocupada e em Gaza, Yoav Mordechai, informou que se a trégua for violada pelo Hamas, o Exército responderá com disparos contra a origem dos ataques palestinos.

O Hamas, acusado de intransigência por Israel, tenta articular uma solução para o conflito. Hoje, membros do movimento islâmico se reúnem no Cairo com os membros da Autoridade Palestina

Marine Le Pen venceria o 1° turno nas eleições presidenciais, diz pesquisa

A presidenta do FN lidera pesquisa diz revista francesa Mariane.

A presidenta do FN lidera pesquisa diz revista francesa Mariane.

REUTERS/Vincent Kessler
RFI

A presidente do partido francês de extrema-direita Frente Nacional, Marine Le Pen, venceria o primeiro turno das eleições presidenciais de 2017 se os franceses fossem às urnas no próximo domingo. Este é o resultado de uma pesquisa publicada nesta quinta-feira (31), encomendada pela revista Marianne ao Instituto francês Ifop.

 

Os resultados mostram que a candidata de extrema-direita obteria 26% dos votos se os candidatos fossem o presidente francês François Hollande e o premiê Manuel Valls. Ela disputaria o segundo turno com Nicolas Sarkozy, que teria 25% dos votos. Os candidatos propostos foram os mesmos de 2012, com exceção da representante do Partido Verde, Eva Joly. Hollande e Valls teriam apenas 17%.

Caso o candidato do Partido Socialista fosse o ministro da Economia, Arnaud Montebourg, a candidata de extrema-direita teria um desempenho ainda melhor, de 27%. Sarkozy obteria 26%.

A pesquisa revela uma maior aceitação popular da candidata de extrema-direita, que se diz abertamente contra a imigração, defende o fim do euro e faz vivas críticas à União Europeia.

Em 2002, seu pai, Jean Marie Le Pen, chegou a disputar o segundo turno contra o ex-presidente Jacques Chirac. Ele acabou sendo eleito depois de uma grande mobilização popular e política para evitar a chegada da Frente Nacional ao poder. Mas o choque dessas eleições para a sociedade francesa parece ter ficado para trás.

A sondagem também evidencia a rejeição pelo atual governo socialista e mostra que o ex-presidente Nicolas Sarkozy, envolvido em diversos casos de corrupção, ainda é uma opção para os eleitores. Em 1° de julho,suspeito de tráfico de influência, ele chegou a ser detido para interrogatório no inquérito que apura o financiamento ilegal de sua campanha em 2007.

O Instituto Ifop lembra que os dados refletem apenas “uma tendência momentânea” e não permitem fazer projeções com três anos de avanço.

Pesquisa ouviu mil eleitores

A pesquisa foi realizada entre os dias 21 e 22 de julho com 947 pessoas inscritas nas listas eleitorais francesas. A pergunta feita aos entrevistados foi a seguinte : ‘’se o primeiro turno das eleições de 2017 fosse no próximo domingo, para qual candidato você votaria ?’’ A margem de erro é entre 1,4 e 2,8%.

Com Hollande ou Montebourg no páreo, o resultado seria quase o mesmo para os demais candidatos : o representante do partido centrista MoDem, François Bayrou, teria entre 12 e 13%, a Frente Esquerda de Jean-Luc Mélenchon teria entre 11 e 12%, a coligação dos ecologistas obteria 3% e o restante dos partidos cerca de 1%.

Uma pesquisa anterior, realizada em abril pelo mesmo Instituto, já havia mostrado que Marine Le Pen chegaria ao segundo turno, mas perderia para Nicolas Sarkozy. 

Prefeitura de Paris proíbe protesto pró-palestinos previsto para sábado

Manifestação autorizada do Coletivo Nacional pela Paz Justa e Durável entre Israelenses e Palestinos, realizada na última quarta-feira (23), em Paris.

Manifestação autorizada do Coletivo Nacional pela Paz Justa e Durável entre Israelenses e Palestinos, realizada na última quarta-feira (23), em Paris.

