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Copa do Mundo: ribeirinhos do Amazonas relatam dificuldades e amor para assistir jogos

Comunidades às margens do rio Negro torcem pelo Brasil, mas ribeirinhos idolatram estrangeiros

Portal Amazônia

MANAUS – Manaus recebeu quatro jogos durante a Copa do Mundo de Futebol. Entretanto, na região do Baixo Rio Negro, o futebol é parte integrante da vida dos ribeirinhos e a confiança no hexacampeonato mundial do Brasil é grande. Percebe-se ainda que o fenômeno da ‘globalização do futebol’ também invadiu as comunidades. Neste sábado (28), o Brasil entra em campo contra o Chile e os torcedores da comunidade estarão reunidos. Conheça a vida desses ribeirinhos:

Futebol mobiliza centenas de pessoas nas comunidades ribeirinhas, principalmente nos campeonatos locais. Foto: Acervo/FAS

Globalização do futebol

Na comunidade Tumbira, localizada à margem direita do Rio Negro, um jovem caminha com a camisa 7 da seleção de Portugal – número do craque Cristiano Ronaldo. Este é apenas um dos indícios de que o fenômeno da ‘globalização do futebol’ também atingiu as comunidades ribeirinhas do Amazonas. Ao serem perguntados sobre seus ídolos do futebol, a maioria dos jovens cita jogadores de outros países, especialmente o argentino Messi e o próprio Cristiano Ronaldo. Nem mesmo o badalado Neymar supera os dois craques estrangeiros em popularidade na região.

O menino que vestia a camisa de ‘CR7′ é Giovanni Garrido, de 16 anos. Apesar da idolatria pelo craque português, o jovem garante que sua torcida estará com a seleção brasileira. “Aqui a maioria das pessoas assistem juntas, eu gosto de chamar a galera pra assistir os jogos aqui em casa. Lembro muito de 2002 quando o Brasil foi campeão, na época do Ronaldo”, recordou.

Português Cristiano Ronaldo é ídolo entre os jovens ribeirinhos. Foto: Gabriel Seixas/Portal Amazônia

Sem nunca ter ido a um estádio de futebol na vida, Giovanni define como um ‘sonho’ a possibilidade de assistir a um jogo na Arena da Amazônia. “Ainda não assisti nenhum jogo no estádio, mas tenho vontade. Conheço a Arena por fotos. Seria uma emoção muito grande ir lá. Principalmente pra quem está acostumado só em assistir pela TV, então seria muito emocionante”.

Paixão pelo futebol

Vitor Garrido, também de 16 anos, concilia a paixão pelo futebol com o seu trabalho de marceneiro. Fanático pelo esporte bretão, o ribeirinho disputa torneios de futebol organizados pelas próprias comunidades e que são muito populares no Baixo Rio Negro. O jovem relembra a última Copa do Mundo, na qual o Brasil foi eliminado para a Holanda nas quartas de final. “A Copa de 2010 foi muito triste, mas eu tenho certeza que dessa vez o Brasil vai ganhar”.

Vitor Garrido trabalha como marceneiro e nutre paixão pelo futebol. Foto: Gabriel Seixas/Portal Amazônia

Vitor também afirma que a comunidade se mobiliza para acompanhar a seleção brasileira. “Quando o Brasil ganha, é festa que não tem hora pra acabar. O pessoal solta foguetes, é uma grande festa”, contou.

Ainda na comunidade Tumbira, Roberto Mendonça é dono do principal ‘ponto de encontro’ dos torcedores da região em jogos de futebol, a Pousada Garrido. “Como futebol é uma paixão do brasileiro, todo mundo aqui se concentra numa sala grande, escolhe a maior televisão que tem na comunidade e a gente acompanha”. Perguntado se a maior televisão da comunidade seria a sua, Roberto não titubeou. “Com certeza. Colocolo em frente a pousada para a galera vibrar”, brincou.

Passado e presente

Na comunidade Santa Helena do Inglês, também à margem direita do rio Negro, Pedro Vidal faz parte do passado e do presente da torcida pela seleção brasileira. Ao mesmo tempo em que varre um pátio aparentemente abandonado sem tirar o sorriso do rosto, o ribeirinho exibe com orgulho a camisa do Brasil que veste. “A gente está no País da Copa e por isso eu vesti essa camisa, porque eu amo”.

Pedro Vidal exibe camisa da seleção brasileira. Seu time do coração é o Santa Helena, clube da comunidade. Foto: Gabriel Seixas/Portal Amazônia

Um dos fundadores de sua comunidade e apaixonado por futebol desde os 13 anos, Pedro acompanhava os jogos da seleção na infância pelo ‘radinho’ de pilha. “Só em 82 que a gente conseguiu comprar uma TV preta e branca”, relembrou. O que era um privilégio de poucos àquela época, hoje é uma realidade. Toda a comunidade atualmente é abastecida pelo programa ‘Luz para Todos’, do Governo Federal, que leva energia elétrica para a população do meio rural – desta forma, hoje em dia todos os moradores assistem aos jogos pela televisão.

Fã de Pelé, Garrincha e Romário, Pedro confia que a Copa de 2014 será de Neymar. “Na seleção atual a gente tá com uma boa esperança que essa é a vez do Neymar. Ele é um cara novo, e quando a pessoa tem vocação para o futebol, ela vai evoluindo a cada ano e mudando o seu estilo de jogo para melhor”.

