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No Acre, artista tem lendas amazônicas no quintal de casa

 

 

 

RIO BRANCO – Na Vila Custódio Freire, um longínquo bairro rumo ao aeroporto da capital acriana, fantasia e realidade confundem viajantes e estrangeiros e até mesmo os próprios moradores que passam pelo local. O motivo? A estranheza da Matinta Perera, o sapeca Curupira, a beleza da sereia Iara e a magnitude do Mapinguari que enfeitam o incomum e belo acervo de esculturas amazônicas no quintal do artesão Enock Tavares.

 

Cobra Grande, mede 12 metros, e é uma das atrações mais celebradas no espaço. Foto: Fany Dimytria/Portal Amazônia

Aos 64 anos de idade e um sorriso de menino ao falar de suas esculturas, o artesão garante que a vontade de perpetuar a rica cultura da região amazônica é o principal objeto das suas criações mitológicas. Formado em Artes pela Universidade Federal de Belém (UFPA), o artista plástico reside há 2 anos no Acre e conta que deu início ao projeto que ele considera o maior orgulho de sua vida. “Acredito que temos que primeiro gostar do que fazemos e depois abusar da criatividade, deixar fluir”, conta Enock.

Escola de artesanato 

Além de sua paixão pela construção das obras únicas – entre caiporas, cobras grandes, rasgas mortalhas, etc –  Enock não guarda o talento só para si. Ele só trabalha dois dias por semana – porque tem que cuidar de um de seus três filhos, de 3 anos – mas faz questão de ensinar para quem se dispõe a aprender. Em um simples estúdio de artesanato, improvisado em um galpão, o artesão mostrou à reportagem do Portal Amazônia o material que divide com os alunos da comunidade que se interessam pela arte.

O artesão Enock Tavares pousa ao lado da onça pintada, escultura também de sua autoria. Foto: Fany Dimytria/ Portal Amazônia

Pó de cerra, semente de frutas, madeira, papel machê, cimento e ferro. Esses são os protagonistas no processo de construção do vasto acervo que mais parece um museu a céu aberto no quintal do autônomo. Enock também recebe encomendas e tem a ajuda de seus alunos que, assim como ele, tem o interesse pela criação. “Eu dou aulas de artesanato na oficina e dou também o material, com meu próprio dinheiro. Os alunos me auxiliam nas encomendas, dividimos o lucro, porque o trabalho também é deles. São quase 10 alunos que trabalham aqui comigo”, explica.

Ítalo Ruan, tem 13 anos e é estudante do 8º ano do Ensino Fundamental e também vizinho do Seu Enock. Tímido, o garoto manuseia papel machê que aos poucos ganha a forma de um sapo. “Eu gosto mais de trabalhar com cimento. Minha família gosta quando passo um tempo aqui, meus amigos acham legal e aqui é um passatempo bom”, conta o estudante.

Aluno há dois anos de Enock, Roni Alves cursa o último ano do Ensino Médio. Estimulado pela irmã, professora de artes, Roni é o principal ajudante de Enock na produção das encomendas recebidos.  Ele divide metade do lucro da venda de peças com seu maior incentivador. O jovem diz que teve sua curiosidade despertada quando falaram que havia um jacaré na frente da casa de um vizinho. Logo ali, era seu Enock. “Quando vi achei interessante e comecei a frequentar aqui e não sai mais. O que eu mais gosto é de fazer esculturas de animais, quero aprender a pintar também”. E Enock reconhece: “Esse parece eu, quer fazer tudo”, orgulha-se o escultor.

 

 Escultura do Mapinguari, o gigante da floresta amazônica, mede 5 metros e levou apenas uma semana para ser concluída. Foto: Fany Dimytria/Portal Amazônia

Jardim Mágico

À noite, pequenos holofotes iluminam a floresta de Seu Enock. Não existem cercas ou alarmes para restringir o contato com as obras. Os viajantes que não detêm os olhares apenas à estrada chegam durante a madrugada e acordam toda a família para elogiar o belíssimo trabalho do artesão. “Eles acordam a gente porque acham que tem que pagar para entrar, tirar foto. Tem uma cestinha no meio do quintal, alguns estrangeiros acharam um absurdo eu não cobrar. Por isso eu fiz uma. A cestinha está lá, mas não é obrigatório depositar algo nela”, esclarece.

A ideia é que o espaço seja aberto para que todos visitem, tirem foto e tenham um contato com as esculturas, sem restrições, mas com respeito devido ao trabalho. “Afinal, tempo, esforço e amor foram empregados por nós que, com simplicidade e carinho, explicamos as lendas amazônicas, mesmo que todos já a saibam de cor”, finalizou o Enock.