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O segredo era saber maturar o queijo

Stephan Gaehwiler e seu filho, Lucas, exibem o queijo alpino produzido na fazenda em Goías.

Stephan Gaehwiler e seu filho, Lucas, exibem o queijo alpino produzido na fazenda em Goías. (swissinfo)

Por Alexander Thoele, swissinfo.ch
Brasília
07. Maio 2014

Um suíço emigra para uma região rural do cerrado no Brasil e encontra uma fórmula de fazer um queijo tão bom como nos Alpes, mesmo com as adversidades do clima e o perigo das serpentes. Hoje o produto agrada os paladares dos gourmets da capital.

A estrada de terra parece que chegou ao fim. Nesse forte declive cheio de pedras e buracos, o carro não passa mais se uma chuva pesada cair. Do outro lado da cerca, um grande descampado coberto pelas típicas árvores do cerrado e outros arbustos rasteiros. Embaixo de uma árvore dezenas de olhos, escuros, curiosos de vacas pardas. Será que chegamos ao sítio do queijeiro suíço?

Para quem sai de Brasília são 170 quilômetros na direção oeste até chegar à região de Corumbá de Goiás. Depois de abandonar o asfalto ainda há muito chão a percorrer. Ao passar por alguns mata-burros, surge enfim a placa indicando o sítio Pica-Pau. Stephan Gaehwiler, 55 anos, abre o grande portão e apresenta o que chama de “meu paraíso”, 165 hectares de terra espalhados por suaves colinas. Os postes com os cabos de energia elétrica indica que a civilização já não está tão distante.

Nascido em Pieterlen, um pequeno vilarejo nas proximidades da capital Berna, mas crescido na região de montanhas do cantão de Zurique, Gaehwiler sonhava desde criança em ser fazendeiro. “Porém era um sem-terra”, brinca com um forte sotaque suíço-alemão, para justificar o que o levou a emigrar. Depois de concluir uma formação profissional agrícola, estagiou no Canadá por seis meses e então foi picado pelo mosquito da aventura. Em 1982 desembarcou no Brasil para trabalhar em uma fazenda de dez mil hectares na cidade de Baliza, em Goiás, cujos proprietários eram conhecidos do seu pai. “Era um lugar distante de tudo, sem televisão, energia e distante cinquenta quilômetros do vilarejo mais próximo”, lembra-se, contando também nunca ter sido picado, apesar da grande quantidade de serpentes venenosas e escorpiões no mato.

De trutas ao queijo

A vontade de ter seu próprio negócio levou-o a pedir demissão e procurar outras terras. A ideia inicial era criar trutas em uma região nas proximidades de Brasília. Ao descobrir que a temperatura da água não propiciava as condições ideias, vasculhou e descobriu um sítio à venda na região de Corumbá de Goiás, próximo à cidade turística de Pirenópolis. “Então pensei que o melhor seria produzir algo de valor agregado, o queijo”. O gado foi comprado no Paraná. “Tinha de ser a raça Braunvieh, que é muito boa para a produção de leite e também de dócil e manso”. Hoje já são cem vacas, sendo que 24 produzem leite.

Assim como seus compatriotas nos Alpes suíços, o trabalho na fazenda Pica-Pau começa bem cedo. Gaehwiler e seus dois filhos acordam às cinco horas da manhã. Depois de recolher as vacas, a ordenha é feita. Nicolaus, 19 anos, cuida dos animais. Lucas, 20, faz o queijo. “E o pai fiscaliza tudo”, brinca o suíço. No total, a família produz mensalmente 600 quilos de queijo do tipo alpino – ideal para o prato típico suíço raclette – ; tomme e o chancliche, uma especialidade árabe indicada a ele por um técnico agrícola devido às condições locais. Depois os produtos são distribuídos pessoalmente por Gaehwiler ou pela namorada, Cornelia Casotti, imigrante suíça radicada em Brasília e secretária do embaixador da Suíça, diretamente em restaurantes e lojas de iguarias finas na capital.

O que era apenas um meio de sobrevivência, acabou se tornando um verdadeiro negocio. “E olha que aqui no Brasil não existe subvenções para pequenos produtores como eu, ao contrário do que ocorre na Suíça”, afirma o suíço sem esconder o orgulho. Os queijos se tornaram um sucesso, especialmente por estarem tão próximos do sabor original dos tipos suíços. Inclusive o rotulo tem brasão vermelho com a cruz branca abaixo da indicação “produto artesanal rural”.

Eleitores decidem compra de aviões de caça

BATALHA PELO GRIPEN

O Gripen e comandante do exército suíço André Blattmann enfrentarão um teste decisivo na votação de 18 de maio.

O Gripen e comandante do exército suíço André Blattmann enfrentarão um teste decisivo na votação de 18 de maio. (Keystone)

Por Urs Geiser, swissinfo.ch
04. Abril 2014

Na década de 1990, pacifistas e políticos de esquerda fracassaram na tentativa de impedir compra de novos caças para a Força Aérea Suíça. Vinte anos depois, eles voltam à carga, desafiando decisão parlamentar de adquirir 22 aviões da marca sueca Gripen.

No dia 18 de maio deste ano de 2014 cabe ao povo referendar ou não o projeto do Ministério da Defesa de gastar CHF 3.1 bilhões (US$3.5 bi), no próximo decênio, para a compra de aparelhos de caça leves, JAS-39, fabricados pela empresa aeroespacial Saab.

Os caças, ainda em fase de aperfeiçoamento, visariam substituir os já envelhecidos Tigre F-5 e corroborar na proteção do espaço aéreo suíço até o ano de 2050.

O desfecho dos votos deve pôr fim a dez anos de avaliações técnicas e debates políticos sobre o caráter de uma renovação parcial da Aeronáutica Suíça.

Em setembro de 2013, ambas as câmaras do Parlamento aprovaram a aquisição dos 22 caças, apesar de oposição manifestada pela esquerda e por um pequeno partido centrista.

Uma aliança dos Socialistas, dos Verdes e do minúsculo Verdes Liberais – bem como do grupo pacifista, ‘Suíça sem Exército’ – lançou um referendo sobre a questão, depois de coletar 66.000 assinaturas, suficientes para exigir um pronunciamento decisivo pelo povo.

Os riscos reais, os perigos e ameaças são de natureza civil. A segurança deveria passar pela saída do nuclear e uma política climática e não pela compra dos caros Gripen. ”

Jo Lang, députado ecologista

Desperdicio de dinheiro público

Para Evi Allemann, proeminente senadora socialista, a compra do Gripen, além de desnecessária, é um desperdício do dinheiro público, de custo excessivamente alto.

“A aquisição e a manutenção da frota vai custar mais de 10 bilhões de francos,” diz a senadora. Esta soma seria mais bem empregada em educação, transporte público ou apoio ao seguro de aposentadoria e invalidez.

