Arquivo da tag: TORTURADOR

Corpo de Rubens Paiva foi jogado em rio, diz viúva

Antes de morrer, coronel Malhães confessou à esposa ter mentido à Comissão da Verdade

O DIA|JULIANA DAL PIVA
Antes de morrer, coronel Malhães confessou à esposa ter mentido em depoimento à Comissão Nacional da Verdade

Foto:  Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

Rio – Pouco antes de morrer, o coronel reformado do Exército Paulo Malhães confiou à mulher, Cristina, uma última revelação histórica. Ele admitiu à companheira dos últimos 25 anos que mentiu no depoimento prestado à Comissão Nacional da Verdade. Na ocasião, em março, ele negou que tivesse trabalhado na missão que ocultou definitivamente o cadáver do deputado federal cassado Rubens Paiva. Cinco dias antes, oDIA publicou uma entrevista em que o coronel assumiu ter recebido e concluído a missão dada a ele por oficiais do gabinete do então ministro do Exército Orlando Geisel, em 1973. Malhães disse a Cristina que os restos mortais de Paiva foram atirados em um rio.

À noite, depois do depoimento de quase três horas, os dois mal entraram na casa do sítio em Marapicu, Nova Iguaçu, e ela diz que não segurou a curiosidade sobre o assunto: “Aquilo que você disse sobre desenterrar o corpo do Rubens Paiva, era mentira ou verdade?”  E Malhães respondeu: “Era mentira. Eu fiz.”

Nas conversas íntimas do casal, Malhães não nomeava os guerrilheiros que torturou e matou. Em março, no entanto, ela conta que sentia no marido uma necessidade de desabafar sobre o caso. “A história do Rubens Paiva era a única que eu sabia. Ele falava recentemente e era um desabafar constante. Quando ele contou no depoimento aquela versão, eu estranhei. Só se fosse uma parte que eu não sabia porque ele já tinha me falado sobre isso antes. Ele não podia negar para mim. E o destino final do corpo foi um rio”, contou.

A viúva também disse que não entendia a atitude do marido em assumir a responsabilidade sozinho e não revelar os nomes de todos os oficiais e militares envolvidos na missão. Ao questioná-lo, ouviu do coronel que ele era honesto. “Eu perguntei a ele porque não dava os nomes de todos que tinham participado. Ele dizia que na época que trabalharam no Exército, eles (os colegas) eram leões e, quando acabou, se tornaram ratinhos. Acho que ele mudou a versão no depoimento por causa desses leões”, explicou ela.

Cristina diz que o marido não acreditava em represálias e que também achava possível que, no futuro, ele voltasse a esclarecer o caso. “Ele queria um tempo para a cabeça, mas acho que ele ia dizer a verdade em outro momento”, afirmou a viúva.

 

‘Foi um sufoco para achar’

No dia 19 de março, o coronel Malhães recebeu O DIA em sua casa, mesmo local onde foi assassinado há 12 dias, e contou que havia coordenado junto com também coronel reformado José Brandt Teixeira uma missão para desenterrar o corpo de Rubens Paiva em uma praia do Recreio dos Bandeirantes.

“Recebi a missão para resolver o problema, que não seria enterrar de novo. Procuramos até que se achou (o corpo), levou algum tempo. Foi um sufoco para achar (o corpo). Aí seguiu o destino normal”, disse, Malhães.

Rubens Paiva era deputado pelo Rio. Ele foi preso em 1971, torturado e morto. Seu corpo nunca foi achado

Foto:  Reprodução

Para localizar o corpo de Paiva, duas equipes trabalharam durante cerca de 15 dias na praia. Também participaram da ação os sargentos Jairo de Canaan Cony e Iracy Pedro Interaminense Corrêa. Apenas Cony está falecido.

Malhães admitiu na ocasião que sabia de quem era o corpo procurado. “Eu podia negar, dizer que não sabia, mas eu sabia quem era sim. Não sabia por que tinha morrido, nem quem matou. Mas sabia que ele era um deputado federal, que era correio de alguém”, contou.

Revelação da viúva constará no relatório final da CNV

Para a advogada Rosa Cardoso, membro da Comissão Nacional da Verdade, o esclarecimento prestado por Cristina Malhães é importante para o avanço no caso e também para o relatório final da CNV.

“É muito importante porque defaz a névoa que o coronel quis lançar à comissão, quando resolveu voltar atrás dizendo que não tinha cumprido a missão. Essa revelação ajudará o relatório final”, afirmou Rosa, que tomou o depoimento de Malhães.

Ex-coronel Paulo Malhães, que em março confessou ter sumido com o corpo do Rubens Paiva na época da ditadura, foi morto em casa

Foto:  José Pedro Monteiro / Agência O Dia

A advogada também considera que a afirmação de Cristina autêntica. “A declaração de Cristina, aparentemente, não pode ter nenhuma segunda intenção em relação ao fato. É uma declaração que transpira autencidade. Ela é uma pessoa que não tem interesse em distorcer fatos. Ela não teria porque inventar ou acusar ele de algo que não tenha acontecido”, avalia.

