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A outra Art Basel

Pipilotti Rist e sua obra "Lobe of the lung"

Pipilotti Rist e sua obra “Lobe of the lung” (Keystone)

Por Michèle Laird, swissinfo.ch 
18. Junho 2014

A Art Basel, cuja 45° edição começa na quinta-feira, é a feira na qual expositores, artistas e visitantes descobrem as mais novas tendências da arte contemporânea. Uma delas são os filmes artísticos. Várias galerias apostam nesse formato.

Os vídeos entraram na arte no final dos anos 1960. Como pioneiros, Nam June Paik e Bruce Nauman, que na época integraram imagens móveis em suas instalações.
 
Nos anos 1970, o americano Bill Viola foi o primeiro a trabalhar exclusivamente com vídeos e apresentá-los como arte.
 
Hoje, jovens artistas interpretam de novas formas essa mídia. Eles fazem parte da geração que cresceu com a MTV. Seu mundo é orientado pelas imagens digitais.
 
A Art Basel deu espaço para o filme já em 1999. Com isso os organizadores ressaltavam a importância da imagem móvel na iconografia contemporânea. Com a expansão estratégica eles tentavam também abordar a nova geração de colecionadores, que valorizavam muito mais as mídias atuais como vídeo, filme, áudio e outras tecnologias computadorizadas.

Três diferentes eventos

A seção de filmes da Art Basel apresenta projeções individuais e hoje é parte das franquias Art Miami e Art Hong. As preferências de cada um dos curadores dá, finalmente, o toque pessoal a cada uma das feiras.
 
David Gryn, diretor do Artprojx em Londres, programou para a Miami Art Basel em dezembro, projeções de cinema ao ar livre. O objetivo é trazer glamour para a capital da Flórida. Já na Basileia e em Hong Kong as apresentações de vídeo-arte ocorrem em salas projeção.
 
Li Zhenhua, curador da Art Basel em Hong Kong e dividido profissionalmente entre Zurique e Pequim, é um artista, produtor e curador reconhecido no setor de mídia arte, uma expressão para definir trabalhos artísticos relacionados às novas tecnologias, também denominado arte digital. “Artistas no setor de mídia arte querem ser levados a sério como artistas contemporâneos”, declara Zhenhua.
 
Na Basileia atua há sete anos o alemão Marc Glöde, especializado em cinema e curador no evento do setor, e também o colecionador This Brunner. Como cientistas interessado na influência das imagens em movimento, Glöde prefere obras de grande complexidade.
 
Questionados sobre os critérios utilizados para selecionar as obras dos artistas, o curador cita o potencial de irritação que elas são capazes de trazer. “Quando vivi nos Estados Unidos comecei a me interessar cada vez mais pelas irritações”, afirma. “Se para a maior parte das pessoas elas representam algo negativo, para mim elas levam à reflexão. Minha capacidade de se surpreender é muito maior quando eu não estou relaxado.”
 
O alemão descobre inclusive novas formas de energia no seu trabalho. “Artistas sempre tentaram superar as limitações da tela. Com os projetores é possível agora exibi-las praticamente por todos os lados.”
 
Para demonstrar as capacidades dos projetores modernos, pioneiros como Bill Viola transcenderam a arquitetura da Catedral de Berna e a do Museu de Arte de Berna com imagens fantásticas.

Inspiração

Segundo Glöde, filmes de arte inspiraram uma nova geração de artistas acostumados às chamadas imagens em movimento. Um deles é Ryan Trecartin, 33 anos, considerado um talento em ascenção. Ele parceira Lizzie Fitch transformam as imagens feitas por amigos de acampamentos em verdadeiros caleidoscópios.
 
Como muitos dos seus colegas, Trecartin publicas suas imagens na plataforma Vimeo, o que permite atingir um público muito mais amplo do que os voltados para as galerias de arte.

Papel das galerias

Arte contemporânea nunca atingiu as massas, mas tem se tornado cada vez mais popular. As feiras de arte são a melhor plataforma para as galerias apresentarem seus artistas. Apesar de algumas delas estarem presente nas três edições da Art Basel, elas nunca apresentam o mesmo artista duas vezes.
 
Hauser & Wirth, a uma importante galeria suíça com filiais em Londres e Nova Iorque, apresentou em Hong Kong a premiada “Esculturas de ação” do artistas suíço Roman Signer. Já na Basileia, a mesma galeria irá apresentar Sterling Ruby e Rashid Johnson, artistas que abordam com força questões ligadas à espiritualidade.
 
Arte com imagens animadas já são comercializadas há muito tempo e também incluídas no programa das galerias, explica Florian Berktold, chefe da Hauser & Wirth. “Nos últimos cinco anos as possibilidades tecnologias viveram grandes mudanças: a infraestrutura expandida para uma melhor qualidade de imagem, o tamanho das câmeras, os sistemas de processamento de imagens em computadores, manipulação de tons no iPhone e padrões técnicos cada vez mais desenvolvidos.”

Filmes de arte ou arte cinematográfica

Durante cinquenta anos filmes como obra de arte foram realizados de forma conceitual ou como parte de performances ou instalações. Na Basileia quatro artistas estarão sendo apresentados: Matthey Barney, Francis Alÿs, Steve McQueen e Paul Chan. Pipilotti Rist (Suíça) e Gillian Wearing (Grã Bretanha) são as exceções nesse meio dominado por homens.
 
Na tela os artistas conseguem dar uma nova visão do mundo. Nos últimos anos o conceituado prêmio Turner foi dado a mulheres: a inglesa  Elizabeth Price levou a video-arte à novas dimensões. Já em 2013, a francesa Laure Prouvost foi premiada pela instalação “Wantee”. Ela considera sua obra como uma experiência semelhante ao reflexo do sol na pele, como empregado nos seus mais recentes trabalhos.

Adaptação: Alexander Thoele

 

Leis anti-racismo continuam contestadas

VINTE ANOS DEPOIS

Antissemitismo: suásticas pintadas no muro de uma sinagoga em Genebra, em 2005.

Antissemitismo: suásticas pintadas no muro de uma sinagoga em Genebra, em 2005. (Keystone)

Por Clare O’Dea, swissinfo.ch 
11. Junho 2014 – 11:00

É necessário confrontar sistematicamente a face “escura” da sociedade suíça com o estado de direito e correr, ao mesmo tempo, o risco de sufocar inutilmente a liberdade de expressão? Vinte anos após a adoção das normas penais antirracismo pelo eleitor suíço, a direita conservadora relança o debate.

Durante um festival de iodelei (n.r.: uma forma de canto principalmente conhecido na região dos Alpes), em um bar, ou ainda na página internet de um escritório de arquitetura: informações de conteúdo racista podem aparecer nos locais aparentemente mais inofensivos. Porém logo que a dignidade humana de um indivíduo ou de um grupo é ferida, ou que a linha de incitação ao ódio é ultrapassada, os autores são passíveis de serem processados na justiça.
 
Mais de 380 processos foram conduzidos desde a entrada em vigor da norma penal antirracista em janeiro de 1995. Em sua grande parte, as penas pronunciadas foram multas simples ou multas com sursis. A maior parte dos condenados foi de pessoas anônimas, mas políticos, mídias, ativistas da extrema direita e funcionários também tiveram de responder por seus atos frente à justiça.

Violência verbal

“Negro, negro sujo, filha da puta, idiota” foi o insulto proferido várias vezes e frente a inúmeras testemunhas contra um homem que assistia um festival de iodelei (n.r.: uma forma de canto principalmente conhecido na região dos Alpes) em Interlaken, em 2012.
 
O criminoso foi reconhecido culpado de violação da norma penal antirracista e condenado a uma multa de 750 francos e uma multa de três mil francos com sursis.
 
