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Rússia cria bloco comercial com ex-repúblicas da União Soviética

Por Raushan Nurshayeva e Alexei Anishchuk

ASTANA (Reuters) – O presidente russo, Vladimir Putin, assinou um tratado com o Cazaquistão e com a Belarus nesta quinta-feira para criar um amplo bloco comercial, na esperança de que isso desafie o poder econômico dos Estados Unidos, da União Europeia e da China.

Putin nega que a concepção da União Econômica Eurasiática com os dois países (ex-membros soviéticos), junto com a anexação da Crimeia pela Rússia, significa que ele quer reconstruir uma União Soviética pós-comunismo, ou o tanto quanto conseguir. 

Mas sua intenção, no entanto, é fazer com que essa aliança demonstre que as sanções ocidentais impostas por conta da crise na Ucrânia não isolem a Rússia. O bloco tem um mercado de 170 milhões de pessoas e um PIB combinado anual de 2,7 trilhões de dólares, além de amplos recursos energéticos. 

“Nossa reunião de hoje tem um significado especial e, sem exagero, definidor de uma época”, disse Putin sobre o tratado, assinado sob altos aplausos de autoridades, na moderna capital do Cazaquistão, Astana. 

“Este documento traz nossos países para um novo estágio de integração, ao passo que preserva inteiramente a soberania dos Estados”, acrescentou. 

O acordo também foi assinado pelo presidente cazaque, Nursultan Nazarbayev, e pelo presidente bielorusso, Alexander Lukashenko.

Reuters

Conheça a história do reencontro de uma alemã com um veterano soviético da Segunda Guerra Mundial

9/05/2014 Tatiana Marchanskih, especial para Gazeta Russa
Em 2007, Frau Valdhelm e Ivan Bivshikh finalmente trocaram as alianças. O objetivo em busca do qual eles trilharam um longo caminho durante sessenta anos concretizou-se em apenas alguns minutos.
 
Conheça a história do reencontro de uma alemã com um veterano soviético da Segunda Guerra Mundial
Ivan Nikolaievich Bivshikh e Frau Valdhelm Foto: revista “Neizvéstnaia Sibir”

Em 2007, Elizabeth Valdhelm, então com 80 anos, foi à Embaixada russa na Alemanha e pediu um visto para viajar para a Sibéria. Ela iria ao encontro de Ivan Bivshikh, um veterano de guerra que não via há 60 anos e com quem pretendia se casar.

Essa foi a continuação de uma das histórias de amor mais comoventes entre uma moça alemã e um soldado soviético.

Um casamento incomum

Bem antes do início da cerimônia, cerca de uma centena de jornalistas enviados de Moscou, Berlim e das revistas e jornais locais se reuniam no prédio do Cartório de Registro Civil da cidade de Krasnoiarsk. Muitos ainda não acreditavam naquele evento que estavam cobrindo. Um ex-soldado do exército vermelho e uma mulher que outrora fora uma moça comum de uma pequena cidadezinha alemã chamada Heyerode se casariam aos oitenta anos de idade.

O casal chegou ao Palácio dos Casamentos em grande estilo, em um Lincoln preto. Bastou Ivan Nikolaievich Bivshikh e Frau Valdhelm saírem do carro para imediatamente começarem os cliques das câmeras.

“O que significa o casamento para vocês?”, gritavam os repórteres de um lado. “Como vocês conseguiram encontrar um ao outro?”, soava a pergunta vinda do outro lado. Antes mesmo de começar, a festa transformou-se em uma entrevista coletiva improvisada.

“Vocês afirmam que desejam se casar por livre e espontânea vontade?”, perguntou a funcionária do cartório.

“Sim! É claro que sim!”, respondeu Elizabeth, com uma risada.

Depois de um processo de divórcio que se estendeu por dois longos anos e da dificuldade para conseguir um visto, Frau Valdhelm e Ivan Bivshikh finalmente trocaram as alianças. O objetivo em busca do qual eles trilharam um longo caminho durante 60 anos concretizou-se em apenas alguns minutos.

Logo após o casamento, o casal se mudou para um espaçoso apartamento, presente do ex-governador da região de Krasnoiarsk.

Elizabeth, que recebia uma considerável pensão na Alemanha, resolveu decorar pessoalmente o local. Comprou tapetes, louça, sofá e duas poltronas.

Os dois, então, iniciaram a vida de casal –passeavam muito, liam e conversavam. Comunicavam-se principalmente em alemão: Ivan Nikolaievich não esquecera o idioma desde a época da guerra.