REUTERS/Benoit Tessier
RFI

Depois da proibição de duas manifestações, no último fim de semana, que acabaram sendo realizadas e terminaram em vandalismo e atos antissemitas, a prefeitura de Paris decidiu nesta sexta-feira (25) não autorizar um ato contra a intervenção militar israelense previsto para este sábado. Os organizadores afirmam que pretendem recorrer da decisão.

A prefeitura da capital francesa julga insuficientes as garantias de segurança para o ato previsto para este sábado (26). Mas os organizadores acreditam que conseguirão derrubar a proibição no tribunal administrativo de Paris até a noite desta sexta-feira.

De acordo com Youssef Boussoumah, presidente do Parti des Indigènes de la Repúblique (PIR), uma das organizações responsáveis pela manifestação, o percurso da marcha era “perfeitamente seguro” e havia sido analisado pela polícia. O evento estava previsto para começar às 15h na praça da República até a praça da Nação, no leste de Paris.

Boussoumah acredita que a decisão é política e não tem relação com a polícia. “Nós temos um Estado que tem medo de sua juventude”, avalia.

No último fim de semana, uma manifestação não autorizada no bairro de Barbès, norte da capital, terminou em pancadaria depois que a polícia tentou dissipar os manifestantes. Na última quarta-feira (23), o Coletivo Nacional pela Paz Justa e Durável entre Israelenses e Palestinos realizou uma marcha no sul de Paris e não registrou violências.

Agressão

Um jovem judeu prestou queixa na polícia depois de ser agredido ontem por uma dezena de pessoas diante de sua casa, em Bobigny, no subúrbio de Paris. O homem, de 19 anos, é membro da Liga da Defesa Judaica (LDJ), grupo radical, cujos integrantes tentaram invadir a primeira manifestação pró-palestinos realizada em Paris, no dia 13 de julho.

Ministro francês diz que atos antissemitas em manifestações pró-palestinas serão punidos

Manifestação pró-palestina será realizada nesta quarta-feira (23) em Paris.

Manifestação pró-palestina será realizada nesta quarta-feira (23) em Paris.

REUTERS/Philippe Laurenson
RFI

O ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, afirmou nesta quarta-feira (23) que “provocadores” em manifestações pró-palestinas serão castigados. “Não vamos aceitar que se grite ‘morte aos judeus’ em uma marcha. Se isso acontecer hoje, os manifestantes serão punidos”, sublinhou. A capital francesa abriga nesta noite a primeira marcha autorizada, após a proibição dos protestos no último fim de semana.

 

Cazeneuve reconheceu que as dezenas de manifestações autorizadas foram realizadas de forma pacífica em todo o país. Apenas dois protestos, proibidos pelo governo, terminaram em atos de vandalismo e agressões antissemitas, em Paris, no último sábado (19), e em Sarcelles, no último domingo (20).

Interrogado sobre as provocações dos integrantes da Liga de Defesa Judaica (LDJ), que se juntaram à primeira manifestação pró-palestinos parisiense, no dia 13 de julho, o ministro classificou os atos como “repreensíveis”. A invasão do grupo judaico teria incitado a revolta de manifestantes pró-palestinos, que, em seguida, foram protestar diante de uma sinagoga.

O presidente francês François Hollande reafirmou hoje que a responsabilidade do Estado “é de fazer respeitar a ordem republicana”. Criticado por uma parte da opinião pública por proibir as manifestações e agravar a tensão entre judeus e muçulmanos, o chefe de Estado é repetiu que o governo não vai aceitar “slogans que exprimam o ódio”.

Manifestações em toda a França

Várias manifestações em apoio aos palestinos estão programadas para esta quarta-feira (23) na França, em Paris, Lyon, Lille ou Toulouse. O governo francês autorizou uma passeata na capital, organizada pelo Coletivo Nacional pela Paz Justa e Durável entre Israelenses e Palestinos, apesar das agressões ocorridas no último fim de semana contra judeus em atos que estavam proibidos.

O trajeto da manifestação parisiense, a partir das 18h30 locais (13h30 pelo horário de Brasília), foi alterado para evitar passar em frente a sinagogas. A polícia francesa contará com o apoio de seguranças treinados por Israel para proteger os judeus de agressões. Não se trata de uma milícia, mas de voluntários não armados de uma organização judaica francesa, treinados em lutas marciais.