Fonte: resumo da decisão penal na página da Comissão Federal contra o racismo

“Ditadura do politicamente correto”

Como essa legislação resiste à prova do tempo? Segundo o texto da última moção sobre o tema assinada pelo partido União Democrática do Centro (UDC, direita conservadora), ela provocou “problemas jurídicos, abusos e processos absurdos”. Entregue em março de 2014, a intervenção parlamentar visa a revogação da norma penal antirracista, ou seja, o artigo 261bis do Código Penal Suíço.
 
O deputado federal Oskar Freysinger, já no passado autor de uma moção exigindo a modificação do artigo, estima que a lei seja contra produtiva e que cria uma ditadura do politicamente correto. “A lei é instrumentalizada para fins políticos. Os cidadãos não se sentem mais livres de se expressar. Eles censuram suas opiniões por medo de um processo penal.”
 
Já do seu lado, a Comissão federal contra o racismo estima que os juízes estão aplicando a lei de forma excessivamente restritiva. No último relatório sobre a Suíça, a Comissão das Nações Unidas pela eliminação da discriminação racial adotou a mesma posição.

Propaganda antissemita

Um arquiteto publicou material antissemita na sua página da internet, dentre os quais livros e textos negando o holocausto, propagando estereótipos assim como afirmações difamatórias e discriminatórias em relação a judeus.
 
A pessoa afirma não ter lido os textos e que desconhecia o seu conteúdo racista. Ele foi condenado a uma multa de nove mil francos com sursis.
 
Fonte: resumo da decisão penal na página da Comissão Federal contra o racismo

O caso Perinçek

O caso que mais provocou polêmica nos últimos anos na Suíça diz respeito ao nacionalista turco Dogu Perinçek, acusado de ter negado o genocídio armênio de 1915 durante um discurso pronunciado em Lausanne, em 2005.
 
A norma penal antirracista proíbe especificadamente a negação, a banalização grosseira e a justificação do genocídio ou de outros crimes contra a humanidade. Dogu Perinçek foi considerado culpado e condenado a uma pena de multa, mas entrou com recurso e teve ganho de causa na Corte Europeia dos Direitos Humanos, que reconheceu uma interferência em seu direito à liberdade de expressão.
 
O caso continua. No início do mês, o tribunal aceitou o recurso da Suíça e o reexaminará. Oskar Freysinger considera que os políticos e os historiadores não deveriam ser penalizados, pouco importando a gravidade ou estupidez das suas formulações. “Ao processá-los nessas circunstâncias, os transformamos em mártires e validamos suas opiniões”, diz.

Ideologia anti-muçulmana

“É por essa razão que não deveríamos dar a nacionalidade suíça aos muçulmanos”, escreveu o autor de um artigo publicado no jornal de um partido político não especificado. O Tribunal da Turgóvia julgou que o artigo era difamatório para os muçulmanos como grupo.
 
Ele rejeitou os argumentos da defesa, para quem os muçulmanos não poderiam ser protegidos pela norma penal antirracista já que não representam uma raça, mas sim uma religião. O autor do artigo foi condenado a uma multa de 170 francos e uma multa de 5.400 francos com sursis.
 
Fonte: resumo da decisão penal na página da Comissão Federal contra o racismo

“Porco estrangeiro”

Enquanto a UDC vê excessos na lei, fomentando uma “cultura de denunciação” e um “Estado dirigido por juízes”, Martine Brunschwig-Graf, presidente da Comissão federal contra o racismo, estima contrariamente que os magistrados têm a tendência de aplicar a lei de forma muito restritiva, privilegiando geralmente a liberdade de expressão.
 
Ele fornece dois exemplos recentes: o primeiro, em 2007, diz respeito a um policial que tratou um argelino, suspeito de ter cometido um furto no Salão da Relojoaria da Basileia, de “porco estrangeiro” e “sujo solicitante de asilo”. O policial foi inocentado ao entrar com recurso em fevereiro de 2014. O tribunal considerou que os insultos não violavam a norma penal antirracista, pois não eram dirigidos diretamente contra uma etnia ou uma religião específica. A utilização das palavras “porco” e “sujo” seguida de uma menção da nacionalidade de uma pessoa não é considerada uma violação da lei, segundo os magistrados.
 
O segundo exemplo concerne uma saudação nazista efetuada durante um encontro de membros da extrema-direita na planície do Grütli em 1° de agosto de 2010, feriado nacional da Suíça. O Tribunal Federal, a mais elevada instância jurídica do país, absolveu o acusado maio 2014, argumentando que ele não estava disseminando uma ideologia, mas sim “meramente expressando suas próprias convicções.”
 
“É um problema que atinge toda a sociedade, não somente a justiça. Esse veredicto dá a impressão que alguns comportamentos ofensivos são permitidos”, julga Martine Brunshwig-Graf.

Discriminação

Por ocasião de uma entrevista radiofônica, o proprietário de um bar de St. Gallen declarou que não admitira nenhum “albanês, iugoslavo ou negro” no seu estabelecimento e que havia solicitado ao seu segurança de aplicar as normas com rigor.
 
O proprietário do bar foi condenado a uma multa de 500 francos e uma multa de 3.300 francos com sursis.
 
Fonte: resumo da decisão penal na página da Comissão Federal contra o racismo

Piadas duvidosas ou racistas?

No entanto, algum desconforto é evidente, mesmo dentro das fileiras de militantes antirracistas. Alguns deles acreditam que a utilização intensiva de ações legais sempre que alguém fizer um comentário de mau gosto não é a solução.
 
Em uma tribuna publicada no site Tageswoche.ch, o antigo presidente da Comissão federal contra o racismo, Georg Kreis (1995-2011), deplorou o processo aberto contra um “humorista”, que havia empregado o estereótipo do “judeu ávido por dinheiro” durante uma entrevista na televisão.
 
Alexander Tschäppät, prefeito de Berna, está sendo processado por uma piada feita sobre imigrantes italianos “preguiçosos” durante um show humorístico em dezembro de 2013. Um advogado de origem italiano é o autor da queixa penal. Atualmente ela está sendo avaliada pela Procuradoria local.
 
“Logo que uma norma penal antirracista foi introduzida na Suíça em 1995, ficou claro para os especialistas que as queixas e acusações seriam examinadas com rigor e que apenas as violações claras seriam levadas aos tribunais a fim de não danificar a norma de absolvições em casos questionáveis​​”, escreveu Kreis.
 
A nova moção parlamentar da UDC com o objetivo de abolir a norma antirracista menciona o caso particular dos humoristas: “Mesmo eles precisam se conter para evitar processos”. Na resposta escrita à moção, o Conselho Federal (governo federal) reconhece que as médias destacaram o número crescente de queixas penais feitas após apresentações humorísticas. “Mas segundo o conhecimento do governo federal, nenhuma delas teve como resultado uma condenação por discriminação racial”, afirma.

Incitação ao ódio

Oitenta e sete países, dentre os quais a Suíça, assinaram a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. O artigo 4 dela estipula:
 
“Os Estados Partes condenam a propaganda e as organizações que se inspiram em ideias ou teorias fundadas na superioridade de uma raça ou de um grupo de pessoas de certa cor ou de certa origem étnica ou que pretendem justificar ou encorajar qualquer forma de ódio ou de discriminação raciais, obrigam-se a adoptar imediatamente medidas positivas destinadas a eliminar os incitamentos a tal discriminação…”
 
A Áustria, Bélgica, França, Irlanda, Itália, Japão e a Suíça interpretam o artigo 4 de forma a impedir que ele não viole a liberdade de expressão, de opinião, associação e reunião. Os Estados Unidos não aceitam, entretanto, nenhuma obrigação devido à convenção de restrição dos direitos individuais à liberdade de expressão, associação e expressão contida na constituição do país e outras leis nacionais.