Evi Allemann alega que a Suíça, estando rodeada por países amigos, não precisa de novos aviões de caça para vigiar seu espaço aéreo. Além do mais, argumenta ainda, há o risco de comprar um tipo de caça que ainda não passa de protótipo e é inferior ao F/A-18 Homet, que, atualmente, constitui o pilar da Força Aérea Suíça.

O modelo Gripen que a Suiça deseja adquirir existe, de fato, unicamente no papel. Ele deve ser desenvolvido a partir de um avião a jato existente.

Jo Lang, conceituado membro do Partido Verde e cofundador do grupo ‘Suíça sem Exército’, acredita que o Parlamento e o Governo optaram por prioridades erradas.

“Os verdadeiros riscos, perigos e ameaças são de natureza civil. Segurança, entende Lang, seria desistir da energia nuclear e adotar uma política ambiental em vez de gastar bilhões na compra de caças Gripen.”

Força Aérea Suíça

A Aeronáutica Suíça é constituída atualmente de 32 F/A 18 Hornet e 54 F-5 Tiger.

A frota de Tiger deve ser substituída por 22 caças JAS-39 Gripen.

A Força Aérea inclui ainda aviões de treinamentos suíços da marca Pilatus e mais de 40 helicópteros, bem como ‘drones’ e aviões especiais de transporte.

O Gripen sueco concorre com o Rafale francês, da empresa Dassault, e com o Eurofighter, do consórcio europeu EADS.

Primeiro segurança

No entanto, partidários da aquisição do aparelho dizem que a segurança do país é o principal motivo da modernização da frota da Força Aérea.

Jacob Buchler lidera um comitê multipartidário em campanha pelo caça Gripen.

“Estão em jogo a segurança de nosso país e a proteção de nossa população nos próximos 30 anos,” afirma o parlamentar do Partido Democrata Cristão, de centro-direita.

Segundo ele, ninguém sabe o que o futuro nos reserva e se a Suíça será atingida por um conflito sobre recursos naturais, incluindo água, ou se irá surgir uma grave disputa sobre energia, alimentação, trabalho ou informações.

O comitê, integrado por representantes de várias agremiações – Partido do Povo Suíço, Partido Democrata Cristão, Partido Radical e Democratas Conservadores, além de representantes do setor da engenharia – insiste que a Suíça precisa dos caças suecos como garantia de uma defesa aérea confiável e acessível.

Procurando rebater alegações de compra luxuosa, Corina Eichenberger, senadora do Partido Radical, de centro-direita, afirma: “O Gripen não é uma Rolls-Royce. É um moderno e confiável tração quatro rodas.”

Dois outros aviões de caça foram eliminados durante longo processo de avaliação, realizado por autoridades suíças competentes.

A segurança do nosso país e a proteção da população nos próximos 30 anos é que estão em jogo. ”

Jakob Büchler, deputado democrata-cristão

Prosperidade e segurança

O ministro da Defesa, Ueli Maurer, tem sido um entusiasta defensor desses caças. Ela argumenta que a Suíça se pode permitir o luxo de despender dinheiro nesse modelo de avião para colaborar na segurança da Europa, frisando que o Gripen vale seu preço, e que a neutra Suécia é um ideal parceiro comercial.

Saab propõe “um interessante acordo de compensação” a empresas suíças à altura de 2.5 bilhões de francos aproximadamente, diz o ministro.

Em março, o grupo tecnológico estatal, Ruag, recebeu da Saab um multimilionário contrato sobre desenvolvimento e produção de “payload mountings”, ou seja, mecanismos para transporte adicional de tanque de combustível, mísseis ou sistemas de reconhecimento.

Empresas suíças do setor de engenharia, maquinaria e indústria relojoeira, bem como pesquisadores em universidades do país esperam também ser beneficiados. Os negócios ligados ao setor devem incrementar a criação de aproximadamente mil empregos, nos próximos dez anos

Ueli Maurer diz que a projetada aquisição dos aparelhos é um compromisso político e o resultado de anos de debates, realçando que a Aeronáutica Suíça reduziu sua frota para menos de 90 aviões. Nos anos 1990, eram cerca de 300 aparelhos.

CICV: Delegados em pleno trabalho

História

Para os partidários, a oposição aos caças representa a última tentativa dos pacifistas de solapar as Forças Armadas.

Em 1993, os eleitores rejeitaram proposta de moratória sobre a compra de aviões de caça após uma movimentada campanha do grupo ‘Suíça sem Exército’ e ampla campanha oposta, em favor da aquisição, liderada pelo Ministério Suíço da Defesa. A decisão popular preparou o caminho para a compra de 34 F/A 18 Hornets.

Tratava-se da segunda iniciativa dos pacifistas. A primeira, em 1989,  provocou rebuliço, pois um terço dos votantes aprovou a abolição do Exército.

Em 2009, o grupo reuniu assinaturas suficientes dos eleitores para um projeto de suspender a aquisição de aviões militares. A iniciativa esvaziou-se quando o governo abandonou seus planos.

Mas reagindo a uma decisão parlamentar do ano passado, o grupo coletou rapidamente assinaturas necessárias para exigir nova votação nacional sobre a questão.

Adaptação: J.Gabriel Barbosa

Iniciativas apostam em medos e estereótipos

DEMOCRACIA DIRETA

Diante do Palácio Federal, 117.000 assinaturas para uma iniciativa da Juventude Socialista contra a especulação dos gêneros alimentícios.

Diante do Palácio Federal, 117.000 assinaturas para uma iniciativa da Juventude Socialista contra a especulação dos gêneros alimentícios. (Reuters)

Por Frédéric Burnand, swissinfo.ch 
30. Abril 2014 

Várias iniciativas populares dos últimos anos colocaram abertamente os estrangeiros como bode expiatório. Será preciso restringir este direito? Um debate que tem agitado a opinião suíça desde o primeiro uso desse instrumento emblemático da democracia direta, em 1893.

“As boas almas que acreditaram distinguir no novo artigo constitucional tendências humanitárias, aceitando a jogada dos antissemitas com sua aprovação, devem reconhecer que estavam erradas. (…) Não é porque não foram avisadas.”
 
Assim, um artigo no Journal de Genève comenta a aprovação, por 60% dos eleitores, de uma iniciativa lançada pelas sociedades de proteção dos animais de língua alemã, em 20 de agosto de 1893. Combatida pelos poderes executivo e legislativo do país, o artigo constitucional proibia “o abate de animais sem serem atordoados antes” ou “o abate de bovinos em uso entre os judeus”, como especificado pelos adversários desta primeira iniciativa popular da história da Suíça.
 
Nos arquivos do Journal de Genève (hospedado no site do jornal Le Temps), lemos este aviso de um comitê de adversários aos “zoófilos”, como são chamados na época os defensores dos animais: “O direito de iniciativa que se inicia hoje não deve se tornar um instrumento de opressão nas mãos de uma raça contra outra, de uma fração do povo contra outra”.
 