O último ato organizado pelo Coletivo, há uma semana, reuniu 900 pessoas em Invalides, no centro da capital. Os policiais prevêem que o número de participantes será maior hoje.

Novo antissemitismo

Em editorial, o jornal Le Monde aponta para o surgimento de um novo fenômeno na França: “o novo antissemitismo”. Em sua edição de hoje, o diário lembra que a maioria das manifestações realizadas em solo francês foram pacíficas, mas que as agressões antissemitas em três delas trouxeram a tona slogans “intoleráveis” como “Morte aos judeus” ou “Hitler tinha razão”.

Para Le Monde, há 15 ou 20 anos, esse tipo de violência erra inadmissível, mas atualmente, ela não é “excepcional”. “É o novo antissemitismo banalizado, normalizado, geralmente expressado por uma parte da população muçulmana ou por seguidores de extrema direita”, publica.

O jornal acredita que é compreensível que o conflito israelo-palestino sensibilize particularmente os muçulmanos e os judeus franceses, suscitando uma solidariedade natural. Mas que “essa maneira mecânica de se alinhar sem nuances sobre o conflito” mostra que o “antissionismo nada mais é que a face escondida do antissemitismo”.

Franceses a favor da proibição

Uma pesquisa divulgada hoje pelo Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop) para o jornal Le Figaro, aponta que 62% dos franceses são a favor da proibição das manifestações. Para o público entrevistado, os protestos geram atos violentos.

Valls diz que violência de militantes pró-palestinos justifica proibição de manifestação

Policiais tentaram acabar com a manifestação em apoio ao povo palestino e revoltaram militantes neste sábado (19), em Paris.

Policiais tentaram acabar com a manifestação em apoio ao povo palestino e revoltaram militantes neste sábado (19), em Paris.

REUTERS/Philippe Wojazer
RFI

O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, declarou na manhã deste domingo (20) que as violências de alguns manifestantes ontem, durante o ato em favor pró-palestinos em Paris, justificam a proibição do protesto pelas autoridades. O chefe do governo denunciou o nascimento de um novo tipo de antissemitismo que se espalha “na internet, nas redes sociais e nos bairros populares através de jovens sem consciência histórica”.

 

Em uma cerimônia que lembrou o aniversário de 72 anos de crimes antissemitas do Estado francês durante a Segunda Guerra Mundial, Valls apoiou hoje a decisão da prefeitura parisiense e do ministério do Interior que proibiram a manifestação em defesa do povo palestino ontem e resultaram em confrontos entre militantes e policiais. No último domingo (13), um ato reuniu milhares de pessoas no norte de Paris e terminou com violências diante de duas sinagogas da capital.

Mesmo sob proibição, os militantes realizaram ontem a manifestação pró-palestinos e uma multidão tomou as principais ruas do bairro de Barbès, no norte de Paris. O ato manteve seu clima pacífico até a chegada dos policiais, que tentaram acabar com o protesto. Revoltados, alguns manifestantes atiraram pedras e garrafas contra as forças de segurança, que respondeu com bombas de gás lacrimogênio, transformando o norte da capital em cenário de guerrilha urbana. Trinta e três militantes foram presos.

“O que aconteceu ontem em Paris foram excessos inaceitáveis, o que justifica ainda mais a escolha corajosa do ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, de proibir a manifestação. A França não deixará os provocadores alimentarem qualquer conflito entre comunidades”, declarou o primeiro-ministro.

Muitos partidos acusam o governo francês de incitar as tensões entre as comunidades árabes e judias de Paris com a proibição da manifestação pró-palestinos. Uma das diretoras do único partido político a manter sua participação no ato de ontem, o Novo Partido Anticapitalista (NPA), Sandra Demarcq, julgou “ilegítima e escandalosa” a decisão do ministro do Interior. “Temos direito de expressar a nossa solidariedade ao povo palestino”, declarou.

A proibição da manifestação foi uma decisão inédita na Europa. Em várias outras cidades francesas e europeias, milhares saíram às ruas para apoiar os palestinos da Faixa de Gaza e pedir o fim dos ataques israelenses. Com exceção de Paris, os atos realizados em toda a Europa não registraram violências.