Para proteger os membros da UDC

Foram muito mais a UDC e seus membros que se encontraram nos últimos tempos em evidência por ter enfrentado a lei. Um tribunal de Zurique condenou em maio de 2014 um antigo membro do partido pela publicação de um comentário na rede social Twitter em junho de 2012: “Talvez a gente precise de uma nova Noite dos cristais…desta vez contra as mesquitas.”
 
Um tribunal julgou que o tweet era ofensivo tanto para muçulmanos como para judeus. A “Noite dos cristais” refere-se a pogroms na Alemanha em novembro de 1938, durante a qual aproximadamente cem pessoas foram assassinadas e empresas e sinagogas atacadas sob o olhar benevolente das autoridades.
 
Seria o interesse da UDC de revogar a norma penal antirracista unicamente para proteger seus membros e permitir-lhes exprimir livremente suas opiniões contestáveis? Oskar Freysinger contesta. “Quero defender o direito de cada pessoa, seja ela de esquerda ou direita, de exprimir opiniões controversas. Uma democracia deveria ser suficientemente forte para aguentar isso.”

Adaptação: Alexander Thoele

A vida nos pastos alpinos

 
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Nigeriano gay se complica diante da política de asilo suíça

Manifestantes em Berna protestam pela liberdade do nigeriano. O.

Manifestantes em Berna protestam pela liberdade do nigeriano. O.(Raphael Moser / relational)

Por Veronica DeVore, swissinfo.ch 
06. Junho 2014 – 11:00

O. está na prisão há várias semanas e em pouco tempo envelheceu muito, na opinião de que o visita regularmente. Ele solicitou refúgio na Suíça porque, diz, queriam matá-lo no seu vilarejo. Por ser gay, mesmo seu pai seria favorável a essa medida radical.

Após receber resposta negativa ao pedido de asilo, ele entrou na clandestinidade. Detido e encarcerado, aguarda uma decisão sobre possível retorno forçado à Nigéria.
 
Hoje, sentado do outro lado do vidro, ele parece cansado, mas de sobreaviso, particularmente ansioso para falar com alguém – seja quem for – e saber o que acontece lá fora. Ele ouviu protestos sob sua janela exigindo sua libertação, e deseja ter certeza de que ninguém tenha ficado ferido ou sido detido por causa dele.
 
E, então, ele conta sua história, cujos detalhes são difíceis de verificar de maneira independente.
 
Ele e seu namorado, relata, partiram da capital Lagos em 2009, depois de fracassarem na tentativa de se esconder das pessoas que queriam exterminá-los. Mas alguém acabou descobrindo o paradeiro deles – através do proprietário do local onde se abrigaram – e precisaram fugir.
 
Contrataram contrabandistas para transportá-los ao Marrocos, de onde um dia embarcaram para a Espanha. Uma vez em território espanhol, alguém lhes disse que nunca encontrariam um trabalho e que o melhor era pegar um ônibus, cheio de outros migrantes, rumo à Suíça. Dois dias depois, chegaram ao destino, pediram ajuda a um desconhecido de pele escura e foram direcionados a um centro de asilo, na cidade suíça de Vallorbe, no cantão de Vaud (sudoeste).    
 
“Em Vallorbe, não acreditaram em nada do que eu disse,” afirma O. à swissinfo.ch. “Expliquei como fui maltratado pelos habitantes de meu vilarejo. Para meus compatriotas eu era uma pessoa execrável e se, por exemplo, perdessem a safra ou uma parturiente morresse, seria por culpa minha e de meu namorado.”
 
Em seguida, tirou a camisa para mostrar cicatrizes nas costas, que, garante, foram provocadas pelas pancadas recebidas.

Pedidos recusados

 
A solicitação de asilo de O. foi examinada por um sistema acelerado, introduzido no ano passado, em conformidade com uma ampla parceria de migração entre a Nigéria e a Suíça. No caso dele isso significa que a recusa suíça ocorreu logo após a primeira entrevista com as autoridades do setor de migração. O. diz que seu pedido foi recusado porque as autoridades suíças simplesmente duvidaram de sua história. 
 
Quando O. tentou recorrer da decisão por própria conta, seu advogado disse que não teria sucesso sem um passaporte ou uma prova (fotos, por ex.) de que ele e seu parceiro se haviam conhecido e mantinham um relacionamento antes de fugirem da Nigéria.
 
Quando uma outra tentativa de apelo foi efetuada em 2013 – dessa vez com o auxílio de outra organização suíça de ajuda aos imigrantes – as autoridades competentes deram crédito à sua história, mas rejeitaram o pedido, argumentando que ele poderia levar “discretamente” seu estilo de vida no próprio país, evitando assim eventuais perseguições.
 
Na impossibilidade de comentar o caso de O., Martin Reichlin, da Secretaria de Migração realçou que a prática de presumir que homossexuais possam viver nas condições apontadas no país de origem foi suspensa “cerca de há quatro anos” na política de asilo da Suíça. Consequentemente essa não é mais uma justificativa para rejeitar requerente de asilo homossexual, observou.

Fuga da deportação

 
O. entrou na clandestinidade logo que seu primeiro pedido de refúgio foi negado, receando as consequências de uma deportação para a Nigéria. Segundo recente legislação naquele país, homossexuais correm o risco de serem condenados a 14 anos de prisão, além de sofrerem violência e discriminação. O. afirma que seu namorado, já deportado, foi obrigado a se submeter a exorcismos rituais, sendo até arrastado nu, numa carroça, e abjurar para sempre a homossexualidade. A organização ‘Human Rights Watch’ (sentinela dos direitos humanos) descreve como “perigosa” a situação dos homossexuais na Nigéria, especialmente depois que uma radical lei anti-gay foi aprovada neste ano de 2014. E a agência Associated Press informou, em março, que condenados por relações homossexuais receberam chicotadas, como castigo, numa sala de tribunal.
 
O. finalmente acabou se instalando em Genebra, em apartamento de um conhecido. Quando a polícia deu uma batida no local, no âmbito de uma operação de combate à droga, ele foi detido. E agora se encontra encarcerado na Suíça por permanência ilegal no país. Ele insiste não ter tido conhecimento do que acontecia no apartamento e que o utilizava apenas para dormir.
 
Desde então, O. está atrás das grades, enquanto um grupo de advogados tenta impedir que seja deportado. Acham que a situação do cliente estaria melhor se ele tivesse chegado recentemente na Suíça e não quatro anos atrás, pois a política em relação a homossexuais evoluiu, a sensibilidade das pessoas em geral melhorou e requerentes de asilo gays já não recebem ordem de voltarem para casa e viverem discretamente evitando perseguição. Mas como O. violou a lei, seu caso já foi decidido e seu destino está selado.
 
Contudo, advogados de O. conseguiram impedir que ele assinasse um ‘laissez-passer,” documento que teria facilitado sua deportação, porque ele não tem passaporte. E em 10 de maio, eles entregaram à Secretaria da Migração novo pedido de asilo em seu nome, medida que, observa Reichlin, “geralmente suspende o processo de deportação” enquanto se analisa o novo requerimento.
 