Como observa Johanne Gurfinkiel, secretário-geral da Coordenação Intercomunitária contra o Antissemitismo e a Difamação (CICAD), para alguns iniciantes e eleitores tratava-se de “punir os judeus da Suíça que haviam acabado de se tornar cidadãos suíços, graças principalmente à pressão da França e dos Estados Unidos”.
 
No início de 2000, o Conselho Federal (governo) tentou revogar esta lei com efeitos discriminatórios. O governo acabou abandonando o projeto para evitar uma campanha que prometia ser violenta e discriminatória, desta vez contra os muçulmanos.

O ESTRANGEIRO EM CARTAZ

Do perigo vermelho ao perigo muçulmano

“A Suíça para os suíços”, proclamava um cartaz de 1919. Ao longo da história moderna da política suíça, o tema da imigração volta regularmente. O estrangeiro é um dos temas prediletos dos cartazes de campanha eleitoral.  […]

 

Xenofobia

Nos anos 70, uma série de iniciativas visando os trabalhadores imigrantes alimentou campanhas particularmente virulentas. Começando com a chamada iniciativa Schwarzenbach, que pretendia limitar o número de estrangeiros na Suíça. “Depois de debates acalorados, a iniciativa foi rejeitada por pouco pelo povo em 1970”, diz o Dicionário Histórico da Suíça.
 
Durante a década de 2000, os estrangeiros foram novamente objeto de diversas iniciativas populares, na maioria das vezes iniciadas ou apoiadas pelo SVP (Partido do Povo Suíço, na sigla em alemão) e contestadas por outros partidos políticos. Mais uma vez, as campanhas para os referendos estigmatizavam os estrangeiros, com destaque especial para a iniciativa contra a construção de novos minaretes, que ganhou 57,5% dos votos em novembro de 2009.
 
Sem alvejar uma comunidade em particular, o artigo constitucional impondo quotas de estrangeiros adotado em 9 de fevereiro de 2014 também reflete uma desconfiança com relação à Europa e aos estrangeiros que vêm à Suíça. O que levou o presidente alemão a reagir publicamente na própria Suíça. Um fato inédito.
 
No início de abril, Joachim Gauck fez questão de frisar que não queria e não podia imaginar que um país como a Suíça, tão diversa e que nunca tinha passado por uma ditadura, se distanciasse da Europa.

Direitos humanos

Alguns observadores e políticos suíços se dizem preocupados com o crescente número de iniciativas que misturam medo e estereótipos, como a que pretende reduzir drasticamente o número de estrangeiros autorizados a morar na Suíça, a iniciativa ECOPOP, que será votada este ano.
 
Isto fez o constitucionalista Andreas Auer fazer a seguinte observação: “O clima bélico no qual alguns partidos empurram nossas relações com os estrangeiros me preocupa. Há um aumento de iniciativas problemáticas em termos de direitos humanos”.
 
Será necessário, portanto, limitar a democracia direta para se proteger das paixões políticas e da xenofobia que ela permite expressar?
 
Como observou o Dicionário Histórico da Suíça, vozes se levantaram nos primórdios do direito de iniciativa para assinalar “os perigos de uma instituição que poderia servir como instrumento nas mãos de demagogos ou dar uma influência indevida a pequenos grupos bem organizados”.
 
Presidente da Comissão Federal contra o Racismo, Martine Brunschwig Graf ressalta o primeiro filtro que é o Parlamento suíço: “Um texto racista ou discriminatório será invalidado pelo parlamento. Debates são realizados para determinar se uma iniciativa é contrária ao direito internacional e aos compromissos internacionais assumidos pela Suíça”.
 
A ratificação pela Suíça da Convenção Europeia dos Direitos Humanos (em vigor desde 1974) e a adoção pelo povo, em 1994, da norma antirracista – o artigo 261bis do Código Penal Suíço – representam um marco, pelo menos para os defensores dos direitos humanos.
 
“Até 1974, os direitos humanos eram garantidos no nível da Constituição Federal e das constituições cantonais”, diz Andreas Auer.
 
Ao ratificar a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, os países europeus concordaram em não serem soberanos nesta área, beneficiando assim o Tribunal de Estrasburgo. “Um cidadão poder processar o governo do seu país em uma instância internacional é uma realização extraordinária da proteção dos direitos humanos”, diz Andreas Auer.

Arbitrariedade

Em outros círculos políticos, alguns acreditam que após a votação de 9 de fevereiro, que surpreendeu toda a classe política, seria bom reforçar as condições para o exercício do direito de iniciativa.
 
Propostas que deixam Andreas Auer em dúvida: “Sempre que surge a questão, aparecem dezenas de propostas, seja na administração, na política ou no meio acadêmico. Mas o problema enfrenta os mesmos obstáculos. Tentamos colocar novas barreiras ao direito de iniciativa. Supondo que ela passe pela dupla maioria (do povo e dos cantões), a questão é saber quem vai fiscalizar seu cumprimento. A Assembleia Federal como corpo político não é capaz de fazê-lo. Para dar esse poder à Justiça Federal é preciso revisar a Constituição”.
 
Martine Brunschwig Graf enfatiza os efeitos perversos do aumento do controle do direito de iniciativa: “Não podemos impedir preventivamente uma iniciativa sob o pretexto de que ela seria susceptível de desencadear um debate indesejado. Não podemos legislar as intenções das pessoas. Senão, cairíamos em um sistema de censura levando à arbitrariedade”.
 
“Num sistema democrático, cada ator (iniciantes, partidos, políticos, meios de comunicação) e todos aqueles que participam de uma campanha de votação têm a responsabilidade de manter o debate em um contexto apropriado”, diz.
 
Em outras palavras, não se deve quebrar o termômetro que representa a democracia direta, mesmo em caso de febre alta entre a população suíça.

Adaptação: Fernando Hirschy

Suíça rumo à regulação do mercado da maconha

DROGAS

Uma das salas na Conferência, em Viena.

Uma das salas na Conferência, em Viena. (Heloísa Broggiato)

Por Heloísa Broggiato, swissinfo.ch 
Viena
29. Abril 2014

Novas abordagens sobre o consumo de maconha em outros países têm chamado a atenção dos Suíços. Portugal é um exemplo bem-sucedido de política de drogas. Cada vez que um português é pego consumindo maconha e porte uma quantidade inferior a 15 gramas, é convidado a se apresentar à Comissão de Dissuasão de Tóxico Dependentes em até 72 horas. A droga é apreendida e pesada. O cidadão é então avaliado por um jurista, um psicólogo e um assistente social e o órgão coletivo avalia as próximas etapas.

Há 20 anos a Suíça protagonizou a criação de um modelo eficaz de atendimento aos consumidores de heroína, que até hoje é uma referência para o mundo. Depois de passar por um período de maior tolerância ao consumo de maconha, desde de 2004 a Suíça se caracteriza por ser relativamente repressiva no que se refere à droga. Em 2013 o país avançou na descriminalização do consumo da maconha. Plantar e comercializar é proibido, mas qualquer pessoa com mais de 18 anos apanhada com até dez gramas de cânhamo receberá uma multa de cem francos, e não terá o nome colocado na ficha de antecedentes criminais.