França, Inglaterra, Alemanha e EUA vão discutir cessar-fogo em Gaza

Fumaça se eleva acima da cidade de Gaza após ataque aéreo israelense neste sábado (12).

Fumaça se eleva acima da cidade de Gaza após ataque aéreo israelense neste sábado (12).

REUTERS/Ahmed Zakot
RFI

O ministro britânico das Relações Exteriores, William Hague, anunciou neste sábado (12) que discutirá a possibilidade de um cessar-fogo na Faixa de Gaza com os chanceleres norte-americano, francês e alemão, durante a reunião sobre o programa nuclear iraniano neste domingo em Viena. A ofensiva militar israelense contra o território palestino já deixou em cinco dias ao menos 127 mortos.

 

“Precisamos de uma ação internacional urgente e conjunta a fim de estabelecer um cessar-fogo, como em 2012. Vou falar sobre isso com John Kerry, Laurent Fabius e Frank-Walter Steinmeier amanhã em Viena”, declarou o chefe da diplomacia britânica em um comunicado.

William Hague acrescentou que insistiu na necessidade de uma redução imediata da violência e do restabelecimento do cessar-fogo instaurado em novembro de 2012 durante suas conversas telefônicas deste sábado com o chanceler israelense, Avigdor Lieberman, e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas.

“Também expressei nossa profunda preocupação com o número de vítimas civis e o imperativo, para os dois lados, de evitar novas perdas de vidas inocentes”, acrescentou o ministro.

De manhã, William Hague já havia se declarado “extremamente preocupado” em sua conta no Twitter. Essa foi a primeira reação oficial de Londres desde o apoio firme oferecido a Israel pelo primeiro-ministro, David Cameron, na quarta-feira, um dia depois do início da ofensiva contra Gaza que visa acabar com os tiros de foguetes realizados por combantentes palestinos.

Vítimas civis

Desde então, o exército israelense multiplicou os ataques aéreos contra a Faixa de Gaza, deixando ao menos 127 mortos e 940 feridos, em sua maioria civis, segundo os serviços de saúde palestinos.

Ao mesmo tempo, o exército israelense identificou 564 foguetes lançados contra Israel. Cerca de 140 deles foram destruídos em pleno voo pelo sistema de defesa “Domo de Ferro”. Esses tiros deixaram cerca de dez feridos, mas nenhum morto.

Em novembro de 2012, uma operação militar israelense que também tinha como objetivo acabar com os lançamentos de foguetes a partir de Gaza deixou 177 mortos palestinos e 6 israelenses.

Na sexta-feira à noite, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que resistirá a toda intervenção internacional com vistas a proclamar um cessar-fogo.

Pai de jovem francês que abandonou a Al Qaeda conta o drama da família

Abderazak e seu filho na Turquia, logo depois de ter passado a fronteira com a Síria, 24 de junho de 2014.

Abderazak e seu filho na Turquia, logo depois de ter passado a fronteira com a Síria, 24 de junho de 2014|DR

Um jovem francês de 17 anos, que havia partido para a Síria para se juntar a um grupo ligado à Al Qaeda, voltou à França recentemente e foi preso no aeroporto por associação ao terrorismo e homicídio doloso. Em entrevista exclusiva à Rádio França Internacional, o pai do jovem conta o drama e relança a discussão sobre o recrutamento mundial de jovens por grupos fundamentalistas.

Com a colaboração de Rossane Lemos

No final do ano passado, um jovem francês de Nice decidiu fugir de casa, com o irmão de 23 anos, para se alistar à Frente al-Nosra, ligada à organização fundamentalista islâmica Al Qaeda, na Síria.

O pai dos jovens, Abderazak Cherif, demorou seis meses para convencer o filho mais novo a abandonar a organização e voltar para casa. Eles conversavam pelo Facebook. Na entrevista à RFI, Cherif, que é muçulmano, contou que explicava ao filho que a luta da Al Qaeda não era nem religiosa, nem pacífica. “Eu conheço a religião muçulmana e eu nunca parei de dizer ao meu filho que isso que eles (Al Qaeda) fazem não tem nada a ver com religião. O islã é a paz. E nesse caso há uma batalha de demônios”, critica Cherif.