Um dos times de futebol ribeirinhos do Baixo Rio Negro. Foto: Acervo/FAS

Ao contrário dos outros moradores de Santa Helena do Inglês, Pedro já teve oportunidade de assistir a um jogo da seleção brasileira in loco, ainda no antigo estádio Vivaldo Lima. “Quando eu era jovem eu sempre assistia jogos em Manaus. Cheguei a ver a seleção brasileira jogando lá, se eu não me engano em 1970. Foi na época do Tostão, ele até fez um gol contra a seleção amazonense”. Ele também nutre o sonho de conhecer a nova Arena da Amazônia. “Eu fui no Vivaldo Lima assistir vários jogos. Agora na Arena [da Amazônia] eu ainda não fui, mas tenho certeza que ainda vou. Tá muito bonita, nota dez”.

Assim como no Tumbira, a comunidade do Santa Helena do Inglês também ganhou um ‘ponto de encontro’ para torcer pelo Brasil na Copa: a Pousada Vista Rio Negro, inaugurada em maio. “Como a gente vai ter agora a pousada, geralmente em dia de jogo da Copa a gente se reúne e assiste, fica tomando uma cervejinha, assistindo pela TV”, conta o dono do estabelecimento e líder da comunidade, Nélson Mendonça.

Pousada do Garrido, na comunidade Tumbira, vai receber turistas franceses e alemães durante a Copa. Foto: Gabriel Seixas/Portal Amazônia

 

Ribeirinhos do Amazonas preparam torneio de futebol paralelo à Copa

Torneio entre comunidades do rio Negro promete atrair turistas e amantes do futebol durante o Mundial

MANAUS – A Copa do Mundo de Futebol é um evento que mobiliza milhões de pessoas, inclusive na Amazônia. A região sedia o torneio pela primeira vez na história e aproveita para divulgar suas características. No Amazonas, as comunidades ribeirinhas estão integradas nesse processo à medida em que fazem parte dos roteiros turísticos do Estado. E os locais às margens do Rio Negro apresentam um atrativo especialmente para o Mundial: o tradicional Campeonato de Futebol da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Negro será realizado justamente no período do Mundial.

Torneio de futebol do Rio Negro. Foto: Acervo/FAS

A paixão pelo futebol nas comunidades ribeirinhas do Amazonas é perceptível. Torneios são organizados entre as comunidades em quase todos os fins de semana. Durante a Copa do Mundo, os locais pretendem atrair um número considerável de turistas. E além da natureza e da interação com animais, o futebol também desponta como um grande atrativo para os visitantes.

Clube da terra (e do coração)

Pedro Vidal tem 58 anos. Apaixonado por futebol desde os 13, o morador da comunidade Santa Helena do Inglês fala com orgulho do seu clube do coração. Flamengo? Vasco? Nada disso. É o Santa Helena, time amador que leva o nome da comunidade. “Minha paixão pelo futebol começou quando eu vesti a camisa do meu clube do coração, aqui da região, que é o Santa Helena. Comecei a jogar com 13 anos e até hoje, aos 58, eu ainda bato uma bola”, afirmou.

Futebol possui um importante papel social nas comunidades ribeirinhas do Amazonas. Foto: Acervo/FAS

Vidal define o Santa Helena como “o maior time da comunidade”. “É um time veterano aqui na área, muito conhecido no interior, até mesmo em Iranduba, Novo Airão e etc”, exibiu-se. O experiente ‘atleta’ explica que o torneio de futebol do Rio Negro envolve 19 comunidades ribeirinhas e é ‘democrático’, pois inscreve times masculinos, femininos e veteranos, como no seu caso.

Futebol = renda

Líder da comunidade Santa Helena do Inglês, Nelson Mendonça destaca um fator benéfico da realização de torneios de futebol nas comunidades: a geração de renda. “Esse esporte, além de proporcionar o lazer no sábado, no domingo, também ainda deixa um pouco de renda na comunidade que recebe o evento. Até porque o cara que vem jogar aqui come alguma coisa, compra uma cerveja, sempre deixa um dinheirinho”.

Estádio de futebol da comunidade Santa Helena do Inglês para os torneios do Rio Negro. Foto: Gabriel Seixas/Portal Amazônia

Outro ponto positivo destacado por Nelson é a integração das comunidades através do futebol. “É uma forma das outras comunidades virem pra cá. Até porque pra pessoa ir pra outro ‘campo’ tem que ser por algo que ela goste. E aqui a gente atrai muita gente nos torneios, tanto homem quanto mulher”.

Pra turista ver

Tanto a comunidade do Tumbira quanto a de Santa Helena do Inglês ainda não parecem ‘respirar’ Copa do Mundo. Nenhuma casa ou estabelecimento encontra-se decorado com bandeiras, cores ou qualquer enfeite relacionado à seleção brasileira. Entretanto, este panorama vai mudar até o início do Mundial, segundo os próprios moradores. O que não muda mesmo é a paixão dos comunitários pelo futebol – isto sim, perceptível em cada esquina.

Os turistas podem ficar despreocupados: se os destinos escolhidos durante a Copa forem as comunidades do Baixo Rio Negro, o que não vai faltar é bola na rede.