Enquanto isso, sentado na prisão, O. espera notícias de fora…
 
* nome oculto, conhecido da Redação

Adaptação: J.Gabriel Barbosa

Recomeço de vida na Nigéria sob impulso da Suíça

RETORNO DE REQUERENTES DE ASILO

Violência, instabilidade e preços elevados fazem da Nigéria um lugar difícil para fazer negócios, mas programas de retorno voluntário ajudam o solicitante de asilo ter uma base para realizar seus projetos. Violência, instabilidade e preços elevados fazem da Nigéria um lugar difícil para fazer negócios, mas programas de retorno voluntário ajudam o solicitante de asilo ter uma base para realizar seus projetos. Violência, instabilidade e preços elevados fazem da Nigéria um lugar difícil para fazer negócios, mas programas de retorno voluntário ajudam o solicitante de asilo ter uma base para realizar seus projetos. (Reuters)

Por Veronica DeVore, swissinfo.ch|06. Junho 2014 

Nas últimas décadas, afluíram à Suíça milhares de requerentes de asilo procedentes da Nigéria, trazendo nas costas grandes expectativas da família. Quando chegam, recebem oferta de 7.000 dólares para darem meia-volta, regressando à casa para abrirem uma pequena empresa.
Muitos, quando voltam, acham terem fracassado, porque não se transformaram num grande executivo bem-sucedido, que regressa com considerável soma de dinheiro, afirma Katharina Schnöring, da Organização Internacional para Migração. Essa entidade trabalha com a Suíça na aplicação dos programas de retorno de requerentes de asilo – conhecido como “retorno voluntário assistido e reintegração” – RVAR

A opção de regresso voluntário à Nigéria proporciona a quem a escolhe o pagamento de, no máximo, $1.000 à vista ao deixar a Suíça e mais $6.000 em mercadorias e serviços para começar um negócio ou melhorar a própria situação. O objetivo do programa é dar aos nigerianos que voltam ao país uma opção que não seja um retorno forçado, num voo sob custódia da polícia ou seja, uma “repatriação forçada.”

“O objetivo é proporcionar um retorno com dignidade, de modo que se regresse com alguma coisa e se tenha a possibilidade de construir uma vida melhor,” afirma Katharina Schnöring. Segundo a Secretaria Federal para Migração, 90% dos cidadãos nigerianos que voltaram às suas casas em 2012 fizeram-no de maneira independente. E em 2013, chega a 544 o número de requerentes de asilo nigerianos que optaram pelo caminho de volta, no quadro do programa voluntário de retorno.

Tanto Katharina Schnöring quanto Karl Lorenz – um dos chefes da Secretaria de Migração, afirmam que na verdade o RVAR tem pouco a ver com dinheiro – os países da União Europeia e a Noruega aplicam programas de retorno voluntário para requerentes de asilo, oferecendo montantes variáveis de dinheiro, e a Suíça mantém programas similares com outras nações como o Iraque e o Kosovo, oferecendo também somas de diferentes volumes.

Em relação à Nigéria, a Suíça procura ao mesmo tempo uma ampla parceria com Lagos para lidar com problemas de migração, e o programa de retorno representa somente uma parcela do trabalho. Essa parceria reúne representantes de ambos os governos que se encontram regularmente para abordar medidas bilaterais importantes.

“Acho excepcional o enfoque holístico governamental apresentado pela Suíça (com a Nigéria): há encontros, há discussões e o programa (RVAR) está todo inserido no quadro geral da parceria suíça de migração, e não se trata de uma postura solitária,” diz Schnöring.

“Essa atitude é algo a que nos referimos como a melhor prática quando dialogamos com outros países europeus.”

A necessidade de uma atitude de colaboração surgiu quando as relações entre a Suíça e a Nigéria ficaram abaladas com a morte de um requerente de asilo nigeriano no aeroporto de Zurique, pouco antes de um voo de repatriação forçada, em 2010. Um passo importante no sentido de restabelecer as relações foi conseguir que a Nigéria aceitasse a repatriação de requerentes de asilo de seu país.

“A aceitação pelo governo nigeriano de nossa política de retorno melhorou,” disse Lorenz à swissinfo.ch. “Eles entendem que promovemos com coerência o regresso voluntário, o que facilita uma melhor aceitação de retornos forçados, porque percebem haver uma opção séria e credível. Há uma escolha e as pessoas podem fazer essa escolha.”
LEGISLAÇÃO
Nigeriano gay se complica diante da política de asilo suíça

Manifestantes em Berna protestam pela liberdade do nigeriano. O.
O. está na prisão há várias semanas e em pouco tempo envelheceu muito, na opinião de que o visita regularmente. Ele solicitou refúgio na Suíça porque, diz, queriam matá-lo no seu vilarejo. Por ser gay, mesmo seu pai seria favorável a essa medida radical. […]
Sociedade
Sugerindo escolhas

Essa opção é apresentada aos requerentes de asilo pouco depois que eles entram nos centros de acolhida, em uma sessão de terapia bem distinta dos trâmites relacionados com pedido de asilo. Mas raramente é a proposta que desejam ouvir.

Segundo O.**, requerente de asilo gay, que fugiu da Nigéria para escapar de perseguição, ele e outros, que com ele vieram, foram informados de que a chance de conseguir refúgio era “pouca ou mínima” e que a Suíça dispunha de um programa de assistência de que poderiam aproveitar. Mas ele não achou graça nenhuma nesse programa.

“Eles reprovam a gente já antes de uma entrevista,”disse O. à swissinfo.ch. Ele recusou o programa porque, afirma, “Tenho dinheiro, não vim à Suíça por dinheiro. Posso manter-me na vida.”

O. fugiu depois de descobrir que lhe fora negado asilo, receando novas perseguições na Nigéria. Atualmente ele está preso, esperando ser deportado (veja artigo, à direita, para saber mais sobre seu caso).

Apoio no terreno

De fato, diz Katharina Schnöring, o programa RVAR parece raramente atrativo aos requerentes de asilo que tudo fizeram para chegar à Europa.
“Mesmo se $7.000 possam parecer muito, eles investem bem mais (na viagem), e boa parte deles arriscam a vida,” lembra, acrescentando que também se sentem responsabilidade diante de suas famílias. Mais que em outros países, elas esperam que sejam pagas as dívidas contraídas para a viagem à Europa.

Embora sabendo da dificuldade enfrentada pelos requerentes de asilo em esquecer o sonho de viver na Suíça e encarar a realidade de voltar para casa, Karl Lorenz diz que o apoio adequado no terreno é a chave do sucesso do programa. E observa que tentativas similares de retorno na região do Chifre da África, através de ofertas de somas quase três vezes superiores, fracassaram porque não havia possibilidade de repatriação forçada ou apoio dos governos africanos, fazendo que a permanência na Suíça fosse a escolha óbvia.

“Entre seis pessoas, apenas três aproveitaram-se do programa,” diz Lorenz. “Vê-se, então, que o dinheiro em si não é o mais importante. Em circunstâncias em que o retorno forçado é impossível, onde inexistem apoio no terreno e contatos com governo, não há como aplicar a medida. É preciso dispor de outras condições para que se realizem os retornos forçados.

Todas essas condições resultaram das parcerias sobre migração, o que Christopher Middleton – colega de Lorenz – considera “extraordinário”, tendo em conta que vigoram apenas desde 2011. Logo que o governo nigeriano entendeu e aceitou a posição suíça sobre regresso voluntário e reintegração, tornou-se mais fácil buscar soluções para outros aspectos das relações entre os dois países, como problema de tráfico de drogas, no qual um grupo de policiais nigerianos trabalha na Suíça, no âmbito de um intercâmbio.

“Acho que outros países estão extremamente interessados em observar o que a Suíça tem feito com a Nigéria no tocante à identificação de instrumentos de cooperação e de discussões francas,” diz Middleton. A realização de discussões de nível superior possibilita os que tomam decisão efetuarem as mudanças necessárias.”