Baleado no ombro, o jovem decidiu voltar para a França. O pai do rapaz reuniu os poucos recursos financeiros que tinha e embarcou para a Turquia. Lá, ele reencontrou o filho, que conseguiu fugir correndo durante a noite pela fronteira do país com a Síria.

Tiranos ou vítimas?

Ao desembarcar no aeroporto de Nice, o jovem foi detido pela justiça antiterrorista francesa. Pesa sobre ele a acusação de homicídio doloso e associação com grupos terroristas. Segundo uma testemunha, ele teria executado um homem na Síria.

O pai do rapaz se diz chocado com a prisão. “Um menor precisa de ajuda. Acho normal que o interroguem para ter informações sobre as razões do engajamento do meu filho, quem o ajudou a partir, mas eu não compreendo o terem prendido. Precisamos realmente nos questionar: esses jovens são tiranos ou vítimas?”

A história do garoto e o drama da família do sul da França incitam a discussão sobre muitos jovens que são recrutados em todo mundo pela Al Qaeda. Eles passam por treinamentos paramilitares e são convocados para combates e atentados.

Para o governo francês, eles participam de grupos terroristas e por isso são criminosos. Para a família do rapaz, eles são jovens inexperientes que acreditaram numa utopia religiosa e precisam de ajuda. “O coitado estava tão iludido que ele realmente achou que poderia ajudar essas pobres pessoas na Síria”, completa o pai do jovem.

Indiciamento de Sarkozy é destaque na imprensa europeia

Capa dos jornais Aujourd'hui en France, Liberation, Le Figaro, El Pais, The Gardian, Il Corriere della Sera, La Reppublica, O Público desta terça-feira, 02 de julho de 2014

Capa dos jornais Aujourd’hui en France, Liberation, Le Figaro, El Pais, The Gardian, Il Corriere della Sera, La Reppublica, O Público desta terça-feira, 02 de julho de 2014|RFI

Os problemas do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy com a Justiça estão nas manchetes dos jornais franceses desta quarta-feira (2) e também ganharam destaque na imprensa europeia. Todos enfatizam que o indiciamento do ex-presidente pode comprometer seus planos de voltar à vida política francesa.

“Ele pode voltar?”, pergunta a manchete de Libération. Em seu editorial, o jornal progressista afirma que a série de problemas com a justiça na qual Sarkozy foi implicado nos últimos meses coloca em evidência uma prática política baseada em manipulações, arranjos, desvio das regras, “e desprezo pelas leis”.

Libération acusa o ex-presidente de ter uma “ética política duvidosa”. “Mesmo se o ex-chefe de Estado nunca fez da moral a primeira virtude de sua ação, ele não pode desprezar certos valores da nossa democracia. Se ele ainda deseja voltar à política e mesmo reconquistar o poder, Nicolas Sarkozy terá que assumir diante dos franceses o que as investigações revelaram”, conclui o diário.

“Sarkozy: a onda de choque” é a manchete de Le Figaro. Em seu editorial, o jornal conservador insinua que o ex-presidente não é tratado pela justiça como um cidadão comum. Segundo Le Figaro, a privacidade, a presunção de inocência e o direito de defesa de Sarkozy não foram respeitados. O diário lembra que, quando era presidente, Sarkozy queria suprimir a função de juiz de instrução, o que lhe valeu a inimizade da categoria.

Os dois jornais não levaram em conta o indiciamento do ex-presidente, que aconteceu somente na madrugada aqui na França. Em seu site, o jornal popular Le Parisien promove uma enquete entre seus leitores. “Você ficou chocado com o indiciamento de Sarkozy?”, é a pergunta do dia. O diário qualifica a medida de “espetacular”.

Repercussão na Europa

A notícia ganhou grande destaque em toda a imprensa europeia. O britânico The Guardianavalia que o indiciamento de Sarkozy é um grande golpe em sua esperança de voltar ao palácio do Eliseu em 2017.

O espanhol El País aponta que a velocidade dos eventos “surpreendeu todas as forças políticas” francesas, que pedem confiança na justiça. Em um artigo opinativo muito crítico contra Sarkozy, outro jornal espanhol, El Mundo, afirma que o ex-presidente foi pego em flagrante com seus próprios métodos. “Ele foi ouvido, exatamente como fazia com sua rede de espionagem sob medida”.