No dia 25 de abril, três criminosos invadiram a casa de Malhães. No fim da noite, Cristina encontrou o corpo do marido de bruços e com a cabeça em um travesseiro. Na semana passada, o caseiro do sítio admitiu envolvimento no assalto. O caso segue em investigação.

Calvário de Rubens Paiva

Prisão

Em 20 de março de 1971, Rubens Paiva foi preso e levado de sua casa por agentes armados da Aeronaútica (CISA) até o quartel da 3ª Zona Aérea

Morte

No mesmo dia em que foi preso, Paiva foi levado para o DOI-Codi, na rua Barão de Mesquita, onde foi torturado até a morte

Alto da Boa Vista 

Segundo Malhães, os militares do DOI-Codi enterram Paiva no Alto da Boa Vista, próximo a estrada. No mesmo local, também forjaram a versão de que Paiva foi resgatado por guerrilheiros quando era conduzido dentro de um fusca. Em janeiro, o general Raymundo Campos confessou a farsa à Comissão Estadual da Verdade

Praia do Recreio

Malhães disse ainda que no mesmo ano o corpo foi retirado do Alto da Boa Vista e enterrado em uma praia do Recreio. Em 1973, os restos mortais foram desenterrados e jogados em um rio não identificado

 

 

 

 

LATTROCÍNIO: HIPÓTESE MAIS PROVÁVEL PARA A MORTE DE CORONEL TORTURADOR

DIÁRIO DA MANHÃ|DANIELLY SODRÉ

O delegado William Pena Júnior, da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF), afirmou que a hipótese mais provável para a morte do tenente-coronel reformado do Exército Paulo Malhães é a de latrocínio, roubo seguido de morte.  O delegado comandou o grupo de cerca de 20 policiais que permaneceram por quase duas horas no sítio do militar realizando uma perícia complementar. Já se sabe que os bandidos usavam luvas, para evitar a coleta das impressões digitais que poderiam ajudar na identificação deles.

“A primeira hipótese é latrocínio, mas as outras hipóteses (queima de arquivo, vingança) não estão sendo descartadas e vão ser estudadas”, afirmou o delegado.

Willian disse não reconhecer como documento a Guia de Sepultamento do militar, que aponta as causas da morte como edema pulmonar, isquemia de miocárdio e miocardiopatia hipertrófica: indicando, possivelmente, morte por causas naturais, como um infarto causado por conta do que ocorria no momento da morte. O delegado afirmou que o laudo da perícia do corpo deve estar pronto em dez dias.

O corpo do tenente-coronel reformado foi enterrado na tarde deste sábado (26) no Cemitério municipal de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. O sepultamento foi acompanhado por cerca de 40 pessoas, que cantavam músicas religiosas.

Foto:Antonio Scorza

Foto:Antonio Scorza

 

Documento indica que coronel Malhães foi vítima de ataque cardíaco

Corpo do militar, que admitiu a prática de tortura durante a Ditadura Militar, foi enterrado neste sábado

No cemitério, parentes evitaram falar com a imprensa<br /><b>Crédito: </b> Fernando Frazão / Agência Brasil
No cemitério, parentes evitaram falar com a imprensa 
Crédito: Fernando Frazão / Agência Brasil

A guia de sepultamento do coronel da reserva Paulo Malhães sugere como causa de sua morte um ataque cardíaco. No documento, que é emitido para possibilitar o enterro da vítima, a causa mortis é descrita como “edema pulmonar, isquemia do miocárdio, miocardiopatia hipertrófica, evolução de estado mórbido (doença)”.

O corpo do militar, que admitiu a prática de tortura durante a Ditadura Militar, foi enterrado na tarde deste sábado, no Cemitério Municipal de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Ele morreu ontem, quando três homens invadiram sua residência, onde também estavam sua esposa e um caseiro, no interior do município. Do local, foram levadas diversas armas que Malhães colecionava.

• Coronel que confessou tortura é assassinado no Rio
• Maria do Rosário vê como “estranho” o assassinato de coronel

No cemitério, parentes evitaram falar com a imprensa. “A gente enterrou hoje o pai, o esposo, o avô das meninas. O coronel, o tirano, é para vocês. Para gente, ficou só o pai. O coronel da ditadura não era este que a gente conhecia”, disse a filha do militar, que se identificou apenas como Carla.

O genro do coronel da reserva, Nelson Viana, disse que a família não tinha ideia do que realmente teria acontecido na casa do militar. “Dizem que foi um assalto. Nós não temos hipótese.” Perguntado se Malhães sofria algum tipo de ameaça, Viana negou. “Ele nunca falou nada e a gente sempre respeitou isso. Nem antes, nem depois (do depoimento à Comissão Nacional da Verdade) Ele sempre foi uma pessoa super reservada. Nunca comentou nada e a gente até foi surpreendido pelas entrevistas.”

Em depoimento à comissão, há um mês, o coronel Malhães foi o primeiro militar a admitir prática de tortura, assassinatos e ocultação de cadáveres de presos políticos durante a ditadura militar, tendo inclusive falado sobre o destino do corpo do deputado Rubens Paiva, morto pelos militares em 1971, mas até hoje não localizado, que teria sido jogado ao mar.

Fonte: Agência Brasil