A guerra

Depois que o seu regimento se estabeleceu na Turíngia, Ivan, um sargento de 20 anos, foi nomeado comandante em três assentamentos alemães de uma só vez: Heyerode, Diedorf e Aygenriden. Era julho de 1945.

Dizem que não existia amizade entre russos e alemães naqueles dias. Ivan afirma o contrário. Diz ter sido muito amigo de Günter, um alemão da cidade de Heyerode, que tinha sido, anteriormente, soldado da Wehrmacht. Eles se encontravam com frequência, conversavam muito e, certa vez, o alemão apresentou a ele sua irmã mais nova, Elizabeth.

Os soldados do exército vermelho eram proibidos de encontrar-se com moças alemãs. Mas isso não impediu Ivan. Tendo se apaixonado por Lizchen (como ele carinhosamente a chamava), ele alugou um pequeno apartamento e eles começaram a viver juntos. Todos tinham conhecimento de seu relacionamento com a alemã. Mas a maioria fechava os olhos em relação ao fato.  E a situação permaneceu assim até o dia em que Ivan anunciou que pretendia se casar com Elizabeth.

Ele foi rapidamente enviado de volta à URSS, e Lizchen permaneceu na Alemanha. Nenhum deles sabia se um dia tornariam a se encontrar novamente, mas em suas cartas, ambos falavam do encontro tão esperado constantemente.

Sua correspondência durou dez anos. Durante esse tempo, Ivan afirma não ter nem olhado para outras moças. Neste período, Elizabeth não se casou.

“Fiquei esperando por Vania (diminutivo de Ivan). Tinha esperanças. Pensei que quando Stálin morresse, tudo iria se resolver”, confessou em uma entrevista.

Foi Ivan quem terminou com a troca de correspondências. Em 1956,  foi convocado pelos órgãos competentes, que exigiram dele a interrupção da troca de mensagens.

Ameaçaram-no com o envio para o norte.

Ele escreveu uma carta de despedida para Elizabeth e, tomando coragem, colocou-a na caixa do correio. Logo casou-se.  Liza também.

Mas, tendo ficado sozinho na velhice, o aposentado de Krasnoiarsk frequentemente recordava o passado. Inclusive a sua parte mais luminosa –a vida no pequeno apartamento alemão com a sua Lizchen.

O encontro

Foi quando certo dia pediram a Ivan que fizesse a barba e vestisse um terno, supostamente à espera de uma reunião com uma pessoa importante que havia se interessado pelo seu trabalho na sociedade histórica e genealógica.

De manhã bem cedo, seus colegas foram buscá-lo de carro e partiram com ele para um destino desconhecido. Ivan ficou resmungando: “Quem vocês pensam que eu sou, um moleque? Isso é modo de se comportar comigo? Vamos, digam aonde estamos indo!”

O carro brecou em frente a uma casa desconhecida.  “Agora, você deve subir até o segundo andar”, pediram os organizadores da surpresa.  “Assim que entrar, vai entender tudo”.

Ivan entrou na casa, irritado com o que estava acontecendo. À janela do segundo andar havia uma senhora de idade, com uma aparência bem cuidada, com uma cabeleira grisalha e que lhe acenava com a mão.

Foi como um sonho. Durante muito tempo, os dois não conseguiam acreditar que o que estava acontecendo era real.

“Como você encontrou-me?”, Ivan perguntou perplexo.

Revelou-se que seus colegas há muito tinham estudado a sua biografia, sabiam de Elizabeth, a encontraram na Europa, telefonaram para ela e propuseram que viesse à Krasnoiarsk.

O fim

Elizabeth Valdhelm morreu há três anos. Ao ficar doente, viajou para a Alemanha para um tratamento. De lá, ligava várias vezes por dia para o marido: “eu voltarei para casa daqui um mês, no mais tardar dois”, prometia.

Mas as chamadas cessaram.

“A Liza teve paralisia”, disse uma familiar sua ao telefonar uma semana mais tarde. Depois de mais alguns dias veio a notícia de sua morte.

Ivan não foi ao funeral de Elizabeth; seus filhos não permitiram. Ficaram com receio de que o coração do velho não aguentasse a emoção.

“Eu ainda a amo”, disse o veterano de guerra. “Amo-a muito, com toda a força”.

Gravadora soviética ‘Melódia’ comemora 50º aniversário

Estúdio lançou discos dos Beatles, Rolling Stones e outras estrelas da música ocidental durante a URSS.
Gravadora soviética 'Melódia' comemora 50º aniversário
Melódia era também a grande exportadora de discos de músicos soviéticos Foto: ITAR-TASS

É comum acreditar que na União Soviética não existia o conceito de direitos autorais. Mas não era bem assim. O conceito foi introduzido na legislação soviética ainda em 1925, quando as normas de direitos autorais foram fixadas, e, em 1973, a União Soviética aderiu parcialmente à Convenção Universal do Direito de Autor.