O português O Público lembra que esse caso provoca grande comoção porque a instituição de presidente na França “tem especial prestigío” e goza de uma forte proteção.

O jornal italiano La Reppublica explica a seus leitores que o delito de “tráfico de influência” é típico do direito francês, onde foi introduzido já no final do século 19. O conceito não faz parte da tradição italiana, que só o adotou em 2012 para se conformar a convenções internacionais da ONU e do Conselho Europeu.

“Não há dúvidas, os juízes insistem em perseguir Sarkozy”, comenta outro diário italiano, Il Corriere della Sera, mais à direita.

Polícia francesa expulsa migrantes acampados em Calais

Captura vídeo do Campo de imigrantes na cidade de Calais, no norte da França que deve ser demontado pela polícia.

Captura vídeo do Campo de imigrantes na cidade de Calais, no norte da França que deve ser demontado pela polícia|france3.fr|RFI

A polícia francesa expulsou na manhã desta quarta-feira (2) 320 migrantes acampados ilegalmente na cidade de Calais, à espera de uma oportunidade para atravessar o Canal da Mancha e chegar à Inglaterra. Segundo o prefeito Denis Robin, a cidade executou uma decisão da Justiça.

Os 250 migrantes que deixaram o local estavam no principal acampamento, situado em uma área perto da zona portuária, onde são distribuídas refeições. Eles foram surpreendidos pelos policiais quando faziam fila para o café da manhã.

Segundo o prefeito da cidade, os migrantes serão ouvidos pela Justiça e a situação de cada um deles será analisada individualmente. Três militantes da ONG No Border, em português Sem Fronteiras, que trabalhavam no local, também foram detidos. Entre os migrantes expulsos estavam vários menores, de acordo com as autoridades francesas.

No total, 60 deles serão entregues para assistentes sociais. Segundo testemunhas, diversos policiais participaram da operação, que começou às 6h no horário local. “Estávamos dentro do local, os policiais chegaram, bloquearam todas as saídas, usaram gás lacrimogêneo e impediram as pessoas de escapar”, disse uma das trinta voluntárias presentes.

De acordo com ela, muitas pessoas dormiam no momento das prisões. Todos os acessos ao acampamento foram bloqueados pelos carros de polícia. Desde o final de maio, centenas de migrantes estão instalados no local. A maior parte deles, que tentava ir para a Grã-Bretanha, é originária do Afeganistão e da Síria. Eles são originários de outros três campos evacuados onde moravam cerca de 650 pessoas.

No dia 18 de junho, o prefeito de Pas de Calais disse que o pedido de asilo dos migrantes seria avaliado com « urgência. » Durante os cinco primeiros meses do ano, cerca de 3 mil clandestinos foram interceptados em Calais, contra 300 no mesmo período em 2013. 

Indiciado por corrupção, Sarkozy vai se explicar na televisão

O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy em sua casa em Paris nesta quarta-feira (2).

O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy em sua casa em Paris nesta quarta-feira (2)|REUTERS/Gonzalo Fuentes|RFI

Indiciado na madrugada desta quarta-feira (2) por corrupção ativa e citado em outras investigações judiciárias, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy vai conceder esta noite sua primeira entrevista desde que deixou o palácio do Eliseu, em 2012. Seus aliados dos partidos de direita afirmam que Sarkozy é injustamente perseguido pela Justiça, enquanto o governo socialista se limita a lembrar os princípios de “independência da Justiça” e “presunção de inocência”.

A entrevista de Nicolas Sarkozy será transmitida ao vivo às 20h, no horário local, pela rádio Europe 1 e pela TF1, o principal canal de televisão francês. O ex-presidente foi indiciado em meio a boatos de que estaria se preparando para voltar à política.

De acordo com os rumores, Sarkozy tinha a intenção de assumir a liderança do partido de direita UMP após as férias de verão na França e provavelmente preparar sua candidatura à presidência em 2017.