E Lorenz estima haver uma crescente tomada de consciência pela comunidade internacional de que a parceria da Suíça com os chamados “países de origem” de requerentes de asilo – como a Nigéria – é realmente operante.

“Os países de origem têm interesse e encontram-se por vezes em sérias dificuldades quando se toca na questão da migração, seja através de conflitos regionais ou de desenvolvimento demográfico. Não é portanto um problema unilateral. É possível enfrentá-lo unicamente mediante confiança e cooperação.”
Adaptação: J.Gabriel Barbosa

Organização suíça amplia serviços de assistência ao suicídio

A Exit é uma das duas organizações de suicídio assistido da Suíça, onde a eutanásia é legal.

A Exit é uma das duas organizações de suicídio assistido da Suíça, onde a eutanásia é legal. (Keystone)

05. Junho 2014 – 11:00

Os membros da Exit, uma das duas organizações suíças que oferecem serviços de suicídio assistido, decidiram ampliar esses serviços a idosos não-terminais.

A decisão foi tomada pelos membros durante a assembleia geral da organização, em Zurique, e define agora nos estatutos da Exit o suicídio assistido como “um direito à morte livremente responsável de uma pessoa muito velha que deseja morrer”. Com isso, os membros idosos em idade avançada não precisarão necessariamente estar sofrendo de uma doença terminal para receber os serviços.
 
Antes, todos os indivíduos que buscavam o suicídio assistido com a ajuda da Exit precisavam passar por uma série de consultas médicas para provar estar sofrendo de doença terminal. Os membros votaram que esses requisitos sejam menos rigorosos para as pessoas muito idosas que desejam morrer.
 
A Exit deve ainda definir os detalhes da ampliação dos serviços. Um grupo de apoio especial será formado para discutir e formular um compromisso específico, o que provavelmente irá incluir a conscientização dos direitos dos idosos entre o público. Segundo a organização, as mudanças nas práticas não serão feitas imediatamente e provavelmente levarão um certo tempo para entrar em vigor. A decisão deve, no entanto, antecipar o debate político em torno da questão e uma eventual necessidade de alterações na lei.
 
A questão do chamado “suicídio assistido de velhice” surgiu, segundo a Exit, com o aumento das opções de fim de vida.

Suicídio assistido: Quem decide quando é hora de ir?

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05 Junho, 2014

Duas idosas explicam porquê querem acabar com suas vidas, apesar de não sofrerem de doença terminal. A organização suíça de assistência ao suicídio Exit pretende ajudar pessoas como Claire Müller e Rösli Wendel nesse caminho sem volta. (SRF/swissinfo.ch)

 
Ao contrário da organização suíça Dignitas, que também ajuda estrangeiros a acabar com suas vidas, a Exit só oferece seus serviços para residentes permanentes e cidadãos suíços. Ela auxilia pacientes com testamentos e diretrizes pessoais, bem como cuidados de fim de vida que incluem o suicídio assistido através da ingestão de uma droga letal, o pentobarbital sódico.

A Exit já existe há mais de 30 anos e é financiada por mais de 73 mil membros que pagam taxas regulares de associação para seus serviços. A maioria dos 700 membros reunidos na Assembleia Geral de 2014 votou para estender os serviços de suicídio assistido aos idosos não-terminais. De acordo com a organização, essa foi uma das maiores participações na Assembleia Geral em 20 anos.

Adaptação: Fernando Hirschy

Especialistas criticam OSCE

Uma patrulha de policiais em 24 de abril de 2014, em Bujanovac, Sérvia.

Uma patrulha de policiais em 24 de abril de 2014, em Bujanovac, Sérvia. (Keystone)

Por Urs Geiser, swissinfo.ch 
02. Junho 2014 – 11:00

Os Bálcãs ocidentais tornam-se o maior campo de operações da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa – OSCE. Nota-se, porém, muita discordância sobre a eficácia dessa entidade internacional, presidida neste ano pela Suíça e muito envolvida atualmente com a Ucrânia.

Para se ter uma ideia das divergências basta reunir, por exemplo, um grupo de jornalistas ou analistas políticos em Belgrado e Priština e tocar no assunto OCSE. É mais que provável que a maioria expresse dúvidas sobre a utilidade e a eficiência das missões destinadas a estabilizar o Kosovo, região balcânica sacudida por fortes tensões étnicas.
 
Mas apresente essas críticas aos representantes dos 57 países membros do organismo ou de organizações não governamentais que se encontram no terreno e, sem surpresa, o tom muda completamente.
 
Uma recente missão de informação, organizada pelo Ministério suíço das Relações Exteriores, esclareceu alguns pontos e deixou mais questões pendentes, dando margem até a piadas.
 
E, de fato, não durou muito tempo para que – seja nos bastidores, seja nos bares – a OSCE fosse rebatizada com humor ‘Organização para Servir Café na Europa’. E esta não passa de uma das várias denominações jocosas.
Besa shahini, tarimbada jornalista do grupo de reflexão ‘Iniciativa para a Estabilidade Europeia’, é mais categórica.
 
“Não entendo por que a OSCE precisa de 600 pessoas no Kosovo. Não concordo que fosse necessário para as eleições (de 2013) no Norte, pois outra organização poderia muito bem ter-se ocupado da tarefa. Poderíamos ter utilizado a missão de controle para o processo eleitoral.” A jornalista lançou esse ataque durante uma mesa-redonda informal reunindo jovens especialistas.
 
Sahini realça que, tirando as eleições, o desempenho da OSCE limitou-se ao papel de um grupo de reflexão no Kosovo, a observar a aplicação de várias leis relacionadas com a minoria no Kosovo e a cooperar no processo político.
 
O mesmo tom crítico se nota em Leon Malazogu, cofundador de ‘Democracia para o Desenvolvimento’ – outro grupo de reflexão -, sediado no Kosovo.
 
Em debate de crescente intensidade no encontro, ele descreve a OSCE como organismo de “pouca serventia” e “90% inútil.”
 
“Excetuando as eleições no Norte do Kosovo e alguns relatórios interessantes sobre a observância da lei, a OSCE pode dificilmente justificar sua maciça presença.” (A missão no Kosovo é a mais importante da OSCE.) 
 
Malazogu refere-se a eleições de 2013, quando a organização foi acusada de tomar partido de políticos, em vez de apoiar ONGs que descobriram suspeitas de irregularidades.

: A Suíça e os Balcãs Ocidentais

 
02 Junho, 2014

O Ministro das Relações Exteriores suíço Didier Burkhalter, também Presidente em exercício da OSCE, a Organização para Segurança e Cooperação na Europa, fala sobre compromissos suíços para os Balcãs Ocidentais e como os projetos da OSCE poderiam ajudar a conter a emigração. (RSI, swissinfo.ch)

Visibilidade

O ceticismo persiste também entre jornalistas e correspondentes de países ocidentais.
 
Jeta Xharra, diretora da ‘Balkan Investigative Reporting Network’ (rede de jornalismo investigativo dos Bálcãs) não mede palavras ao qualificar a missão da OSCE de “inoperante.”
 
O respeitado jornalista duvida se presidência exercida pela Suíça, neste ano, fará muita diferença quanto à possibilidade de melhorar a situação.
 
Por seu lado, Walter Müller, correspondente da SRF (rádio pública suíça) na Europa do sudeste, não vai tão longe na sua crítica, embora questione a eficácia e a visibilidade dos esforços da OSCE na região.
 
“A presença de representantes da OSCE, especialmente no Vale Preševo, Sul da Sérvia, serviu muito para prevenir a violência. Mesmo assim me pergunto para que serve tanto pessoal,” alfineta Müller.    
    