Isso permitiu à maior gravadora da URSS, Melódia, a dispor de material importado. Por exemplo, canções dos The Beatles apareciam em diversos álbuns da empresa, embora o nome do grupo não fosse indicado ou aparecesse distorcido.

Em 1987, a Melódia lançou a coletânea “Arquivos do Rock”, que mais tarde virou “Arquivos da Música Pop”, com músicas de artistas pop e rock anglo-americano dos anos 1950-70. Nessa série entraram gravações de Elton John, Doors, Rolling Stones, Stevie Wonder e Elvis Presley, entre outros.

A Melódia não havia comprado o direito de executar essas gravações, mas por ter assinado parcialmente a convenção, a gravadora não tinha que pagar aos autores estrangeiros pelas obras lançadas no exterior antes de 1973.

Exportação soviética

A Melódia era também a grande exportadora de discos de músicos soviéticos. Inicialmente, os seus interesses no mercado internacional eram representados pela Associação Mejdunaródnaia Kniga.

Em 1965, a empresa alemã Ariola-Eurodisk assinou um contrato com a Melódia para a venda de discos de música clássica no território da República Federal Alemã. No ano seguinte, também os norte-americanos da Capitol assinaram um contrato com a empresa soviética. A Capitol pretendia, em associação com a Melódia, lançar 300 milhões de discos de vinil de música clássica em quatro anos. O sucesso foi enorme, e as gravações da Melódia receberam um disco de ouro nos EUA.

Em 1970, a Melódia já comercializava a sua produção em mais de 60 países. O seu principal produto de exportação ainda era música clássica. A empresa venceu mais do que uma vez o prêmio internacional independente no campo da música clássica, o ICMA. As últimas vezes foram no ano passado, pela melhor gravação histórica com o lançamento do CD “As Estações Russas”, de Igor Stravinsky, e neste ano, devido ao seu 50º aniversário.

Recordes a la Beatles

Em 1988, Paul McCartney gravou na Melódia o álbum “Back in the USSR”. O álbum foi lançado apenas na União Soviética, o que aumentou o interesse dos fãs e a agitação em torno do disco.

O próprio McCartney afirmou que queria “virar a situação de cabeça para baixo”, já que os soviéticos amantes da música não tinham a possibilidade de comprar discos de seus músicos favoritos e se viam obrigados a gravá-los ilegalmente.

No entanto, os fãs ocidentais do cantor não sofreram por muito tempo. Em 1991, a URSS deixou de existir, e o álbum foi relançado para o mundo inteiro.

O disco era uma seleção de músicas da década de 1950 que McCartney gostava na juventude – sucessos de Duke Ellington, Little Richard, Eddie Cochran e outros. O álbum “Back in the USSR” também colecionou recordes: teve a maior tiragem entre os lançamentos de cantores estrangeiros (mais de 500 mil cópias), chegou a ser o disco mais caro do mundo (os colecionares estavam dispostos a pagar entre US$ 150 e 200) e foi o produto de maior exportação da Melódia.

Análogo do Grammy

Em 1981, foi criado na URSS o prêmio honorário “Disco de Ouro”, que se tornou um equivalente ao Grammy norte-americano. A principal diferença em relação ao análogo ocidental eram os princípios de escolha – no caso do Disco de Ouro, o sucesso comercial do disco tinha menos peso para a atribuição do prêmio.

O prêmio não se dividia em várias nomeações e era concedido anualmente. O primeiro vencedor do prêmio foi o Museu Central Lenin, pela série de “Leniniana Gravada”. O Disco de Ouro chegou a ser entregue ao pianista Sviatoslav Richter, ao maestro Guennádi Rojdestvenski e ao grupo do Teatro Bolshoi. O único estrangeiro a receber o prêmio foi Paul McCartney, pelo já mencionado “Back in the USSR”, que você poderá ouvir abaixo>

Publicado originalmente pela Gazeta.ru

Memórias da infância soviética

3/05/2014 Elena Revínskaia, especial para Gazeta Russa
Lembranças de uma época em que todas as crianças eram treinadas para se tornarem bons comunistas.
Memórias da infância soviética
Antes de se tornarem comunistas, crianças da URSS passavam por várias etapas Foto: Tatiana Korablinova

Dizem que a infância é um dos melhores momentos da nossa vida, um período sem preocupações e problemas. Isto é, quando você não tem que alimentar sua família, e pode simplesmente jogar com seus amigos, comer, dormir e curtir a passagem do tempo. Quanto daria para voltar a esse tempo despreocupado da nossa vida!

