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Memórias da infância soviética

3/05/2014 Elena Revínskaia, especial para Gazeta Russa
Lembranças de uma época em que todas as crianças eram treinadas para se tornarem bons comunistas.
Memórias da infância soviética
Antes de se tornarem comunistas, crianças da URSS passavam por várias etapas Foto: Tatiana Korablinova

Dizem que a infância é um dos melhores momentos da nossa vida, um período sem preocupações e problemas. Isto é, quando você não tem que alimentar sua família, e pode simplesmente jogar com seus amigos, comer, dormir e curtir a passagem do tempo. Quanto daria para voltar a esse tempo despreocupado da nossa vida!

Algum tempo atrás eu compartilhei com meus leitores as minhas memórias de infância durante a época soviética. Sem querer, o meu artigo acabou sendo tomado de forma negativa, dando a impressão enganosa de que a nossa infância era difícil e infeliz. Foi difícil, mas definitivamente não foi infeliz. Além disso, acredito que a nossa infância foi mais gratificante do que a das crianças de hoje.

Provavelmente isso está mais relacionado àquela época do que ao regime político. Não tínhamos preocupações nem medo. Passávamos o dia inteiro brincando na rua, andando de bicicleta, skate ou simplesmente andando por aí. Não havia telefones celulares nem seguranças, e tínhamos permissão de  ir aonde quiséssemos, sem dizer aos pais.

Agora de volta aos soviéticos. O Partido Comunista treinava seus seguidores desde muito cedo. A partir da 1ª série, as crianças recebiam o título de “oktiabrionok”, isto é, “criança do Outubro Vermelho”. Ganhávamos um broche em formato de estrela, com uma imagem de Lênin bebê. Não nos ligávamos muito nisso. Quando chegava a hora de ser aceito para “Pioneiros” – o próximo passo para se tornar um comunista – era muito importante. Até o final da 3ª série, éramos avaliados quanto à nossa qualificação para nos tornarmos pioneiros. As crianças mais velhas e professores verificavam as notas, comportamento, conquistas e assim por diante. O evento de recepção dos novos pioneiros era grandioso e emocionante. Os pioneiros amarravam um tipo de bandana vermelha no pescoço e, a partir de então, se tornavam jovens membros responsáveis ​​do Partido Comunista.

Fomos ensinados a cuidar e proteger a natureza. Parece bobo, mas nós literalmente tínhamos que cuidar da natureza. Uma das nossas atividades favoritas era brincar de “enfermeiros” e curar as árvores. Carregávamos a malinha da Cruz Vermelha com suprimentos médicos: ataduras, tesoura, algodão, antisséptico e íamos totalmente preparados para o projeto de “curar as árvores”.  Ao encontrar galhos quebrados, caules cortados e arbustos tortos, aplicávamos um pouco de antisséptico e colocávamos curativos. Era uma sensação e desenvolvíamos a noção de cuidado.

Costumávamos nos arriscar bastante e fazer um monte de coisas perigosas. Imagine:  crianças de 10 anos de idade resolviam saltar sobre os telhados das garagens de metal com superfícies escorregadias e bordas afiadas. Para saciar a sede, pegávamos um pedaço de gelo na mesma garagem de metal e chupávamos como um sorvete. Sujeira e bactérias – quem se importava! Sempre que ficávamos doentes, nossas mães tinham soluções “exclusivas”. Quando tive dor de garganta, minha mãe iria aplicava querosene e funcionava! Para as crianças que tinham deficiência de vitamina D, a cura vinha cavando um buraco na areia quente, colocando a criança lá dentro e cobrindo com areia. Quem estava com uma lasca de madeira no dedo, a melhor saída era colocá-lo em água fervente por três vezes. Essas coisas ainda me fazem sorrir e trazem de volta memórias felizes.

A melhor herança dos tempos soviéticos era a oferta de educação gratuita. A abordagem do socialismo quando se tratava de igualdade significava oportunidades gigantescas para os cidadãos soviéticos. Tínhamos um sistema de ensino muito bom, uma rede bem desenvolvida de instalações extracurriculares e um enorme apoio do governo para desenvolver habilidades esportivas. Na minha memória ficaram as idas anuais a um acampamento de pioneiros; primeiro como alunos e depois como líderes. Era sempre uma grande experiência. Em primeiro lugar, ficava localizado fora da cidade em uma floresta profunda da Sibéria, com ar fresco, belas paisagens e sem o barulho da cidade.

Toda a ideologia da época soviética dava muita atenção à disciplina. Acredito que era necessário para manter a sociedade ajustada sob o regime comunista. Todos os dias no campo tínhamos uma agenda parecida a do exército: acordar às 7 da manhã, fazer exercício coletivo, tomar café da manhã juntos, seguido de atividades de artesanato, música ou dança, e assim o dia ia se estendendo. Minha hora predileta era à noite ao lado da fogueira com um violão cantando músicas ou jogando.

Minha infância soviético ficou cheio de belas recordações daqueles tempos, repleta de regras e disciplina. Fomos ensinados a superar as dificuldades e aceitar as pessoas não por causa de sua renda ou status, mas pelo seu coração acolhedor e personalidade.

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