Repressão

Os especialistas afirmam que apesar das medidas repressivas as infrações cometidas por consumidores aumentaram nos últimos anos. Para Jean Felix-Savary, secretário geral do Groupement Romand d’Études d’Addiction (GREA), é importante que as políticas públicas estejam centradas nos consumidores de droga. E na Suíça a maconha representa uma fatia importante do mercado. “Sempre se fala de consumo de cocaína mas os mesmos traficantes de cocaína são também os de maconha”, explica.
 
Para lidar com o problema, ainda não existe um modelo ideal mas Savary acredita que os caminhos que poderiam nortear os próximos passos da política pública teriam de  diminuir a acessibilidade às drogas, promover maior controle dos produtos consumidos e facilitar o acesso dos consumidores ao serviços sociais e perseguir o tráfico. “Todos sabem que consumir a droga é ruim, mas é preciso ajudar o consumidor”, explica Savary. “A ideia de que a repressão resolve o problema é falsa”, completa. Uma prova disso é o que ocorre em países onde as drogas são reprimidas ainda com mais vigor como no Irã ou na Rússia. ”Quanto mais repressão, mais aumenta o consumo de droga”, acrescenta ao explicar que o consumo ocorre independente das medidas repressivas. Na Suíça a tendência se confirma. “Em 2013 o número de prisões por crimes relacionados à droga aumentou em relação ao ano anterior”, afirma.

Prevenção

Enquanto a sociedade suíça decide sobre os rumos da política sobre drogas Savary acredita que o caminho mais adequado é o da prevenção do consumo e regulação do mercado de drogas, além de um trabalho conjunto entre a polícia, os assistentes sociais e os governos das cidades. “Para garantir a tranquilidade pública, cuidar das pessoas e regular a questão do mercado da droga”.
 
Ruth Dreifuss, ex-presidente da Suíça e membro da Comissão Global de Política de drogas (Global Comission on Drug Policy) reafirma a linha de raciocínio de Savary no que se refere ao trabalho conjunto. “A colaboração é importante em todos os níveis da política e também ao nível internacional”, acrescenta Dreifuss. “Dessa forma é possível evitar que um grupo atrapalhe o trabalho de outro grupo”, completa. A ideia é aliviar a carga de trabalho judicial e economizar esforços para que a polícia não perca tempo com infrações leves e possa investir mais tempo e recursos em questões mais graves envolvendo o combate à ações mais complexas dos traficantes.

Jean Felix-Savary, , secretário geral do Groupement Romand d’Études d’Addiction (GREA)

Jean Felix-Savary, , secretário geral do Groupement Romand d’Études d’Addiction (GREA)
(Keystone)

 

Comissão portuguesa

Novas abordagens sobre o consumo de maconha em outros países têm chamado a atenção dos Suíços. Portugal é um exemplo bem-sucedido de política de drogas. Cada vez que um português é pego consumindo maconha e porte uma quantidade inferior a 15 gramas, é convidado a se apresentar à Comissão de Dissuasão de Tóxico Dependentes em até 72 horas. A droga é apreendida e pesada. O cidadão é então avaliado por um jurista, um psicólogo e um assistente social e o órgão coletivo avalia as próximas etapas.
 
“Se for um caso de dependência, a pessoa é encaminhada para o tratamento”, explica João Goulão, director geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD). “ Também são adotadas penas alternativas, mas no primeiro contato não há penalidade, normalmente não há sanção e o processo não é criminal”, explica Goulão. Durante seis meses o cidadão fica em observação e se ocorrer reincidência pode haver pagamento de uma multa.
 
Com isso, as autoridades portuguesas procuram tentar identificar em indivíduos não dependentes dos fatores de risco que eventualmente levariam a um caso de dependência. “É preciso buscar a resposta adequada a cada caso já que a prisão relacionada ao uso de substâncias entorpecentes pode ter um impacto na vida do individuo, que pode acabar levando-o à marginalização, pela exclusão”, explica Goulão. Ele lembra que a crise econômica na Europa não teve efeito dramático sob os recursos para o tratamento da tóxico dependência.” Ficou mais difícil obter transporte  e por isso alguns pacientes acabam perdendo a adesão ao tratamento.
 
A política de Portugal baseada na descriminalização com penalização administrativa nem sempre foi bem aceita. “O governo não queria aceitar”, conta Goulão. Hoje, 12 anos depois, a reflexão se encontra em outro patamar. “Nosso desafio agora é entrar na discussão de um novo paradigma. O da regulação”, completa.  

Uruguaios

Não só Portugal busca o caminho da regulação. A ousada política de drogas desenvolvida recentemente no Uruguai utiliza o monopólio do Estado para visualizar o panorama sobre o consumo de maconha no país. Enquanto o Estado uruguaio permite o consumo e a distribuição da droga no país, as autoridades acreditam poder identificar peculiaridades da maconha, quem são seus consumidores e os próximos passos a serem dados.
 
 Apesar de ousado, o caminho seguido pelos uruguaios não causou estranheza nos corredores da ONU, em Viena. Segundo Julio Calzada, secretário geral da Junta Nacional de Drogas do Uruguai. “Podemos dizer que não houve nenhuma resolução condenatória à nossa política de drogas”, completa. “Também não houve nenhuma declaração de apoio, mas o fato de não haver condenações é da maior relevância”, afirma Calzada. Para ele, a política uruguaia está alinhada ao espírito das Convenções já que voltada para a saúde, levando em conta os fatores sociais, culturais e econômicos próprios da idiossincrasia uruguaia.

De olho

 A Suíça tem se mostrado um espectador atento às discussões sobre drogas ilícitas em outros países e vê com bons olhos abordagens e intervenções baseadas em evidência científica que levem em consideração os direitos humanos e aspectos sociais, culturais e econômicos, segundo as informações do Ministério da Saúde suíço.

Preparação

A partir de agora, os Estados-Membros da ONU se preparam para a próxima rodada de discussões em Viena, durante a UNGASS – Sessão Especial da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2016. Essa será a ocasião para avaliar e debater questões globais como saúde, gênero e prioridades para o controle de drogas. Na última edição da UNGASS, em 2009 a ideia central era buscar a eliminação total das drogas no mundo. Hoje, tudo indica que os líderes políticos e a sociedade civil compreenderam que essa é uma abordagem perigosa

Trabalhar no turismo não é opção para os suíços

MERCADO DE TRABALHO

Nos hotéis suíços, a limpeza é garantida pelos trabalhadores estrangeiros.

Nos hotéis suíços, a limpeza é garantida pelos trabalhadores estrangeiros. (RDB)

Por Jo Fahy, swissinfo.ch 
28. Abril 2014 – 11:00

Se você espera encontrar suíços trabalhando nos hotéis e restaurantes em Zermatt, você provavelmente vai se surpreender ao ser recebido por alemães, russos ou pessoas de vários outros países. Por quê?