Depois de sua derrota contra o socialista François Hollande em 2012, Nicolas Sarkozy, de 59 anos, procurava nos últimos meses assumir o papel de “salvador da pátria”, aproveitando-se da queda da popularidade do atual presidente.

Mas após cerca de 15 horas detido para interrogatório – foi a primeira vez que isso aconteceu com um ex-chefe de Estado na França -, Nicolas Sarkozy foi indiciado por corrupção ativa, tráfico de influência e violação do segredo profissional, o que pode comprometer seus planos de retornar à vida pública.

Reações

O presidente da França, François Hollande, lembrou no final do Conselho dos Ministros desta quarta-feira os princípios de “independência da justiça” e “presunção de inocência”, segundo o porta-voz do governo, Stéphane Le Foll. Já o primeiro-ministro, Manuel Valls, declarou que as acusações contra Nicolas Sarkozy são “graves”.

Alguns partidários do ex-presidente denunciaram “uma perseguição totalmente desproporcional” e questionaram a imparcialidade de uma das juízas encarregadas do processo. Claire Thépaut “alimenta sentimentos de ódio” em relação a Nicolas Sarkozy”, segundo o prefeito de Nice (sudeste da França), Christian Estrosi, do partido UMP. A juíza integrou o sindicato da magistratura, de orientação progressista.

Em resposta, o secretário-geral do sindicato, Eric Bocciarelli, afirmou que a questão não é pertencer ou não a um sindicato, mas sim ser imparcial no exercício das suas funções. “Cada vez que uma pessoa pública é acusada, temos uma reação desproporcional contra os juízes e a Justiça”, lamentou ele, que julga o fenômeno “inquietante”.

Os principais líderes da direita francesa preferiram ser prudentes. O ex-primeiro-ministro François Fillon julga “urgente que tudo seja esclarecido”. Alain Juppé, também apontado como possível candidato à presidência em 2007, disse desejar que a “inocência” de Nicolas Sarkozy seja demonstrada pela Justiça.

Jean-François Copé, o presidente do partido UMP que teve de deixar o cargo devido a um escândalo de superfaturamento de comícios e notas frias, manifestou seu “apoio” a Sarkozy e criticou aqueles que fazem “tudo” para impedir o retorno do ex-chefe de Estado. A eleição para escolher o novo presidente do partido, principal força de direita na França, está marcada para 29 de novembro.

Gilberto Collard, deputado da Frente Nacional, partido de extrema-direita que foi o mais votado nas eleições europeias de maio, declarou que o ex-presidente “ficou definitivamente desacreditado com esses escândalos”. Em um ano, a popularidade de Nicolas Sarkozy caiu 16 pontos junto aos franceses de direita, passando de 66% para 50%.

Escutas telefônicas

Essa é a segunda vez que o ex-presidente é indiciado. A primeira foi no chamado caso Bettencourt, ligado a um suposto financiamento ilegal de sua campanha eleitoral de 2007, mas a Justiça arquivou a denúncia por falta de provas.

A investigação que levou a esse segundo indiciamento foi aberta em fevereiro, baseada em escutas telefônicas visando o ex-presidente e seus próximos.

“Eu não compreendo, não falo de perseguição mas pode perfeitamente se tratar de um erro de apreciação dos juízes, isso já aconteceu no passado”, disse o ex-magistrado e atual deputado do partido UMP George Fenech, citando o caso Bettencourt.

As suspeitas apareceram durante uma investigação sobre acusações de financiamento líbio da campanha eleitoral de 2007 de Sarkozy, levando a Justiça a colocar dois telefones usados pelo ex-chefe de Estado sob escuta entre 3 e 19 de setembro do ano passado.

Essas escutas teriam revelado que Sarkozy e seu advogado estavam bem informados sobre o processo em andamento em segunda instância sobre as suspeitas de abuso de fraqueza em detrimento da bilionária Liliane Bettencourt, que teria contribuído para o financiamento da campanha de 2007.

Os juízes agora tentam descobrir se Nicolas Sarkozy tentou facilitar uma promoção de Gibert Azibert para um cargo em Mônaco em troca de informações sobre o processo. Magistrado de alto escalão, Azibert também foi indiciado, assim como um outro magistrado e o advogado de Sarkozy, Thierry Herzog.