No total, a OSCE empregou, em 2013, quase 2.900 pessoas nas suas 26 missões no terreno e na sua sede, em Viena. E dispõe de um orçamento de €144.8 milhões (CHF176.6 milhões).

No terreno

O mandato da maior organização de segurança do mundo – criada como um foro de diálogo entre o Leste e o Oeste, durante a Guerra Fria – é promover os direitos humanos e providenciar competência no desenvolvimento de sociedades democráticas, incluindo a aplicação da lei e a boa governança.
 
E a prioridade é a proteção das minorias no Kosovo e na Sérvia.
Entre os projetos respaldados pela força-tarefa suíça na OSCE figura um curso de quatro meses na escola secundária da cidade de Bujanovac. O objetivo é estimular os estudantes de língua albanesa a aprenderem o sérvio, visto que os conhecimentos insuficientes de linguagem reforçam a segregação numa das regiões mais pobres da Sérvia.
 
O desenvolvimento de um serviço de polícia de uma comunidade multiétnica, na mesma região, é outro elogiado programa da OSCE.
Patrulhas mistas de sérvios, albaneses e roms (ciganos doa Bálcãs) contribuíram para reforçar a confiança nas autoridades, de acordo com oficiais da polícia local e de funcionários da OSCE.
 
Sonja Licht, importante ativista política e destacada resistente ao ex-presidente Slobodan Milošević, enaltece a cooperação entre ONGs e a OSCE.
 
“Em conflitos de menor importância a OSCE desempenha papel de destaque. A entidade convenceu o governo sérvio a empenhar-se na qualificação da polícia, na segurança das pessoas e nas questões de gênero.”
 
Ela lembra ainda um projeto em benefício dos jovens roms, apoiado pela organização.
 
“É um projeto que trouxe esperança aos jovens. Mas infelizmente o programa não atraiu muita atenção do público,” lamenta Sonja Licht.

Boa reputação

O chefe da missão da OSCE em Belgrado, o suíço Peter Burkhard, reage rapidamente a uma alegada falta de visibilidade de sua organização.
“Nos Bálcãs não se precisa explicar o que é a  OSCE,” esclarece. A entidade goza de excelente reputação.”
 
E afirma que, pela sua simples presença, a OSCE facilitou a solução do conflito no Sul da Sérvia e nas regiões de Sanžak.  
 
Peter Burkhard e dez de seus funcionários superaram claramente o número de um pequeno grupo de jornalistas durante uma reunião no escritório de Belgrado sobre as atividades de sua missão, abordando a reestruturação do sistema judiciário, capacitação no campo da mídia, controle do processo democrático e luta contra a corrupção.
 
“A OSCE ajudou a Sérvia a romper o isolamento,” comenta Paula Thiede, vice-chefe da missão.
 
Gordana Jankovic, chefe da missão, aborda o que parece um dilema inerente: “Como se ilustra a criação de uma boa lei?” E prossegue: “Somos ativos nos bastidores.”  
 
O Ministro suíço das Relações Exteriores, Didier Burkhalter – atual presidente da OSCE – explica os interesses da Suíça em promover projetos de integração no Kosovo e na Sérvia.

OSCE e Suíça

A Suíça exerce, em rodízio, neste ano a presidência da OSCE (Conferência para a Segurança e Cooperação na Europa) e apoia o mesmo papel a ser desempenhado pela Sérvia, em 2015. É segunda vez que a Suíça dirige essa organização. A primeira foi em 1996.
 
Uma das prioridades da atual presidência pela Suíça – exercida pelo ministro das Relações Exteriores, Didier Burkhalter – é a reconciliação e a cooperação na região dos Bálcãs Ocidentais.
 
A OSCE mantém atualmente 16 campos de operações. A missão no Kosovo é a maior, com 600 pessoas e um orçamento de mais de €20 milhões, em 2013.
 
A missão da OSCE na Sérvia, chefiada pelo suíço Peter Burkhard, é integrada por 166 pessoas e contou com um orçamento regular de €7 milhões no mesmo período, segundo informes publicados pela organização.

Confuso?

Ficar nos bastidores é um papel pouco adequado para o porta-voz da missão da OSCE no Kosovo, Nikola Gaon. Personagem eloquente, nada lhe escapa, pelo menos todas as críticas a seus superiores.
 
Seja na visita aos escritórios da rede de jornalistas de investigação em Priština, seja num encontro de analistas políticos, o porta-voz da OSCE sabe quando e como corrigir um equívoco.
 
Às vezes seu trabalho é facilitado. Por exemplo, quando Naim Rashiti, analista do Grupo de Pesquisa Política dos Bálcãs comenta: “Estou feliz porque a OSCE desempenha um papel no diálogo, pois as Nações Unidas perderam essa batalha para sempre.”
 
Rashiti considera que o monitoramento será uma função importante para a OSCE, levando Nikola Gaon a responder que são também importantes o “desenvolvimento institucional” e o papel não executivo da organização.
 
“A OSCE é uma vítima empacada em consequência de desentendimento entre os estados membros. Rússia e Sérvia, por exemplo, insistiram em manter a missão nas dimensões atuais, com um mandato modesto,” observa Naim Rashiti.
 
Os incrédulos quanto à utilidade da OSCE nos Bálcãs podem se consolar com um outro apelido que a entidade recebeu no Kosovo: ‘Organization for Spreading Confusion in Europa’ (organização para espalhar a confusão na Europa).

Adaptação: J.Gabriel Barbosa

Um abrigo suíço para escritores perseguidos

Chenjerai Hove, poeta, romancista, ensaísta, ativista de direitos humanos e da oposição a Robert Mugabe, foi exilado de Zimbabwe em 2001 graças a uma primeira tentativa de cidades refúgio. Ele participou da fundação da ICORN e vai discursar em Solothurn.

Chenjerai Hove, poeta, romancista, ensaísta, ativista de direitos humanos e da oposição a Robert Mugabe, foi exilado de Zimbabwe em 2001 graças a uma primeira tentativa de cidades refúgio. Ele participou da fundação da ICORN e vai discursar em Solothurn.(Deutschweizer Pen Zentrum )

Por Ariane Gigon, swissinfo.ch 
30. Maio 2014 – 11:00

No mundo inteiro, há cidades que abrigam escritores perseguidos por suas opiniões. A Suíça não faz parte desta rede. Autores suíços de língua alemã e a cidade de Genebra, na Suíça francesa, pretendem corrigir esta lacuna e apresentar um projeto durante as Jornadas Literárias de Solothurn.

Naeimeh Doostdar Sanaye estava em Kuala Lumpur com seu bebê e seu marido, quando recebeu a notícia: o seu pedido de refúgio tinha sido aceito e a cidade de Malmö, na Suécia, convidou ela e sua família a se estabelecer no país. A jornalista, autora e ativista dos direitos humanos iraniana, presa em 2010, deve seu “resgate” à Rede Internacional de Cidades Refúgio(“International Cities of Refuge Network”, ICORN). Seu testemunho foi recolhido pelo site desta organização fundada em 2006 e baseada na Noruega.
 
O que Malmö propôs à autora iraniana, nenhuma cidade da Suíça pode oferecer, pelo menos por enquanto. A Suíça está totalmente ausente do mapa da ICORN, que atualmente conta com 44 cidades refúgio no mundo, de Tromsø (Noruega), a Miami, Cidade do México ou Paris.
 
Para Adi Blum, músico, autor e diretor da organização de escritores “PEN”, na Suíça alemã, essa ausência não é justificável. “A Suíça se orgulha de sua tradição humanitária, mas apesar de sua riqueza, ela não participa do ICORN. Para nós, é óbvio que algo deve ser feito”, disse.