“Oitenta por cento dos nossos funcionários não são suíços,” afirma Kevin Kunz à swissinfo.ch. Kevin é diretor executivo do grupo Seiler Hotels, em Zermatt. Enquanto ele conversa conosco, um funcionário alemão recebe os hóspedes na recepção do hotel cinco estrelas Mont Cervin Palace, e uma servente portuguesa passa com o espanador na mão.

“Temos pessoas de aproximadamente 40 nações diferentes trabalhando aqui. O mercado de trabalho realmente dita onde você vai encontrar os empregados certos. Não conseguiríamos cobrir todas as vagas apenas com o pessoal disponível no mercado de trabalho suíço.”

O grande número de funcionários estrangeiros trabalhando na área de turismo não é um fenômeno que ocorre apenas em Zermatt. Em todo o país, nas estações de esqui e destinos turísticos, o trabalho é realizado por mão de obra estrangeira.

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Quase metade dos trabalhadores

Embora a porcentagem de estrangeiros atinja 23% do total da população suíça, no setor hoteleiro, 40,7% dos funcionários são de outras nacionalidades. Uma destas funcionárias estrangeiras é a alemã Katja Oberndorfer, que fala cinco línguas, incluindo inglês, russo e grego.

Ela mora e trabalha em Zermatt desde 1996. Atualmente é gerente do setor de acomodações do hotel Mont Cervin Palace e gosta de usar seus conhecimentos linguísticos com os hóspedes, mas admite que a indústria do turismo tem altos e baixos. 

“Às vezes eu tinha que fazer várias horas extras por dia. Cheguei a trabalhar 10 ou 12 horas por dia. Mesmo atualmente, trabalhando meio turno, acabo fazendo horas extras. Mas não sou o tipo de funcionária que fica olhando para o relógio. Este hotel faz parte da minha vida, o tempo não é tão importante.”

Contratar pessoal da União Europeia pode ficar mais complicado quando o sistema de cotas para estrangeiros, votado em fevereiro de 2014, for implementado. Oberndorfer acrescenta: “Se apenas tivéssemos funcionários suíços, não conseguiríamos colocar todos os hoteis Seiler para funcionar. Muitos suíços não querem trabalhar na indústria hoteleira, não querem servir as pessoas. Eles preferem trabalhar em um banco ou numa posição mais elevada”.

No mercado de trabalho suíço, onde a taxa de desemprego é baixa – com média de 3,2% em 2013 –, onde há muitas oportunidades de empregos bem pagos e com horários regulares de trabalho, não é difícil entender por que um jovem suíço optaria por outra carreira que não no setor de turismo e de hotelaria. 

Além da longa jornada de trabalho e da troca de turnos para quem trabalha na cozinha, o salário mínimo é de cerca de SFr 3.407 francos para funcionários não qualificados. Para quem possui a formação de 3 ou 4 anos e possui uma qualificação profissional reconhecida, o salário mínimo sobe para SFr 4.108 francos. 

Estes dados são bem modestos se comparados com os salários em outros setores.

Dificuldades do turismo

En raison notamment de la cherté du franc, le tourisme suisse 
O alto custo das férias e um franco suíço forte em relação às outras moedas têm causado um forte impacto no número de visitantes europeus nos últimos anos, levando o setor de turismo a apostar as suas fichas em mercados emergentes, como o mercado chinês.
Os pernoites em hoteis suíços caíram 4,9% ao todo entre 2008 e 2011 e mais 2% em 2012, segundo a Secretaria Federal de Estatística. Em 2013 houve um leve cresimento em relação ao ano anterior.
 
 
As regiões alpinas sofrem mais, pois ficam sem os hóspedes que vêm a trabalho e que acabam reforçando o setor nas cidades como Zurique.
 
 
Temperaturas mais altas, incomuns para a época, e um número menor de jovens esquiadores também contribuíram para diminuir o movimento nos destinos de inverno. Ao todo, o número de visitantes nas estações de esqui caiu 11,6% em fevereiro de 2014 em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo um relatório publicado no jornal
SonntagsZeitung.


Os cantões de Graubünden e Valais sofreram as piores quedas, com 13% e 16% respectivamente, e o número de esquiadores no cantão de Berna diminuiu 10%. 
O alto custo das férias e um franco suíço forte em relação às outras moedas têm causado um forte impacto no número de visitantes europeus nos últimos anos, levando o setor de turismo a apostar as suas fichas em mercados emergentes, como o mercado chinês.
Os pernoites em hoteis suíços caíram 4,9% ao todo entre 2008 e 2011 e mais 2% em 2012, segundo a Secretaria Federal de Estatística. Em 2013 houve um leve cresimento em relação ao ano anterior.
 
 
As regiões alpinas sofrem mais, pois ficam sem os hóspedes que vêm a trabalho e que acabam reforçando o setor nas cidades como Zurique.
 
 
Temperaturas mais altas, incomuns para a época, e um número menor de jovens esquiadores também contribuíram para diminuir o movimento nos destinos de inverno. Ao todo, o número de visitantes nas estações de esqui caiu 11,6% em fevereiro de 2014 em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo um relatório publicado no jornal
SonntagsZeitung.


Os cantões de Graubünden e Valais sofreram as piores quedas, com 13% e 16% respectivamente, e o número de esquiadores no cantão de Berna diminuiu 10%.

Treinamento no setor de Turismo

“Se você quer realmente ganhar dinhero, não trabalhe no setor de turismo. Em comparação com outras profissões, os salários são realmente mais baixos. E você tem horários de trabalho irregulares e tem que fazer horas extras,” admite Adrian Zaugg, responsável pelo Departamento de Turismo na Escola de Business Feusi, em Berna.

Depois de trabalhar muitos anos no setor de turismo, Zaugg relata que as muitas viagens foram uma ótima oportunidades e ter conhecido tantas pessoas diferentes foi uma experiência excelente, mas há muitos fatores que desencorajam os jovens a seguir este caminho. 

“Geralmente nossos alunos vão trabalhar na recepção de hoteis, em agências de turismo ou em produtoras de eventos. Mas há vários estudantes que percebem que, no setor de turismo, sempre é necessário trabalhar à noite, nos fins de semana ou quando as outras pessoas estão em férias, e isso frequentemente os desanima.”

Estes elementos contribuíram para a imagem negativa que os suíços  têm dos empregos no setor turístico. A Associação Suíça de Hotelariahotelleriesuisse sabe deste fenômeno, mas permanece otimista. 

“Estamos empenhados em “caçar novos talentos” para o setor, e o salário não pode ser nosso único argumento,” esclareceu à swissinfo.ch Guglielmo Brentel, presidente da organização. 