Algum tempo atrás eu compartilhei com meus leitores as minhas memórias de infância durante a época soviética. Sem querer, o meu artigo acabou sendo tomado de forma negativa, dando a impressão enganosa de que a nossa infância era difícil e infeliz. Foi difícil, mas definitivamente não foi infeliz. Além disso, acredito que a nossa infância foi mais gratificante do que a das crianças de hoje.

Provavelmente isso está mais relacionado àquela época do que ao regime político. Não tínhamos preocupações nem medo. Passávamos o dia inteiro brincando na rua, andando de bicicleta, skate ou simplesmente andando por aí. Não havia telefones celulares nem seguranças, e tínhamos permissão de  ir aonde quiséssemos, sem dizer aos pais.

Agora de volta aos soviéticos. O Partido Comunista treinava seus seguidores desde muito cedo. A partir da 1ª série, as crianças recebiam o título de “oktiabrionok”, isto é, “criança do Outubro Vermelho”. Ganhávamos um broche em formato de estrela, com uma imagem de Lênin bebê. Não nos ligávamos muito nisso. Quando chegava a hora de ser aceito para “Pioneiros” – o próximo passo para se tornar um comunista – era muito importante. Até o final da 3ª série, éramos avaliados quanto à nossa qualificação para nos tornarmos pioneiros. As crianças mais velhas e professores verificavam as notas, comportamento, conquistas e assim por diante. O evento de recepção dos novos pioneiros era grandioso e emocionante. Os pioneiros amarravam um tipo de bandana vermelha no pescoço e, a partir de então, se tornavam jovens membros responsáveis ​​do Partido Comunista.

Fomos ensinados a cuidar e proteger a natureza. Parece bobo, mas nós literalmente tínhamos que cuidar da natureza. Uma das nossas atividades favoritas era brincar de “enfermeiros” e curar as árvores. Carregávamos a malinha da Cruz Vermelha com suprimentos médicos: ataduras, tesoura, algodão, antisséptico e íamos totalmente preparados para o projeto de “curar as árvores”.  Ao encontrar galhos quebrados, caules cortados e arbustos tortos, aplicávamos um pouco de antisséptico e colocávamos curativos. Era uma sensação e desenvolvíamos a noção de cuidado.

Costumávamos nos arriscar bastante e fazer um monte de coisas perigosas. Imagine:  crianças de 10 anos de idade resolviam saltar sobre os telhados das garagens de metal com superfícies escorregadias e bordas afiadas. Para saciar a sede, pegávamos um pedaço de gelo na mesma garagem de metal e chupávamos como um sorvete. Sujeira e bactérias – quem se importava! Sempre que ficávamos doentes, nossas mães tinham soluções “exclusivas”. Quando tive dor de garganta, minha mãe iria aplicava querosene e funcionava! Para as crianças que tinham deficiência de vitamina D, a cura vinha cavando um buraco na areia quente, colocando a criança lá dentro e cobrindo com areia. Quem estava com uma lasca de madeira no dedo, a melhor saída era colocá-lo em água fervente por três vezes. Essas coisas ainda me fazem sorrir e trazem de volta memórias felizes.

A melhor herança dos tempos soviéticos era a oferta de educação gratuita. A abordagem do socialismo quando se tratava de igualdade significava oportunidades gigantescas para os cidadãos soviéticos. Tínhamos um sistema de ensino muito bom, uma rede bem desenvolvida de instalações extracurriculares e um enorme apoio do governo para desenvolver habilidades esportivas. Na minha memória ficaram as idas anuais a um acampamento de pioneiros; primeiro como alunos e depois como líderes. Era sempre uma grande experiência. Em primeiro lugar, ficava localizado fora da cidade em uma floresta profunda da Sibéria, com ar fresco, belas paisagens e sem o barulho da cidade.

Toda a ideologia da época soviética dava muita atenção à disciplina. Acredito que era necessário para manter a sociedade ajustada sob o regime comunista. Todos os dias no campo tínhamos uma agenda parecida a do exército: acordar às 7 da manhã, fazer exercício coletivo, tomar café da manhã juntos, seguido de atividades de artesanato, música ou dança, e assim o dia ia se estendendo. Minha hora predileta era à noite ao lado da fogueira com um violão cantando músicas ou jogando.

Minha infância soviético ficou cheio de belas recordações daqueles tempos, repleta de regras e disciplina. Fomos ensinados a superar as dificuldades e aceitar as pessoas não por causa de sua renda ou status, mas pelo seu coração acolhedor e personalidade.

noticias gerais e, especificamente, do bairro do Brás, principalmente do comércio