Debate em Solothurn

“Nós” é um trio formado porde Adi Blum e dois romancistas, Melinda Nadj Abonji e Ulrike Ulrich. No ano passado, eles fizeram um apelo por um financiamento participativo na internet. “Reunimos mais de 6 mil francos em 40 dias, isso prova que nosso projeto desperta grande interesse”, se alegra Adi Blum. A Associação de Escritores da Suíça (AdS) também apoia a ideia.
 
O projeto será discutido durante as Jornadas Literárias de Solothurn, que abre esta sexta-feira, 30 de maio. O evento convidou o escritor Chenjerai Hove, que conseguiu fugir do Zimbabwe através da rede de cidades refúgio.
 
O projeto e seu orçamento foi enviado a várias cidades e fundações. Zurique recusou, argumentando que o programa de residência para escritores da cidade já cobre parcialmente os escritores perseguidos. Berna também mantém um programa desse tipo.
 
Lucerna, no entanto, respondeu positivamente, diz Adi Blum. Contatado, o departamento cultural municipal não quis se manifestar, pois a decisão final ainda não foi tomada. A bolsa pode ser fornecida por uma fundação cultural.
 
Porque não basta só aderir ao ICORN (1500 euros por ano) e encontrar um apartamento para os escritores. “É preciso acompanhar a pessoa todos os dias, ajudar a lidar com as autoridades, apresentar a cultura literária suíça, organizar leituras, palestras, discussões, reuniões e interagir com outras cidades refúgio”, explica Adi Blum . O orçamento para o primeiro ano de funcionamento pode, assim, chegar a 136 mil francos.

Lições do passado

A organização, como a ICORN, quer evitar os erros que levaram à falência um primeiro projeto de cidades refúgio, criado após a fatwa de 1994 contra o escritor indiano Salman Rushdie. Mal gerida, a experiência durou apenas dez anos. Berna chegou a acolher dois autores antes de deixar o programa e Lausanne um.
 
Nascida das cinzas desse primeiro teste, a ICORN profissionalizou totalmente a organização do programa. A escolha dos “fugitivos” é realizada em conjunto com o comitê dos escritores presos da PEN Internacional, que mantém uma lista de autores perseguidos (mais de 800).
 
A colaboração com as cidades membros é objeto de um contrato. A sede da rede apoia a cidade em seus esforços, mas é a cidade que deve fornecer autorizações de residência, seguro e uma bolsa de estudos.
 
A estadia é de dois anos. “Para as pessoas traumatizadas, é preciso tempo”, explica Helge Lunde, diretor da ICORN. “Um ano passa depressa”, diz.

Aumento na demanda

A ICORN vem recebendo cada vez mais demandas a cada ano. “O número aumentou de 40 para 70 em 2013”, diz Helge Lunde. “Precisamos de mais cidades! Mas é a qualidade que conta, não a quantidade. As cidades devem estar bem preparadas”, explica.
 
Já o destino das pessoas em fim de estadia é muito variado. “Algumas voltam para casa, outras conseguem um visto de permanência ou outra residência. Para as outras, buscamos soluções na rede. Mas os desafios são muitos, já que as dificuldades com vistos só aumentam”, diz Helge Lunde.

Próxima decisão em Genebra

Helge Lunde já esteve em Genebra, onde foi lançado um projeto há vários anos. “Seria muito importante para nós que a cidade de Rousseau fosse membro da nossa rede”, argumenta. É precisamente lá, na casa onde nasceu Jean-Jacques Rousseau, que os escritores perseguidos poderão, em breve, encontrar um lar.
 
A “Maison de Rousseau et de la Littérature” (Casa de Rousseau e da Literatura) planeja se expandir. “Pretendemos usar os dois últimos andares da casa como residência, especialmente para escritores no exílio”, diz Isabelle Ferrari, responsável pelo projeto da ICORN para a instituição.
 
“Mas é muito importante para nós que Genebra se comprometa formalmente neste processo, aderindo à rede ICORN”, acrescenta. “Não se trata, de fato, de só disponibilizar um apartamento para um escritor, mas afirmar publicamente como parte de um organismo internacional, o desejo de Genebra de se manter fiel a sua tradição de acolho e de lugar de refúgio”, explica.
 
Isabella Ferrari é clara: “Esperamos que, em 2015, Genebra se torne a primeira cidade suíça a integrar a ICORN, abrindo o caminho para colaborações com sessenta cidades do mundo que darão uma ressonância internacional para nossas iniciativas”.
 
Sami Kanaan, novo prefeito da cidade a partir de 1° de junho, confirma querer apresentar um projeto concreto para a adesão à ICORN até o final do ano, com uma possível busca de recursos externos para equilibrar o orçamento. “Seria quase um absurdo que a cidade dos direitos humanos não esteja envolvida neste processo”, declarou.

Adaptação: Fernando Hirschy

A Suíça não sabe mais que Forças Armadas ela quer

DEPOIS DO NÃO AO GRIPEN

Os eleitores suíços derrubaram a compra do Gripen em maio.

Os eleitores suíços derrubaram a compra do Gripen em maio.(Reuters)

Por Marc-André Miserez, Andreas Keiser, swissinfo.ch 
29. Maio 2014 – 11:00

A rejeição histórica da compra dos aviões de combate Gripen pelos eleitores suíços dia 18 de maio coloca em questão o papel do exército, em geral, e principalmente o da aeronáutica. A pergunta não é saber se o país quer ou não as Forças Armas, mas qual função elas devem desempenhar.

“Em si, não foi um voto sobre as forças armadas porque teríamos perdido”, afirma Jo Lang, ex-deputado ecologista e membro fundador do Grupo por uma Suíça Sem Exército (GSsA). Ele precisa que “foi um voto contra os novos aviões de combate e também contra o aumento das despesas militares; foi ainda um basta à arrogância militar, da época em que o exército era considerado como uma vaca sagrada.”
 
 
Do outro lado, o brigadeiro Denis Froidevaux, presidente da Sociedade Suíça dos Oficiais (SSO) também julga que o voto de 18 de maio não foi contra as Forças Armadas. “Os pacifistas, os antimilitaristas representam 30 a 35% do eleitorado e, nessa votação, eles obtiveram 53%. Portanto, a diferença não é de pessoas que votaram contra o exército. Eles votaram contra o avião ou contra o ministro da Defesa, Ueli Maurer ou contra o partido dele, o Partido do Povo Suíço (SVP/UDC), ou os eleitores estão um pouco desorientados e não mais muito bem como se deve orientar a política de segurança.”

A busca de um plano B

A Suíça poderia comprar no futuro até 44 novos aviões de combate, propõe Alex Kuprecht, senador SVP e presidente d comissão de política de segurança. O custo da substituição da frota de F/A-18 e de Tiger é estimado entre 6 e 8 bilhões de francos suíços.
 
Antes da votação, o ministro da Defesa, Ueli Maurer, tinha insistido que “não havia plano B”. A Força Aérea Suíça tem atualmente 86 aviões de combate:  32 F/A-18, que serão operacionais até pelo menos 2030, e 54 F-5 Tiger. Mas a discussão para substituir os F/A-18 vai começar brevemente, afirma Ueli Maurer. A compra dos 22 Gripen, rejeitada domingo, visava substituir os Tiger, que serão brevemente retirados da circulação. 
 
Como os Tiger não serão substituídos pelos Gripen, Alex Kuprecht estima que a Suíça comprará cerca de 44 aparelhos, como declarou o senador à rádio SRF.
 
Por sua vez, a companhia francesa Dassault afirma que sua oferta de venda de Rafales inicialmente feita à Suíça não “vale mais”, mas poderia volta a ser, basta solicitar.
 