“A disputa entre os empregadores para oferecer empregos atraentes aos jovens é muito acirrada na Suíça. Cada setor tem que achar um caminho. Por sorte temos um setor extremamente atraente para os jovens. Trabalhamos com o público e temos muito pessoal jovem. Essas são as ‘armas’ que temos a nosso favor”, concluiu.

Hospitalidade versus finanças

Apesar do otimismo de Brentel, é difícil ignorar as desvantagens: horas extras, horários variáveis, salários baixos e concorrência com os empregos bem pagos oferecidos nos centros urbanos da Suíça. Quais os motivos para trabalhar com turismo, então? 

Roger Nafzger, um jovem suíço que adquiriu experiência na cozinha de um hospital, trabalhou durante o inverno como cozinheiro no hotel Mont Cervin Palace, em Zermatt. 

“Para o meu futuro, é uma grande referência poder dizer que trabalhei aqui. O chef daqui é famoso.”

“Certamente é bem diferente de trabalhar em um banco,” acrescenta. “Aqui sempre tem alguma coisa acontecendo. Eu gosto de trabalhar sob pressão e realmente consigo maximizar o meu desempenho aqui.” 

Nafzger vê este emprego temporário como um degrau na sua carreira, e pretende crescer até o topo para, finalmente, conseguir trabalhar no exterior. 

Conseguir manter funcionários suíços como Nafzger no setor é um desafio, caso o entusiasmo de trabalhar durante uma temporada em uma equipe internacional esfrie e as preocupações com o baixo salário e os horários irregulares se torne constante. 

“Queremos que estas pessoas se qualifiquem mais e mais enquanto estão trabalhando, pois assim podem subir de posto,” esclarece Guglielmo Brentel, da Associaçãohotelleriesuisse.
“Estas medidas visam tornar o setor mais atraente para os suíços. Também temos que melhorar a imagem do setor e o prestígio destas profissões, para que sejamos sinônimo de qualidade com hoteis de alta categoria competitivos no mercado. Assim os jovens vão querer trabalhar conosco e permanecer no setor de turismo.”

Adaptação: Fabiana Macchi

Diamante azul avaliado em US$ 21 milhões será leiloado em Genebra

AFP – Agence France-Presse

25/04/2014 

Um espetacular diamante azul, considerado o maior do mundo em sua categoria, será leiloado em 14 de maio em Genebra, anunciou a Christie’s.

O diamante, talhado em forma de pêra e chamado “The Blue” (O Azul), tem peso de 13,22 quilates. A joia foi classificada na categoria “azul vívido sem defeito” e a Christie’s avalia o preço entre 21 e 25 milhões de dólares.

O vendedor deseja permanecer no anonimato.

Há seis meses, a Christie’s vendeu em Genebra um diamante laranja “vívido”, considerado o mais importante de sua categoria, com peso de 14,82 quilates, pelo preço recorde de US$ 35 milhões.

O diamante azul será a principal peça no tradicional leilão de maio da Christie’s em Genebra.

A venda terá 250 lotes e espera arrecadar 80 milhões de dólares.

Votação sobre imigração deixa os estrangeiros perplexos

GENEBRA INTERNACIONAL

O impacto do voto em Genebra, levando centenas de multinacionais e milhares fronteiriços a deixarem o país, pode ser considerável.

O impacto do voto em Genebra, levando centenas de multinacionais e milhares fronteiriços a deixarem o país, pode ser considerável.(Keystone)

Por Simon Bradley in Geneva, swissinfo.ch 
23. Abril 2014 

Será que posso ficar na Suíça? Minha esposa poderá trabalhar? Que irá acontecer com o meu status de fronteiriço? Minha empresa deveria repentinamente dar adeus à Suíça? Dois meses depois de uma votação popular destinada a limitar a imigração, reina muita confusão entre os estrangeiros que vivem em Genebra ou atravessam a fronteira para trabalhar nessa cidade.

“Trabalhei na Bélgica, Irlanda e Chipre antes de chegar aqui (em Genebra). Essas facilidades resultam de normas vigentes na União Europeia. Para mim é uma ironia encontrar-me no coração da Europa e não se sentir parte integrante do velho continente, além de agora receber essa mensagem de que não podemos sequer estar seguros de que possamos ficar,” diz o belga Patrick Soetens, diretor do banco online Strateo, que mora na França e trabalha em Genebra.
 
É ainda viva a emoção entre os trabalhadores estrangeiros e fronteiriços na região genebrina. Todos vivem em clima de incerteza quanto às possíveis consequências das votações de 9 de fevereiro, quando os suíços aprovaram por apertada maioria uma proposta elaborada pelo Partido do Povo Suíço – de direita – para que se adotassem medidas drásticas contra a imigração e se reintroduzissem cotas para os imigrantes originários da União Europeia.
 
A Suíça enfrenta agora a complexidade e os custos financeiros da transformação dessa proposta em novas leis e normas no período regulamentar de três anos.
 
Patrick Soetens foi um dos 200 participantes de um evento organizado por Glocals (que reúne online comunidades de residentes no estrangeiro) para ouvir explicações do secretário genebrino da Economia e Segurança, Pierre Maudet, sobre o significado do voto e sobre as possíveis medidas a tomar.
 
Segundo o fundador de Glocals, Nir Ofek, a votação é um “tema quente” entre 100.000 membros do fórum que ainda estão “sedentos de informação”, em função das incertezas existentes.

Genebra Internacional: O que dizem os expatriados

 
 22 Abril, 2014
 
As perguntas ao secretário genebrino – e em evento similar no Instituto de Altos Estudos, no dia 3 de abril – oscilavam do impacto sobre possibilidade de reagrupamento familiar ou solicitações pendentes de passaporte suíço, às relativas à maneira como o sistema se compatibiliza com o acordo – firmado com a União Europeia – sobre a livre circulação de pessoas e, ainda, como seriam afetados os cidadãos extra-europeus ou os trabalhadores fronteiriços. As pessoas procuram saber como as cotas serão aplicadas e em que áreas – um setor particular da economia, região, posto de trabalho ou cada empregado?

 
Embora as respostas tenham sido escassas, Pierre Maudet tentou acalmar os ânimos.
 
“Não tenho uma bola de cristal para antecipar o que pode acontecer no espaço de três anos, mas posso dizer-lhes pelo que vamos lutar,” disse ao público.
 
Não precisam ficar assustados – disse o político radical, de centro direita – porque três anos é bastante tempo e a Suíça tem uma impressionante capacidade de adaptar-se. Acrescentou que Genebra tem intenção de examinar todas as opções e, em se tratando de cotas, defender sua posição como cidade internacional e região fronteiriça, dependente do trabalho estrangeiro – como ocorre com Basileia e com o Cantão do Ticino.
 
Essa mensagem parece ter tranquilizado algumas pessoas.
“Não me sinto muito afetado. Acho que o governo suíço conseguirá driblar a votação,” disse o britânico Matthew Leguen de Lacroix, um dos executivos da imobiliária DTZ.

