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Padre censurado na Igreja Católica

DIÁRIO DA MANHÃ|HÉMILTON PENTEADO

Pároco César Garcia fica proibido de ministrar sacramentos até conclusão de processo canônico. Bispo de Rubiataba presidirá inquérito

O arcebispo de Goiânia, dom Washington Cruz, suspendeu do ofício sacerdotal o padre César Luis Garcia, vigário da Paróquia São Leopoldo Mandic. Católicos da arquidiocese representaram para o arcebispo acusando o padre César de ter “abençoado” a relação homoafetiva durante uma visita à casa do arquiteto Léo Romano.

“A suspensão do arcebispo é a aplicação do Cânon 1.722 e eu fico proibido de ministrar sacramentos até decisão final. Esta proibição é a pena máxima prevista no Código de Direito Canônico”, comentou o sacerdote.

De acordo com padre César, presbítero desde 1984, formado e ordenado no Seminário Santa Cruz, da Arquidiocese de Goiânia, a origem do problema era conhecida do arcebispo antes mesmo da representação feita pelos fieis. César disse que a visita que fez à casa do arquiteto Léo Romano, que vive com o também arquiteto Marcelo Trento era do conhecimento do arcebispo.

“Antes de ir à casa deles comuniquei ao arcebispo e ele não manifestou qualquer proibição, o que me causou espanto ainda maior quando soube de sua decisão”, explicou. A visita foi para uma confraternização que os arquitetos ofereceram em sua residência, mas que em nada pudesse caracterizar uma “benção” à união homoafetiva dos dois.

Padre César estima que a suspensão da ordem sacerdotal seja como uma prevenção de que ele pudesse “coagir testemunhas” que serão ouvidas durante o processo canônico instaurado por ordem do arcebispo.

A investigação será presidida pelo bispo da diocese de Rubiataba, dom Adair José Guimarães, que na tarde de ontem já começou a ouvir pessoas citadas na representação feita para o arcebispo de Goiânia.

Entrevista com padre César

Em visita ao Diário da Manhã o padre César Garcia disse que lamenta a suspensão das ordens que ele considera violenta, mas que irá recorrer para se manter no ofício sacerdotal até para a Sagrada Congregação para o Clero, no Vaticano.

Diário da Manhã – Qual a razão do arcebispo haver lhe suspendido da função sacerdotal?

Padre César – O arcebispo fez uma interpretação literal do Direito Canônico que outro bispo muito provavelmente não o faria. Qualquer pessoa pode fazer uma interpretação da forma mais pastoral possível do meu ato e considerar que não foi praticado nenhum ato que transgrida a doutrina da Igreja. Mas, o arcebispo optou por uma interpretação mais legalista possível.

DM – O senhor proferiu uma benção ao casal homoafetivo?

Padre César – Não e foi justamente a partir de informações desencontradas, fantasiosas, por “ouvir dizer” que essa questão ganhou corpo e chegou a esse extremo. Foram publicados dados em redes sociais sem comprovação e que induziram terceiros a erros e levaram ao arcebispo a notícia de que eu teria simulado uma benção ao casal. Na verdade isto não ocorreu.

DM – A igreja não aceita a união homoafetiva?

Padre César – O estado é laico e não cabe à Igreja aprovar ou não esse tipo de união. Legalmente isto está regulamentado no Brasil. A Igreja está discutindo essa relação, assim como o direito de mães solteiras frequentarem os ritos e receberem os sacramentos. O papa Francisco tem dito reiteradas vezes que a Igreja precisa acolher e não repudiar. A Igreja é como uma mãe, e como tal precisas acolher e cuidar. O Direito Canônico não admite a união homoafetiva e eu sempre disse que a união correta é entre homem e mulher. Não há dúvida quanto a isto. Na verdade, como eu não ministrei nenhum sacramento e eles não me convidaram para isto, não há que se discutir transgressão doutrinária. É uma insensatez não querer a presença de pessoas homossexuais em liturgias e outros atos da Igreja.

DM – A quem o senhor credita esse procedimento?

Padre César – O arcebispo está sofrendo pressão de setores fundamentalistas católicos. São pessoas que não têm conhecimento da Palavra e que interpretam a Bíblia ao pé da letra, o que é profundamente lastimável. Esse fundamentalismo tem crescido até mesmo entre os jovens, o que é lamentável e preocupante.