(ats)

Exército em reforma

Na Suíça, a política de segurança é objeto de relatórios periódicos, que saem agora a cada quatro anos, ao invés de a cada dez anos anteriormente. O próximo documento é aguardado dentro de alguns meses, mas na SSO teme-se que ele seja idêntico ao de 2010.”
  
“Temos cada vez mais dificuldade em demonstrar a necessidade de um exército capaz de cumprir suas três missões básicas que são combater, proteger e ajudar”, explica Denis Froidevaux. “Não há consenso político. Uma parte do eleitorado quer suprimir as forças armadas, outra quer apenas as missões proteger e ajudar e outra parte ainda quer manter as três missões.”
 
Houve várias reformas do exército nos últimos anos, como lembra Hans-Ulrich Ernst, que foi secretário-geral da Secretaria Federal Militar (hoje DDPS) de 1979 A 1996. Mas, ou elas foram concebidas antes que queda do Muro de Berlim, ou foram “edulcoradas pelo parlamento”.  Sem contar as que foram aplicadas com má vontade”. Resultado: “o dever ainda não foi feito e ainda não foram remediadas as fraquezas atuais do exército suíço.”
  
Para Hans-Ulrich Ernst, a principal dessas fraquezas “não é o número absoluto, mas o fato que temos muitos na ativa e não muitos reservistas. De fato, temos dois exércitos: as escolas de recrutas e os soldados formados. Dos 260 dias de serviço, um soldado passa mais de metade do tempo na escola de recrutas. É um sistema ruim e não somente na Suíça. A norma internacional é oito semanas de formação básica.”
  
Também para Jo Lang, o exército é muito grande e até “mantido artificialmente desse tamanho por razões ideológicas; o problema fundamental do exército é que ele não justificar seu tamanho por uma política de segurança. Ela prevê 20.000 homens para a defesa, mas tem 100.000. A única razão dos 100.000 é para manter o serviço militar obrigatório”, argumenta o pacifista.

Por que não a OTAN?

Uma tradição que os Suíços parecem manter, pois em 22 de setembro de 2003, quase três quartos dos eleitores votaram contra uma iniciativa do GSSsA visando suprimir o serviço militar obrigatório. Mas, enquanto essa questão não volta, a da compra de novos aviões será recolocada brevemente com a retirada anunciada dos Tiger F-5.
 
Recentemente, o caso de um avião de linha etíope desviado para o aeroporto de Genebra fez com que os suíços tomassem consciência que a Força Aérea delegava a certas horas sua missão a aeronáutica francesa, italiana ou alemã. Ora, por que então a pequena suíça não adota de uma vez à proteção da OTAN?
 
“Sim, mas a Suíça escolheu a neutralidade”, responde Denis Froidevaux. “E não podemos aderir a uma organização como a OTAN sem a abandonar. Me explique, politicamente, quais seriam as chances de uma adesão à OTAN diante dos eleitores …zero!”
 
Para Hans-Ulrich Ernst, a questão que se coloca não é a da adesão. “Sendo membro ou não, ninguém poderá atacar a Suíça – aéreo ou terrestre – sem entrar em conflito com a OTAN. Nesse setor, nós subimos no trem se pagar a passagem”, afirma o ex-secretário-geral do DPPS.

Horários de escritório

Christophe Keckeis, que foi comandante das Forças Armadas de 2004 a 2007, ficou irritado com a cobertura da mídia no caso do avião desviado para Genebra. “Todo mundo guardou que a Força Aérea só operava nos horários de escritório. Mas poderia ter sido dito que os acordos como nossos vizinhos funcionaram perfeitamente e que cada um fez seu trabalho. Disso ninguém falou.”
 
Para “vender” a compra de um novo avião de combate ao povo suíço, o homem que fez toda a carreia na Aeronáutica está convencido que é preciso lutar no terreno da informação. Muita gente ignora totalmente para que serve a Força Aérea Suíça. “Todo dia, nosso território é sobrevoado por cerca de 3.500 aviões civis. E como alguns ainda ignoram o respeito das regras do ar, é preciso intervir.”
 
É o caso quando um avião não responde, que falta um plano de voo ou que tem uma avaria no rádio, por exemplo. Nesse momento, os aviões de caça ou identificar o aparelho, obrigá-lo a mudar de rota ou a aterrissar. “Em média anual, tem praticamente uma intervenção por dia”, afirma Christophe Keckeis.

Uma socialista na Defesa?

Para ele, de qualquer maneira, o voto contra o Gripen nada tem a ver com a política de defesa. Tendo participado a numerosos encontros antes da votação de 18 de maio, o ex-comandante das Forças Armadas sentiu uma clara vontade sancionar o SVP devido à votação de 9 de fevereiro, quando por pequena maioria os eleitores aceitaram limitar a imigração em massa. “As pessoas tinham a impressão de ter sido enganadas pelo SVP e tinham uma real vontade de revanche.”
 
Denis Froidevaux se questiona se um outro ministro que não Ueli Maurer teria defendido melhor o Gripen. “Não tenho certeza”, admite o presidente dos oficiais suíços. “Em contrapartida, me parece claro que o DDPS deverá um dia mudar de partido. Tem muito tempo que política de defesa é colorida 100% SVP (três ministros em 19 anos, ndr). O que seria desse exército se o Ministério fosse dirigido por uma mulher socialista? Seria salutar ou suicida? Não tenho resposta.”

Adaptação: Claudinê Gonçalves

Rússia pressiona herdeiros de Rachmaninoff por venda de casa na Suíça

AFP – Agence France-Presse

28/05/2014 

A Rússia deseja concluir a compra do chalé que o compositor russo Sergei Rachmaninoff tinha na Suíça, por 14 milhões de euros, apesar das divergências entre os herdeiros do músico, informa o jornal Izvestia.

Segundo o jornal, o presidente russo, Vladimir Putin, solicitou em outubro de 2013 ao ministério da Cultura a conclusão da compra do chalé Senar, uma propriedade construída por Rachmaninoff nos anos 1930 nas margens do lago dos Quatro Cantões, no coração da Suíça, onde morou até 1939.

“Estamos dispostos a comprar a propriedade pelo preço fixado antes pelos herdeiros: 17 milhões de francos suíços”, disse em uma entrevista ao Izvestia o ministro da Cultura, Vladimir Medinski.

Um mecenas russo seria responsável pela aquisição em nome da Rússia, segundo o ministro, que se negou a revelar a identidade.

A ideia de vender a propriedade foi de seu neto, o também compositor Alexander Rachmaninoff, mas ele faleceu em novembro de 2012.

Desde então, os outros herdeiros do músico, sua neta e três bisnetos, não conseguem chegar a um acordo sobre a venda e a distribuição do dinheiro, afirma o jornal, que cita o ministro da Cultura e a viúva de Alexander Rachmaninoff, Natalia.

O pianista Denis Matsuev, diretor artístico do Fundo Rachmaninoff que intercedeu ante Putin para a realização da compra, sempre disse que acredita na concretização da operação.

“Penso que será decidido em breve, nos primeiros meses do verão” (hemisfério norte), afirmou, antes de anunciar que deseja organizar um festival ao ar livre na propriedade.

A Rússia tenta, desde que Putin chegou ao poder, recuperar parte de sua história perdida na emigração, em particular com a compra de obras de arte e documentos históricos, ou a reivindicação de sua autoridade sobre edifícios e locais históricos como a catedral ortodoxa de Nice (sul da França) ou o cemitério russo de Sainte-Geneviève-des-Bois, perto de Paris.

Sergei Rachmaninoff (1873-1943) fugiu do país durante a revolução de 1917. Inicialmente morou em Paris e depois na Suíça, mas morreu nos Estados Unidos.