Voto sobre imigração

No dia 9 de fevereiro de 2014, os eleitores suíços aprovaram, por apertada maioria (50.3%), uma iniciativa popular destinada a limitar a imigração procedente da União Europeia. A medida, apresentada pelo Partido do Povo Suíço – conhecido por sua política contra estrangeiros e contra uma adesão à União Europeia – exige reintrodução de cotas, bem como prioridade para os suíços no preenchimento de empregos e, ainda, restrições dos direitos a benefícios sociais pelos imigrantes.
 
Outro ponto importante: estipula que a Suíça deverá renegociar seus acordos bilaterais com a UE sobre a livre circulação de pessoas dentro de três anos ou revogá-los. Em consequência, isso poderia ameaçar outros acordos bilaterais com a União Europeia.
 
O governo suíço tem plano de elaborar projeto sobre restrição da imigração no final do ano. Deverá igualmente apresentar um plano de implementação em fins de junho e realizar conversações exploratórias com os 28 membros da UE sobre o futuro da livre circulação de pessoas e sobre outros acordos bilaterais.
 
A livre circulação de pessoas e de empregos dentro das fronteiras dos países membros é um dos alicerces da política da UE, e a Suíça, que continua fora da União, tem participado do sistema após firmar um pacto com Bruxelas. Os acordos bilaterais sobre livre circulação de pessoas vigoram desde 2002. Os países do Leste Europeu que aderiram à UE posteriormente foram incluídos no acordo em 2011, e as restrições ao mercado laboral suíço para trabalhadores de membros mais recentes – Bulgária e Romênia – continuam vigentes até 2016. Uma solução para a Croácia – o mais novo membro – está em discussão.

Mal-estar

O resultado da votação foi uma reação ao fluxo imigratório anual que era 80.000 pessoas nos últimos cinco anos. Os estrangeiros representam atualmente cerca de 23% da população da Suíça, que conta 8 milhões de habitantes. No Cantão de Genebra a cifra sobem a 41%, sendo que seis entre dez são originários da União Europeia.
 
Sede de aproximadamente 900 empresas multinacionais, empregando milhares de funcionários estrangeiros que se movem de um lado para o outro, e com 69.000 pessoas que diariamente atravessam a vizinha fronteira francesa a caminho do trabalho, o impacto sobre Genebra pode ser significativo.
 
Segundo Jean-François Besson, secretário-geral da associação de trabalhadores fronteiriços – GTE – dois meses depois que se criou essa situação nada ficou mais claro, e ele realça que seus membros continuam preocupados.
 
“Com o passar do tempo e a julgar pelo encontro com as pessoas e contatos no terreno, constatamos haver um verdadeiro mal-estar do lado suíço,” diz Besson. Ele receia que a aplicação do sistema de cotas favoreça o setor privado em prejuízo do setor público, que emprega muitos trabalhadores fronteiriços.
 
A elite empresarial suíça também adverte que a votação agravou a insegurança e que as restrições poderiam atingir a competitividade. Um informe do Credit Suisse estima que o resultado pode implicar o risco de a economia suíça gerar 80.000 empregos a menos nos próximos três anos.
 
“O crescente número de iniciativas populares nos últimos anos – incluindo a votação contra a imigração maciça – avivou as incertezas além de prejudicar a previsibilidade e a estabilidade dos sistemas político e jurídico da Suíça,” diz Frédérique Reeb-Landry, presidente do Grupo de Empresas Multinacionais (GEM), uma associação que representa 81 multinacionais na região do Lago Léman (que banha Genebra).

Famílias atingidas

Estrangeiros imigrantes que são arrimo de família não são os únicos preocupados com o futuro.
 
“Os cônjuges de estrangeiros – maridos ou esposas que os acompanham à Suíça – receberão uma carteira de residência, mas será que terão uma autorização de trabalho? Esta é uma preocupação importante manifestada em nosso escritório e no de parceiros sobre o que poderia acontecer com as famílias e quando eles não podem se integrar profissionalmente,” observa Andrea Delannoy, gerente dos Centros SCC Sarl.
 
E não se deve esquecer o restante da chamada Genebra Internacional. Contrariamente às 250 organizações não governamentais, sediadas em genebra, e as numerosas federações de esportes no vizinho Cantão de Vaud, os funcionários públicos internacionais que trabalham na sede das Nações Unidas e de outras organizações internacionais de modo geral não serão afetados pelo sistema de cotas. Não se excluem, porém, exceções.
 
“A votação não atingirá diretamente os direitos empregatícios do pessoal da ONU, que não está submetido a autorização de trabalho, pois recebe do Ministério das Relações Exteriores um documento especial chamado “caderneta de legitimação” para viver e trabalhar na Suíça. Mas estamos preocupados com possíveis consequências sobre os cônjuges, as crianças e as pessoas que desejam se aposentar na Suíça,” realça Ian Richards, secretário executivo do Conselho de Coordenação do Pessoal do Birô das Nações Unidas em Genebra.
 
“Isto poderia ter um efeito devastador sobre casais quando o cônjuge espera trabalhar. Se se retira o emprego do cônjuge, Genebra se torna muito menos atraente. Do ponto de vista puramente prático, isso prejudica a imagem que nossos colegas têm de Genebra, especialmente aqueles que planejem vir para cá.”

Adaptação: J.Gabriel Barbosa

“A demência senil requer tempo e paciência”

ENVELHECER NA SUÍÇA

Bons calçados são indispensáveis porque as pessoas que sofrem de demência andam muito.

Bons calçados são indispensáveis porque as pessoas que sofrem de demência andam muito. (swissinfo)

Por Gaby Ochsenbein, swissinfo.ch 
Bienne

A população suíça está ficando cada vez mais velha. Uma das desvantagens da longevidade é o número crescente de idosos com demência senil. Há dez anos existe em Biel um grupo que cuida de pessoas com esta enfermidade. Trata-se de uma forma alternativa de moradia, que oferece amparo e segurança a seus moradores, e bastante liberdade de ação. Uma visita.

Em um prédio de três andares no centro da cidade de Biel, no cantão de Berna, moram oito pessoas com demência senil, seis mulheres e dois homens. As idades variam entre 73 e 89 anos. Alguns ainda são ativos e com mobilidade, outros são altamente dependentes de cuidados. Todos podem permanecer nesta residência até a sua morte.
 
Logo na entrada, encontramos F.L.*. A senhora de 83 anos, que mora neste lar há três meses, está procurando seu filho. Se nós o vimos, indaga. Não, não vimos. Como ele se chama, perguntamos. “Renzo, vocês o conhecem?”
 
É típico que pessoas com demência senil procurem seus filhos ou até seus pais, afirma a vice-diretora da residência e diretora do setor de enfermagem, Marianne Troxler-Felder, membro da Associação de Cuidadores de Idosos Biel-Seeland. “As pessoas com demência senil sentem-se bem mais jovens do que são e muitas vezes vivem no passado.”
 
S.V.*, também de 83 anos, parece confusa e perdida. A senhora de cerca de 1,50 m de altura que usa uma boina de lã para cobrir seus cabelos brancos não sabe onde está, o que está fazendo ali e nem onde está o seu marido. “Ele era insuportável quando estava de mau humor, mas mesmo assim era bom.” Mais de 50 anos ela viveu no mesmo apartamento, onde tudo tinha o seu lugar. Agora está tudo perdido. “Quando vamos para casa? E onde está a minha bolsa?”, pergunta.
 
S.V. gosta de passear no jardim. Mas para ela o jardim não é apenas o jardim, mas um lugar onde ela tem “muitas coisas para fazer”- ir ao banco e fazer  compras, ela dá como exemplo. Hoje ela está acompanhada da enfermeira e diretora da residência, Brigitt Rohrer.

Demência: Um passeio pelo jardim

poster

 
A modesta casa amarela em Biel, construída nos anos 1930, também já está com uma certa idade – como suas moradoras e moradores. Esta é uma vantagem, afirma Troxler: “Aqui as pessoas se sentem acolhidas e em segurança, o local é pequeno e fácil de se orientar, como na própria casa. Graças às pequenas dimensões, pode-se reduzir as informações de forma mais eficaz do que em grandes instituições. Pessoas acometidas de demência senil toleram cada vez menos novas informações. Mas também há pacientes que acham o local muito pequeno, que necessitam de mais espaço e por isso se sentem melhor em instituições maiores.”

 
Em uma das duas salas de estar no térreo há uma lareira de azulejos e na outra há uma televisão. “Assistimos muito pouco TV, é muita informação para os pacientes. Às vezes assistimos um programa de esporte ou de música, mas sempre com um dos cuidadores por perto”, relata Brigitt Rohrer. Alguns leem o jornal ou folheiam revistas, como tinham o hábito de fazer, ou apenas leem as manchetes e olham as imagens. “Mas eles não conseguem mais resumir o que eles acabaram de ler.”

Cozinha como local de encontro

O ponto central da casa é a cozinha. Ali os moradores se reúnem, fazem as refeições, tomam café, jogam. Quando sentem vontade, podem participar das tarefas cotidianas, ajudar a passar e dobrar as roupas, a descascar e cortar legumes, a esvaziar o lixo orgânico. Um cotidiano estruturado, com horários e tarefas, é um ponto de apoio para eles. Além disso, uma vez por semana, duas facilitadoras coordenam uma tarde de atividades especiais, como treinamento de memória, treino de movimentos, ginástica e canto.
 
Fundamental é que os pacientes se sintam aceitos e não sejam corrigidos, esclarece Rohrer. “Fazemos com eles o que é possível, sem forçar, e tentamos trazê-los para a realidade. Alguns percebem que têm dificuldades, mas não conseguem entender a situação. E isso pode gerar medo e pânico.” Precisa-se de muito tempo e paciência para lidar com pessoas com demência senil, afirma Marianne Troxler-Felder. “Anda, anda, mais rápido, rápido – essa técnica definitivamente não funciona aqui.”
 
Normalmente, ficam duas ou três cuidadoras na casa e mais um estagiário – e eles conhecem bem os pacientes. “A gente percebe como eles estão pela tez, pela postura do corpo, pelos gestos, mesmo quando eles não dizem nada. Percebemos quando eles estão inquietos ou até desesperados”, relata Brigitt Rohrer. É importante ter um bom equilíbrio entre atividade e sono, movimentos e atividades ao ar livre.

Política para Demência Senil 2014-2017

No final de 2013, a Suíça definiu uma estratégia nacional para a demência senil.
 
O objetivo é informar e sensibilizar a população e os profissionais da área sobre a doença, aumentando o aconselhamento para os enfermos e seus parentes. As instituições devem oferecer mais auxílio para os parentes e melhorar os cuidados nos institutos e lares especializados.
 
Ainda não está claro como deve ser o financiamento destas medidas. Segundo a Associação Suíça de Alzheimer o financiamento deve ser justamente o ponto crucial.  

Liberdade de Ação

Pacientes com demência senil são considerados incansáveis e têm uma necessidade muito grande de se movimentarem. Muitas vezes eles perdem a noção de tempo e de direção. Por isso necessitam da proteção de um ambiente seguro. A residência de pacientes com demência senil tem que lhes proporcionar muita liberdade de ação, mesmo que para isso se corra alguns riscos. 

Demência senil: Visita à casa

 
Nos dois andares superiores ficam os dormitórios dos moradores e a escada possui uma cadeira-elevador. Os quartos possuem uma cama com regulação elétrica e uma mesinha de cabeceira. O resto dos móveis eles podem trazer de suas casas. Quase em todas as camas há um bichinho de pelúcia e sempre há muitas fotos da família, desenhos de netos e bisnetos – como no caso de Madelaine Blank. A senhora de  80 anos mora há um ano na residência em Biel. Na parede do seu quarto estão pendurados desenhos da sua bisneta Sofie, e sobre a mesa há um porta retrato com uma foto dela e do seu esposo.

 
Seu esposo, também de 80 anos, vai visitá-la várias vezes por semana. Às quintas-feiras eles sempre almoçam juntos. “Elas nos servem o almoço no quarto, com a mesa posta e vaso de flores – somos mimados.” Aos domingos ele a leva para casa e prepara a comida que ela escolher. “Ela adora saladas, e eu gosto de fazer algo que lhe dê alegria e a tire da rotina”, afirma o Sr. Blank.
 
Há dez anos, Madeleine Blank teve depressão pela primeira vez. Há um ano e meio ela não levantava mais e passou três meses de cama. Depois de ser examinada por um neurologista, foi diagnosticada com Alzheimer. Além disso, ela sofre de degeneração macular, que resulta na perda gradativa de visão. Com muito esforço e com a ajuda de um aparelho de leitura ela consegue reconhecer letras em formato grande. Ela não consegue mais costurar e tricotar, coisas que ela gostava de fazer.
 
Ficou muito pesado para o Sr. Blank, cuidar sozinho da sua esposa enferma, especialmente porque ela não conseguia fazer mais nenhuma atividade cotidiana. “Só depois que as doses de psicofármacos foram dobradas é que ela começou a melhorar “, relata René Blank.
A vida dos dois mudou radicalmente nos últimos meses e tem feito René Blank refletir muito: “Temos que aprender que a separação não acontece apenas com a morte, mas também através da doença.”

Demência: Como a família Blank convive com a demência senil

 
17 Abril, 2014
 

Anoiteceu, na casa se sente o cheiro de maçã cozida e canela. O moradores estão reunidos na cozinha para o jantar. Apenas F.L. não está lá – ela continua procurando o seu filho Renzo.
 
*Nomes verdadeiros conhecidos pela redação

Adaptação: Fabiana Macchi

Viagem à Tunísia é momento chave para a arte moderna

 
 

August Macke: Feira em Túnis, 1914

 

Paul Klee: Motivo de Hammamet, 1914